É um relógio suíço com pavio curto.

Essa é a melhor forma de descrever o meio-campo japonês montado por Hajime Moriyasu para a Copa do Mundo: preciso, calibrado, mas extremamente sensível a qualquer peça que saia do lugar. E a peça que saiu desta vez foi a mais importante de todas. Wataru Endo, 33 anos, capitão, 73 jogos pela seleção, foi cortado nesta quinta-feira (11) por lesão — problema físico que a federação japonesa não detalhou oficialmente.

O timing é brutal. O Japão estreia no dia 15 de junho contra a Holanda, em Dallas, e já havia perdido os atacantes Kaoru Mitoma e Takumi Minamino durante a preparação. Três peças titulares fora antes de uma única bola rolar. Moriyasu agora precisa reescrever parte do roteiro tático com menos de uma semana para o jogo mais difícil da fase de grupos.

O que Endo fazia que ninguém via nos destaques

Endo não é o tipo de jogador que aparece nos compilados de gols. Ele é o motivo pelo qual esses compilados existem para os companheiros. No Liverpool, sob Arne Slot, o volante acumulou números consistentes de PPDA — uma métrica que mede a pressão defensiva de um time dividindo as ações permitidas ao adversário pelas ações defensivas aplicadas. Quanto menor o PPDA, mais agressivo é o bloqueio da equipe. Endo era o ponto de referência desse sistema: sabia quando pressionar, quando recuar e quando cobrir o espaço entre as linhas.

Pela seleção japonesa, seu papel era ainda mais específico:

  • Proteção à linha defensiva: interceptava passes progressivos antes que chegassem aos atacantes adversários, função que exige leitura de jogo acima da média.
  • Saída de bola limpa: era o primeiro receptor dos zagueiros, distribuindo com segurança para os meias mais avançados.
  • Liderança em campo: com 73 partidas e a braçadeira de capitão, ele era o termômetro emocional do grupo — especialmente em momentos de pressão.

Para contextualizar em linguagem de dados: um volante com bom PPDA individual gera, em média, 4 a 6 ações defensivas por 90 minutos (pressões, duelos ganhos, interceptações). Endo operava consistentemente nessa faixa pelo Liverpool na temporada 2025/2026, mesmo com uso rotativo. Substituir essa função com alguém que nunca jogou numa Copa do Mundo é um salto de complexidade enorme.

"Quando você perde o volante que organiza a pressão coletiva, não é só uma posição que fica vazia — é o sistema inteiro que perde o ponto de equilíbrio." — comentarista e ex-volante da seleção asiática, em análise pré-Copa

Machino entra, mas a posição ainda está em aberto

A federação japonesa convocou Shuto Machino, atacante de 26 anos do Borussia Mönchengladbach, para ocupar a vaga deixada por Endo na lista. O detalhe é revelador: Machino é atacante, não volante. Ou seja, a federação não encontrou um substituto direto para a função — e Moriyasu terá que reorganizar o quebra-cabeça internamente.

Machino tem 14 jogos pela seleção e 5 gols marcados, o que o torna uma opção ofensiva válida para compensar a ausência de Mitoma e Minamino. Mas a lacuna no meio-campo defensivo permanece sem uma resposta clara na convocação.

O que Endo fazia que ninguém via nos destaques Como o Japão joga a Copa sem Endo
O que Endo fazia que ninguém via nos destaques Como o Japão joga a Copa sem Endo

As alternativas internas que Moriyasu pode explorar:

  1. Yuki Soma ou Hidemasa Morita numa função mais recuada — Morita, especialmente, tem perfil de volante de contenção pelo Sporting CP e pode ser a opção mais próxima do que Endo oferecia.
  2. Mudança de esquema: sair do 4-2-3-1 tradicional para um 4-3-3 com três meias, distribuindo melhor a responsabilidade defensiva sem depender de um único pivô.
  3. Compactação do bloco médio: abrir mão da pressão alta — algo que o Japão usa bem — e adotar uma postura mais conservadora, especialmente contra a Holanda.

Nenhuma dessas soluções é perfeita. A primeira exige adaptação de função. A segunda altera identidade tática. A terceira pode neutralizar justamente o que torna o futebol japonês atrativo: a intensidade na marcação.

Três cortes, uma Copa e a conta que não fecha para Moriyasu

O Japão chega ao Mundial como uma das seleções asiáticas mais respeitadas — e com razão. A campanha nas Eliminatórias foi sólida, o elenco tem qualidade europeia distribuída em vários setores, e Moriyasu construiu uma identidade tática reconhecível. Mas três desfalques titulares antes da estreia criam um problema matemático simples: você não repõe qualidade com quantidade.

Mitoma, do Brighton, era o desequilíbrio individual pelo lado esquerdo. Minamino, do Monaco, era a mobilidade e a chegada à área. Endo era a cola que mantinha tudo junto no meio. Perder os três é perder três funções distintas e insubstituíveis de forma direta.

Em matéria do SportNavo, já havíamos apontado que o Japão tinha no trio Endo-Mitoma-Minamino seu núcleo tático mais robusto. A lógica era simples quando traduzida em xG — o expected goals, que mede a qualidade das chances criadas com base em histórico de situações similares. Com Mitoma e Minamino em campo, o Japão gerava em torno de 1,8 xG por jogo nas Eliminatórias. Sem eles, e agora sem o filtro de Endo para construir a saída de bola que alimentava esses ataques, esse número tende a cair de forma significativa.

O grupo japonês tem Espanha e Croácia além da Holanda — adversários que exploram exatamente o tipo de espaço que Endo cobria. Moriyasu terá que tomar uma decisão tática até domingo, quando o Japão realiza seu último treino antes da viagem para Dallas. A escolha entre manter o sistema e adaptar os nomes, ou mudar o sistema para proteger os jogadores disponíveis, vai definir até onde os Samurais Azuis chegam nesta Copa.