Perdeu. Em março de 2023, num amistoso em Tânger que pouca gente levou a sério, o Brasil saiu de campo com 1 a 2 no placar — gols de Sofiane Boufal e Abdelhamid Sabiri — e uma lição não processada sobre o que o Marrocos havia se tornado. Neste sábado (13), às 19h (horário de Brasília), o MetLife Stadium em Nova Jersey vai cobrar a conta dessa lição, na estreia da Copa do Mundo.
O complexo que nasceu no deserto e virou sede da Fifa na África
Inaugurado em dezembro de 2019, o Complexo de Futebol Mohammed VI custou 75 milhões de euros — cerca de R$ 450 milhões na cotação atual — e está localizado em Salém, na região metropolitana de Rabat. A estrutura inclui 11 campos de futebol, hotel de luxo, hospital universitário, centro odontológico, espaço de medicina esportiva e museu. Desde julho de 2025, abriga também a sede oficial da Fifa no continente africano. Não é exagero chamar de campus: é uma cidade dentro de uma cidade, dedicada inteiramente ao futebol.
O que diferencia o complexo de outros centros de treinamento de alto nível, porém, não é só o concreto. Ele opera inteiramente de forma ecológica, com captação de água da chuva e uso exclusivo de veículos elétricos em seu interior. Nas palavras de Hassan Kharbouch, diretor do complexo:
"Temos cerca de 45% do ar condicionado e da água quente de graça. Dentro do complexo, temos apenas carros elétricos. Então, ele é amigo da ecologia."O Real Madrid se hospedou no local em 2022, durante o Mundial de Clubes, e saiu com o título. Em 2025, o complexo recebeu a Copa do Mundo Feminina Sub-17, conquistada pela Coreia do Norte.
Tem ainda um prédio dedicado exclusivamente ao trabalho de scout — monitoramento sistemático de talentos com origem marroquina espalhados pelo mundo, com foco especial na Europa. É desse andar que saem as decisões que redefiniram o elenco dos Leões do Atlas.
A caçada cirúrgica aos filhos da diáspora marroquina
A estratégia é simples de enunciar e difícil de executar: identificar jovens com elegibilidade para defender o Marrocos antes que França, Espanha, Bélgica ou Holanda os convoquem definitivamente. A Fifa permite que um atleta represente uma seleção se tiver nascido no país, possuir ascendência direta até avós ou cumprir critérios de residência — e a federação marroquina usa cada centímetro dessas regras.
Achraf Hakimi, lateral do PSG, nasceu e cresceu na Espanha. Brahim Díaz, meia do Real Madrid, nasceu em Málaga, vestiu camisas das seleções de base espanholas e chegou a atuar pela equipe principal antes de optar pelo Marrocos em 2024. O caso mais recente é Ayyoub Bouaddi, volante de 18 anos do Lille, que disputou competições de base pela França e foi convencido a integrar o grupo após meses de negociação entre a federação, o atleta e sua família. Issa Diop e Anass Salah-Eddine também tiveram suas mudanças de elegibilidade aprovadas recentemente pela Fifa, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da preparação para o torneio.
A campanha de 2022 foi o maior argumento de venda dessa política. Chegar às semifinais da Copa do Catar — eliminando Espanha e Portugal pelo caminho — transformou o convite marroquino de curiosidade em proposta séria. O objetivo declarado da federação é ter o elenco mais competitivo possível para 2030, quando o país será um dos anfitriões, ao lado de Espanha e Portugal.
O que as métricas dizem sobre os Leões do Atlas
Colocar isso em números ajuda a entender a dimensão do salto marroquino. Três indicadores explicam por que o Marrocos ocupa hoje o sétimo lugar no ranking da Fifa:
- PPDA (passes permitidos por ação defensiva) — O Marrocos registrou um dos menores índices entre seleções africanas nas eliminatórias, indicando pressão alta e organizada: quanto menor o número, mais agressiva a marcação. Em termos práticos, eles não deixam o adversário construir em paz.
- Progressive passes — Hakimi e Brahim Díaz lideram a produção de passes progressivos (aqueles que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário), conectando a saída de bola com a criação ofensiva de forma direta e vertical.
- xG (expected goals) contra — Nas últimas 10 partidas, o Marrocos concedeu um xG médio de 0,8 por jogo. Para comparação, o Brasil concedeu 1,1 no mesmo período. A estrutura defensiva marroquina, liderada por Romain Saïss e Jawad El Yamiq, é o alicerce real da equipe — não um detalhe.
Esses números traduzem um time que pressiona bem, transita rápido e defende com disciplina coletiva. Não é um estilo vistoso, mas é eficiente — e eficiência em Copa do Mundo costuma valer mais do que beleza.
O retrospecto que o Brasil preferia esquecer e o que acontece neste sábado
Nos três jogos da história entre as seleções, o Brasil venceu duas vezes: 2 a 0 em amistoso de 1997 e 3 a 0 na Copa de 1998, na França, com gols de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto, sob o comando de Zagallo. O último encontro, porém, foi aquele amistoso de março de 2023 em que o Marrocos venceu por 2 a 1, com o Brasil escalado por Ramon Menezes num período de transição técnica. Saldo geral: dois a um para o Brasil, mas com a memória mais recente pintada em verde e vermelho marroquinos.
A Copa Africana de Nações de 2025, conquistada pelo Marrocos, foi o último teste de alto nível antes do Mundial — e os Leões chegaram a Nova Jersey invictos há 29 jogos. O Brasil entra em campo às 19h deste sábado precisando de uma resposta que não veio em Tânger há três anos. Quem vencer abre distância no Grupo F e dita o ritmo das rodadas seguintes.








