As estátuas gigantes de jogadores de futebol ardiam no asfalto da Cidade do México quando o mundo começou a perceber que a festa da Copa do Mundo tinha um problema que nenhum comitê organizador havia colocado no cronograma. Eram professores — membros da Coordenadoria Nacional dos Trabalhadores da Educação, a CNTE — que ateavam fogo às esculturas promocionais do torneio e deixavam uma mensagem pintada no concreto: "sem solução, a bola não rola". A frase, simples e direta, sintetizava um conflito que vinha se acumulando bem antes de qualquer sorteio de grupos.

A greve que chegou ao coração simbólico da capital

O Zócalo, praça central da Cidade do México e um dos espaços públicos mais carregados de história nas Américas, foi planejado para ser a fan zone oficial do Mundial. Cabines de transmissão, telões, arquibancadas provisórias — tudo montado para reunir torcedores de dezenas de países num ponto que mistura o colonial e o contemporâneo com a naturalidade de quem convive com séculos em cada pedra. Quando a CNTE declarou greve nacional por tempo indeterminado e escolheu o Zócalo como palco de sua ocupação, transformou aquele espaço num espelho incômodo: de um lado, a vitrine que o México queria mostrar ao mundo; do outro, a realidade que o México ainda não resolveu.

Os bloqueios viários se espalharam por pontos estratégicos da capital, paralisando o trânsito em vias que conectam hotéis, estádios e centros de credenciamento. Confrontos com forças de segurança foram registrados em ao menos três bairros, elevando a tensão numa cidade que já operava no limite logístico da preparação para um torneio com 48 seleções. O Estádio Azteca, que receberá a partida de abertura da competição, fica a menos de 20 quilômetros do epicentro dos protestos.

"Sem solução, a bola não rola" — mensagem deixada por manifestantes da CNTE em pontos de bloqueio na Cidade do México.

O reajuste de 10% que não convenceu ninguém da categoria

A raiz do conflito não nasceu com a Copa. Em maio de 2025, o governo da presidente Claudia Sheinbaum anunciou um reajuste salarial de 10% para os professores da rede pública federal, com implementação prevista apenas para setembro de 2026 — ou seja, mais de um ano depois do anúncio. A CNTE rejeitou a proposta de imediato, argumentando que o percentual é insuficiente diante da inflação acumulada nos últimos anos e do aumento real do custo de vida em regiões como Oaxaca, Chiapas e Guerrero, estados onde o sindicato tem maior penetração histórica.

Os salários dos professores mexicanos variam de forma significativa conforme a região, o nível de formação e a carga horária. Profissionais efetivos em grandes centros urbanos podem receber acima da média nacional, mas docentes em áreas rurais e periféricas frequentemente operam com remunerações que não acompanharam a inflação dos últimos três anos. A CNTE, fundada em 1979 como dissidência do sindicato oficial SNTE, tem histórico de mobilizações de longa duração — a greve de 2016, que durou meses e paralisou estados inteiros, é referência constante nas negociações atuais.

Aqui reside a antítese que desafia a leitura mais imediata do conflito. A narrativa dominante nos dias que antecederam a Copa tratou os protestos como oportunismo político — professores aproveitando a visibilidade do torneio para amplificar demandas que poderiam ser negociadas em outros momentos. Mas os números contam outra história: as reivindicações da CNTE estão formalizadas desde o segundo semestre de 2024, e a greve foi votada em assembleia antes que qualquer calendário de jogos fosse publicado nas ruas da capital.

A Copa como amplificador de uma crise que o México não inventou agora

Há um paralelo literário que vem à mente quando se observa o México neste momento: em Pedro Páramo, Juan Rulfo constrói uma cidade que parece viva mas é habitada por fantasmas que não sabem que morreram. A Cidade do México de junho de 2026 não é uma cidade fantasma — é uma cidade viva demais, com contradições que a Copa iluminou sem resolver. A fan zone do Zócalo virou palco de protesto. As estátuas de jogadores viraram cinzas. E o Azteca, que em 1970 e 1986 foi palco de duas finais de Copa do Mundo, se prepara para receber a abertura de um terceiro torneio enquanto a cidade ao redor debate salários, pensões e o custo de uma vida que ficou mais cara do que os contracheques conseguem cobrir.

O governo Sheinbaum não ignorou o cenário. Forças de segurança foram reforçadas nos arredores dos locais de jogo e nas rotas de acesso ao Azteca. Autoridades do comitê organizador local emitiram comunicados reafirmando que a infraestrutura para o torneio está garantida e que os jogos ocorrerão conforme programado. A FIFA, por sua vez, manteve silêncio público sobre os protestos — postura que se alinha ao seu histórico em situações semelhantes, de Brasil 2014 ao Catar 2022.

"A infraestrutura para o torneio está garantida e os jogos ocorrerão conforme programado" — comunicado do comitê organizador local, divulgado após os primeiros bloqueios da CNTE na capital.

A síntese que o momento exige não é confortável para nenhum dos lados. Os protestos da CNTE são legítimos na origem e estratégicos no timing — e essas duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. O México como sede da Copa não é uma decisão que se desfaz por conta de uma greve, mas a imagem do país no exterior será moldada tanto pelos jogos disputados no Azteca quanto pelas chamas que consumiram as estátuas de jogadores a menos de dez dias da abertura. Anfitriões são julgados pelo que mostram dentro e fora dos estádios.

A partida inaugural da Copa do Mundo 2026 no México está marcada para o Estádio Azteca, em data já confirmada pela FIFA dentro do calendário de junho. A CNTE não sinalizou prazo para encerrar a greve, e as negociações com o governo federal seguem sem acordo formal registrado. O Zócalo, enquanto isso, permanece ocupado — metade fan zone, metade barricada, inteiramente mexicano.