Quem apostaria, há um ano, que a Suécia chegaria à Copa do Mundo como uma das seleções europeias mais interessantes taticamente? A equipe que terminou em último lugar no seu grupo das eliminatórias — atrás de Suíça, Kosovo e Eslovênia — hoje entra em campo com um sistema ofensivo reconhecível, dois dos atacantes mais letais da Europa e um técnico inglês que transformou vergonha em projeto. Neste domingo (14), às 23h (horário de Brasília), Suécia e Tunísia abrem o Grupo F no Estádio BBVA, em Guadalupe, no México. A pergunta que não sai da cabeça de quem acompanhou essa virada é simples: como Graham Potter fez isso tão rápido?
O ar de Monterrey já está quente quando as delegações chegam ao estádio. Temperatura na casa dos 35 graus, céu aberto, gramado impecável. A Tunísia — invicta nas eliminatórias africanas, com sete vitórias e um empate em dez partidas, sem sofrer um único gol — representa exatamente o tipo de adversário que testaria qualquer renascimento sueco antes que ele pudesse ser chamado de real. Do outro lado, Potter observa o aquecimento com aquela postura característica: braços cruzados, olhos no meio-campo, nada por acaso.
O colapso que abriu a porta para Potter
A Suécia de antes de Potter não tinha sistema — tinha nomes. Terminou a fase de grupos das eliminatórias europeias em último lugar, sem conseguir impor ritmo ou identidade contra adversários que, no papel, eram inferiores. A saída do técnico anterior abriu uma janela incomum: uma seleção historicamente competitiva, com elenco de alto nível, precisando ser reconstruída do zero em tempo recorde. Potter aceitou o desafio sabendo que a única saída era pela Copa do Mundo — e que o caminho passava pela repescagem da Liga das Nações.
Quando monta o time ofensivo, ele libera os extremos. Quando pressiona alto, os laterais sobem. Dois movimentos que parecem simples, mas exigiram semanas de trabalho tático para que o elenco absorvesse a lógica sem perder a compactação defensiva. O resultado apareceu na repescagem: a Suécia venceu a Ucrânia por 3 a 1 e depois superou a Polônia por 3 a 2 em dois jogos de alta intensidade, classificando-se para o Mundial com uma identidade que a fase de grupos das eliminatórias nunca teve.
Viktor Gyökeres e Alexander Isak como eixo do projeto
A matéria-prima estava lá. Viktor Gyökeres, artilheiro implacável que vive a melhor fase da carreira, e Alexander Isak, recuperado de lesão e pronto para a Copa, formam uma dupla que pouquíssimas seleções do mundo têm condições de escalar. Potter não apenas os convocou — ele construiu o sistema em torno deles, criando uma parede de passes no meio-campo que funciona como corredor de aceleração para os dois atacantes chegarem ao gol com espaço.
A provável escalação confirmada pela comissão técnica coloca Nordfeldt no gol; Hien, Lindelöf e Lagerbielke na defesa de três; Bernhardsson, Karlstrom, Ayari e Gudmundsson no meio; e Nygren, Isak e Gyökeres no ataque. É um 3-4-3 com muita mobilidade nas linhas, onde Isak e Gyökeres se revezam entre a área e o espaço entre linhas — justamente o tipo de movimento que defesas compactas como a tunisiana têm dificuldade de marcar sem desorganizar a estrutura.
"Temos qualidade para competir com qualquer seleção neste Mundial. O grupo acredita no que estamos construindo", declarou Graham Potter em entrevista coletiva realizada na véspera da estreia em Monterrey.
Os amistosos que acenderam o sinal de alerta
Nem tudo foi perfeito na preparação. A Suécia perdeu para a Noruega por 3 a 1 e empatou com a Grécia em 2 a 2 nos amistosos pré-Copa — resultados que geraram dúvidas legítimas sobre a solidez defensiva do sistema de Potter. A derrota para os noruegueses expôs vulnerabilidade nas transições, especialmente quando os laterais sobem e o espaço nas costas fica descoberto. São problemas reais, e a Tunísia — com Skhiri, Mejbri e Khedira no meio — tem capacidade técnica para explorar exatamente essas transições.

A seleção tunisiana chega ao confronto com um histórico de preparação irregular em 2026: venceu o Haiti por 1 a 0, empatou com o Canadá em 0 a 0, perdeu para a Áustria por 1 a 0 e levou uma goleada de 5 a 0 da Bélgica. O técnico Sabri Lamouchi escala Chamakh; Valery, Rekik, Talbi e Abdi na defesa; Skhiri, Mejbri e Khedira no meio; e Achouri, Gharbi e Chaouat no ataque — uma estrutura que prioriza a compactação e aposta nos contra-ataques para surpreender.
"Nossa força está na disciplina coletiva. Passamos as eliminatórias sem sofrer gol — isso diz muito sobre o nosso compromisso defensivo", afirmou Lamouchi durante a coletiva de imprensa do Grupo F.
O único encontro anterior e o que está em jogo no Grupo F
Suécia e Tunísia se enfrentaram uma única vez na história — nas Olimpíadas de 1988, com empate em 2 a 2. Trinta e oito anos depois, o contexto é completamente diferente: o Grupo F também tem Holanda e Japão, e uma derrota na estreia pode complicar seriamente a classificação para o mata-mata. Para a Suécia, três pontos nesta noite seriam a prova definitiva de que a transformação promovida por Potter é real — e não apenas uma boa campanha de repescagem contra adversários europeus de segundo escalão.
A arbitragem fica por conta de Yael Falcón Pérez, com assistentes Maximiliano Del Vesso e Facundo Rodríguez. A partida pode ser acompanhada ao vivo pela TV Globo, SporTV e CazéTV no YouTube. Em caso de vitória sueca, a Suécia enfrenta na segunda rodada do Grupo F um adversário que ainda será definido pelos resultados desta noite — e Potter já sabe que o verdadeiro teste do seu projeto começa a ser escrito nas próximas horas, no calor de Monterrey.








