Três coisas: quarenta anos, uma posição disputada e a última Copa da carreira. Tudo o que Guillermo Ochoa representa neste Mundial se explica a partir daí.

O número seis e o peso que ele carrega para Ochoa

Há exatamente vinte anos, um goleiro de 20 anos estreava numa Copa do Mundo pela primeira vez, na Alemanha, sem que ninguém apostasse que ele ainda estaria lá duas décadas depois. Francisco Guillermo Ochoa Magaña — Memo, para o México inteiro — chegou à Copa de 2026 como o único jogador do futebol mundial capaz de igualar, neste torneio, a marca de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo: seis participações em Mundiais. Nenhum outro atleta na história do futebol chegou a esse número. Ochoa, nascido em 13 de julho de 1985 e com 153 jogos pela seleção mexicana, supera com a convocação de Javier Aguirre os patrícios Antonio Carbajal, Rafael Márquez e Andrés Guardado, cada um com cinco presenças. É o recorde absoluto do futebol mexicano — e possivelmente o recorde humano de longevidade em Copas.

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O dado, porém, não vem sozinho. Ochoa não tem a titularidade garantida. O técnico Aguirre distribuiu minutos entre os três goleiros convocados — Raúl Rangel, do Chivas, Carlos Acevedo, do Santos Laguna, e o próprio Ochoa, hoje no AEL Limassol, do Chipre — nos jogos preparatórios, mantendo a disputa em aberto até a véspera da estreia contra a África do Sul, marcada para 11 de junho no Estádio Azteca, na Cidade do México. O veterano, no entanto, respondeu à incerteza com a tranquilidade de quem já viu tudo num campo de futebol.

"Estou animado como na primeira vez. Estou trabalhando para estar em campo no dia 11, se essa for a decisão do treinador", afirmou Ochoa antes da estreia.
"Se eu jogar 90 minutos, cinco minutos, dez minutos, um minuto ou nem entrar em campo, estarei pronto."

Uma trajetória de defesas que o México não esquece

Para entender o que Ochoa representa, basta percorrer o fio das Copas. Em 2006, na Alemanha, ele foi convocado mas não jogou. Em 2010, na África do Sul, participou como reserva. A virada veio em 2014, no Brasil, quando uma atuação no Castelão contra a seleção brasileira o transformou em ídolo continental: Neymar em estado de graça, chutes de David Luiz, cruzamentos de Oscar — e o México saiu com um 0 a 0 que parecia milagre. Ochoa foi eleito o melhor em campo mesmo numa partida em que o Brasil desperdiçou pelo menos quatro chances claras. Em 2018, na Rússia, ele foi peça central na vitória histórica sobre a Alemanha campeã do mundo, 1 a 0, com gol de Lozano. Quatro anos depois, no Catar, já com 37 anos, defendeu o pênalti cobrado por Robert Lewandowski aos 12 minutos do segundo tempo da partida contra a Polônia — defesa que evitou a derrota mexicana na estreia e terminou em empate por 0 a 0.

A sequência constrói um perfil raro: Ochoa não foi apenas longevo, foi decisivo. Seis Copas consecutivas convocado, com atuações memoráveis em pelo menos três delas, num país que eliminou nas oitavas de final em todos os Mundiais desde 1994 — o chamado quinto partido, a maldição que persegue o futebol mexicano há três décadas.

O próprio goleiro já anunciou que este será seu último torneio. Em abril de 2026, declarou à emissora TUDN que planejava se aposentar do futebol após o encerramento da participação mexicana no Mundial.

"Chega um ponto em que sua mente e seu corpo dizem: 'Você deu tudo de si', e você vai embora em paz, e esse será o meu caso", disse.

Messi no mesmo palco, no mesmo recorde, em grupo diferente

Que outro nome poderia dividir esse marco senão o de Lionel Messi? O argentino, que chegará ao torneio com 39 anos, também está a caminho da sexta Copa — e, ao contrário de Ochoa, com a titularidade incontestável e a braçadeira de capitão que defende há anos. A Argentina, atual campeã mundial, foi campeã em 2022 no Catar, resultado que transformou Messi no único jogador a vencer o torneio em três décadas diferentes de carreira. Ronaldo, o terceiro nome no clube dos seis, chegará ao mesmo número, ainda que em pelo menos uma de suas participações não tenha entrado em campo — assim como Ochoa em 2006.

Os dois — goleiro mexicano e camisa 10 argentino — estão em grupos diferentes na Copa de 2026. O México ocupa o Grupo A e abre o torneio justamente na quinta-feira, 11 de junho, contra a África do Sul. A Argentina está em outro grupo, com um caminho que, caso ambas as seleções avancem, poderia convergir apenas nas fases eliminatórias. Seria a reedição, em outro estágio, de um duelo que marcou o Catar em 2022: Messi contra Ochoa, atacante contra goleiro, recordista contra recordista.

Há uma simetria quase literária nisso. Messi chegou ao primeiro Mundial em 2006, na mesma Copa em que Ochoa estreou, mas sem entrar em campo na fase de grupos. Ochoa chegou ao mesmo torneio com 20 anos e ficou no banco. Vinte anos depois, estão no mesmo ponto da contagem, vindos de caminhos radicalmente opostos — um como o maior artilheiro e campeão do mundo, o outro como o goleiro que defendeu pênalti de Lewandowski e segurou o Brasil no Castelão.

O que separa um ídolo de uma lenda não é apenas o título — é quantas vezes ele voltou quando o mundo esperava que parasse.

O México estreia em 11 de junho, às 16h (horário de Brasília), contra a África do Sul no Estádio Azteca. Ochoa, com 153 jogos pela seleção e uma carreira inteira guardada na memória do torcedor mexicano, pode começar no banco — e ainda assim fazer história apenas por estar lá.