12 de junho de 2026, 21h47, Los Angeles. Daqui a pouco mais de uma hora, as luzes do SoFi Stadium vão acender com uma intensidade que poucos estádios do mundo conseguem replicar. O calor seco do sul da Califórnia ainda paira sobre as arquibancadas quando os primeiros torcedores começam a pintar o rosto de vermelho, branco e azul. Lá dentro, no túnel, a seleção dos Copa do Mundo dos Estados Unidos faz o aquecimento final antes do jogo mais importante de sua geração. Do outro lado, o Paraguai — de volta a um Mundial depois de 16 anos de ausência — tenta esconder o nervosismo atrás de uma base sólida de jogadores que o torcedor brasileiro conhece de cor.
O vestiário que Pochettino reconstruiu tijolo por tijolo
A história recente da seleção americana não era bonita. Gregg Berhalter foi demitido após uma campanha constrangedora na Copa América de 2024, disputada no próprio território norte-americano. A federação foi atrás de um nome grande — e trouxe Mauricio Pochettino, o argentino que já havia comandado Tottenham, PSG e Chelsea. A missão era clara: transformar um grupo de talentos dispersos em uma equipe com identidade.
O começo foi turbulento. Pochettino passou meses experimentando formações, testando jogadores em posições diferentes, gerando mais dúvidas do que certezas. Vexames na Copa Ouro e derrotas para seleções de peso fizeram a torcida americana questionar a contratação. Mas algo mudou nos amistosos pré-Copa. O técnico voltou ao que havia funcionado: o 3-4-3 que havia esmagado o Uruguai por 5 a 1 no ano passado. Contra o Senegal, vitória. Contra a Alemanha, derrota, mas com um futebol reconhecível. A sensação no vestiário, segundo pessoas próximas à comissão técnica, era de que finalmente havia um plano.
"Antes da partida, passei duas mensagens aos jogadores: não desistirem até o fim e se unirem como um só para jogarem juntos", disse Hong Myung-bo, técnico da Coreia do Sul, após a virada sobre a República Tcheca por 2 a 1 em Guadalajara — uma frase que poderia ter saído da boca de Pochettino neste 12 de junho.
A peça central do novo esquema americano tem nome e sobrenome: Alex Freeman. Revelado como lateral no Orlando City, hoje no Villarreal, o jovem atua como zagueiro pelo lado direito no 3-4-3 de Pochettino. Confortável com a bola no pé, ele inicia jogadas, se projeta ao ataque e permite que Sergiño Dest — excelente em profundidade, mas vulnerável defensivamente — jogue com mais liberdade. Do lado esquerdo, Antonee Robinson continua sendo um dos melhores alas do torneio. A formação esconde as fraquezas e potencializa as virtudes. Isso não é acidente. É tática.
40% do elenco com raízes de imigrantes — e o que isso significa em campo
Tem algo diferente nesta seleção americana que vai além da tática. Aproximadamente 40% dos jogadores convocados por Pochettino são filhos de imigrantes — uma estatística que conta uma história sobre quem são os Estados Unidos em 2026. Esses jogadores cresceram entre dois mundos: o futebol da terra dos pais e a cultura americana. Muitos deles passaram pela Europa ainda adolescentes, forjando uma mentalidade competitiva que gerações anteriores da seleção americana simplesmente não tinham.
Para medir o impacto real desse elenco, basta olhar para um dado técnico: o xG — Expected Goals, ou gols esperados, uma métrica que calcula a qualidade das chances criadas, não apenas os chutes a gol. Nos amistosos de preparação, os EUA registraram um xG médio de 1,8 por partida — número que supera seleções como Portugal e Holanda no mesmo período. Em linguagem simples: os americanos não estão apenas chutando mais, estão chegando em posições melhores para marcar. Isso é criação de jogo de alto nível.
Do lado paraguaio, a aposta é em uma base sólida de jogadores com passagem pelo futebol brasileiro. O goleiro Gatito Fernández, ídolo do Botafogo, defende o arco. Na zaga, Gustavo Gómez e Fabián Balbuena — do Palmeiras e do Grêmio, respectivamente — formam um dos pares mais experientes do torneio. No ataque, Maurício e Ramón Sosa, também do Verdão, e Isidro Pitta, do Red Bull Bragantino, são as referências ofensivas. O técnico Gustavo Alfaro sabe que o retrospecto não ajuda: em seis jogos históricos contra os EUA, o Paraguai perdeu quatro e venceu apenas dois. O mais recente, em novembro de 2025, terminou 2 a 1 para os americanos.
Segurança máxima, ingressos caros e a pressão de jogar em casa
O SoFi Stadium não está apenas cheio de torcedores. Está cercado por mais de 400 órgãos de segurança pública, drones, scanners corporais e agentes do Serviço Secreto americano — um por seleção, falando a língua nativa de cada país. Os US$ 625 milhões em subsídios federais adicionais destinados à segurança da Copa nos EUA transformaram cada estádio em uma fortaleza. A presença do ICE foi descartada nos arredores dos jogos, mas a tensão geopolítica — os EUA estão em conflito com o Irã, que também participa do torneio — paira sobre toda a competição.
Os preços dos ingressos geraram polêmica. Torcedores reclamaram dos valores proibitivos, e há relatos de setores parcialmente vazios em alguns jogos — como aconteceu em Guadalajara, onde a Coreia do Sul virou sobre a República Tcheca por 2 a 1, com um público oficial de 44.985, mas com áreas visivelmente incompletas nas arquibancadas. Em Los Angeles, a expectativa é diferente: a torcida americana, especialmente a comunidade latina da Califórnia, prometeu lotar o SoFi.
"Não viemos apenas para ver como os estádios são. Viemos para fazer um resultado", declarou o atacante bósnio Demirovic antes da partida contra o Canadá em Toronto — uma mentalidade que o Paraguai certamente compartilha diante dos anfitriões.
O presidente Donald Trump não deve comparecer à estreia americana, embora sua agenda possa mudar de última hora. O governo deve ser representado por outras autoridades. Mas a ausência do mandatário não diminui o peso do momento: os EUA jogam em casa, com um técnico que finalmente encontrou o caminho, um elenco com identidade e uma geração que cresceu acreditando que o futebol americano pode competir com o mundo. Pelo Grupo D, os próximos adversários são Austrália, no dia 19, e Turquia, no dia 25 — e, dependendo dos resultados, um possível confronto com o Irã nas oitavas de final pairaria como o capítulo mais dramático de toda a Copa. Em matéria do SportNavo, a análise é direta: os EUA não são favoritos, mas estão longe de ser zebra. O próximo teste vem em 19 de junho, contra a Austrália — e será nele que saberemos se Pochettino construiu algo de verdade ou apenas um bom ensaio.








