Sumiu. Não de uma lista, mas de cinco ao mesmo tempo — e de veículos que cobrem futebol com seriedade crescente nos Estados Unidos. O Neymar não aparece entre os 25 melhores da Copa 2026 segundo o USA Today, ficou fora dos top 50 da ESPN americana e do The Athletic, não entrou nos 99 do Bleacher Report e foi ignorado pelo Fox Sports num ranking de 100 atletas — no qual constam jogadores que sequer foram convocados para o torneio. São cinco redações distintas, com metodologias distintas, chegando à mesma conclusão.
A narrativa que o Brasil construiu sobre Neymar
Há anos o debate sobre Neymar no Brasil oscila entre dois polos igualmente pouco analíticos: o da devoção incondicional ao talento histórico e o da hostilidade pela sequência de lesões. Entre 2022 e 2026, o atacante do Al-Hilal acumulou rupturas no ligamento cruzado anterior do joelho direito, cirurgias e longas ausências que o mantiveram fora de campo na maior parte dos últimos dois anos. Apesar disso, uma parcela relevante da imprensa nacional ainda o trata como referência automática de qualidade, ancorada na memória do jogador que foi consistentemente apontado entre os três melhores do mundo entre 2012 e 2017.
Esse apego tem explicação cultural. O Brasil carece de um substituto de mesmo porte simbólico desde que Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho encerraram seus ciclos de excelência. Endrick, convocado para este Mundial com apenas 18 anos, ainda acumula poucos minutos na Real Madrid — clube pelo qual marcou 8 gols em 1.247 minutos na temporada 2025/26, distribuídos em 31 aparições. Raphinha, o camisa 10 do Barcelona, tem desempenhado o papel de liderança técnica no elenco de Carlo Ancelotti, mas não carrega o mesmo peso afetivo junto à torcida. Neymar, então, permanece como ícone mesmo quando os dados de campo não sustentam mais o posto.
O que os números revelam sobre o status real do jogador
Reparemos no detalhe que a nostalgia frequentemente encobre: desde outubro de 2023, quando rompeu o ligamento cruzado em partida pelo Brasil nas Eliminatórias, Neymar disputou menos de 400 minutos de futebol profissional. Pelo Al-Hilal na temporada 2024/25, fez apenas 7 aparições, com zero gols e zero assistências no campeonato saudita. Para efeito de comparação estatística, Endrick, com 18 anos, já superou esse volume de minutos apenas na Liga dos Campeões 2025/26.
A coluna de opinião da ESPN americana, registrada também por SportNavo, resume o argumento com clareza:
"Dá para discutir muita coisa de opiniões de americanos sobre futebol, mas eles são mais realistas que boa parte dos brasileiros sobre o status de Neymar na Copa."O texto ainda reconhece que o talento persiste e que o jogador pode ser decisivo em momentos pontuais, mas conclui que, "pensando de forma racional, não dá para colocar Neymar mesmo em uma lista de 100 melhores jogadores da Copa." É uma distinção que o debate brasileiro raramente consegue fazer com frieza: talento potencial não equivale a impacto esperado.
Cafu, pentacampeão mundial e um dos maiores laterais da história do futebol brasileiro, publicou artigo na La Gazzetta dello Sport em que aposta no Brasil de Ancelotti, mas não cita Neymar como peça central. O foco do ex-capitão recai sobre o espírito coletivo, lembrando que em 2002 foi Ronaldinho Gaúcho quem animou a delegação com músicas e danças durante a preparação — e não um único craque individual.
"Se conseguirmos criar o espírito de equipe certo, poderemos ser uma das seleções mais difíceis de enfrentar", escreveu Cafu, apontando para uma leitura coletiva da competição que o debate sobre Neymar frequentemente obscurece.

Brasil estreia sábado e o contexto real importa mais que o símbolo
A estreia do Brasil na Copa do Mundo 2026 está marcada para sábado, 13 de junho, contra Marrocos. A seleção africana chega ao confronto já enfraquecida: nesta terça-feira, 10, a federação marroquina confirmou os cortes do zagueiro Nayef Aguerd, com lesão na virilha, e do atacante Abde Ezzalzouli, com entorse no joelho durante a preparação. Os dois foram substituídos por Marwane Saadane e Amine Sbai, atletas que já integravam o grupo de treinamentos mas com menor rodagem internacional.
O contexto favorável à estreia brasileira não apaga a questão estrutural levantada pelos rankings americanos. Enquanto a imprensa nacional debate o peso simbólico de Neymar, os veículos que montaram suas listas de melhores da Copa 2026 enxergam o torneio como ele se apresenta agora — não como ele poderia ter sido em 2018 ou 2022. O Brasil de Ancelotti tem em Vinicius Júnior, Raphinha e Rodrygo seus pilares ofensivos mais confiáveis, todos com temporadas europeias de alto volume e consistência. Essa é a seleção que joga sábado, no estádio MetLife, em Nova Jersey, às 18h (horário de Brasília), diante de um Marrocos que perdeu dois titulares na véspera.








