Chegou. Com 38 anos, uma sobrecarga no isquiotibial esquerdo monitorada minuto a minuto pelo departamento médico da AFA e um recorde que a história do futebol nunca havia registrado, Lionel Messi entrou em campo nesta terça-feira, 16 de junho, no GEHA Field at Arrowhead Stadium, em Kansas City, para disputar a sua sexta edição da Copa do Mundo. Nenhum jogador fez isso antes. Nenhum chegou perto.
O caminho de 2006 a 2026 e o peso de cada etapa
Quando Messi estreou numa Copa, em 2006, na Alemanha, tinha 18 anos e entrou como substituto contra a Sérvia e Montenegro. O Argentina que o cercava era de Riquelme, de Saviola, de Crespo — e o garoto de Rosário era uma promessa monitorada com cuidado. Vinte anos depois, ele é o capitão, o titular, o eixo em torno do qual Lionel Scaloni construiu toda uma identidade tática. Entre esses dois pontos, há 26 partidas disputadas em Copas, número que já era recorde absoluto antes desta estreia contra a Argélia e que pode crescer ao longo do torneio.
Para dimensionar a raridade, basta observar os nomes que chegaram mais perto: Cafu e Lothar Matthäus disputaram cinco edições cada um — e foram celebrados por isso durante décadas. Pelé, com três Copas e três títulos, é referência máxima do imaginário popular. Maradona, com quatro participações, construiu o mito que Messi precisou décadas para superar no afeto popular argentino. Nenhum deles chegou à sexta.
A preparação para este debut não foi tranquila. Segundo informações apuradas pela imprensa argentina, Messi sofreu uma sobrecarga muscular no isquiotibial esquerdo durante a última rodada do Inter Miami na MLS e chegou ao período de treinamentos com a Albiceleste em Kansas City sendo gerenciado com cautela. Ainda assim, Scaloni confirmou sua titularidade. A mensagem era clara: o risco calculado de jogar com Messi é menor do que o risco de não jogá-lo.
Uma geração que se renova em torno de um eixo fixo
A Argentina que estreia em 2026 é, ao mesmo tempo, a mesma de Qatar e uma equipe em transição. O meio-campo titular repete o trio campeão: Rodrigo De Paul, Enzo Fernández e Alexis Mac Allister. No gol, Emiliano Martínez superou uma fratura no dedo anular da mão direita, sofrida antes dos amistosos preparatórios, e foi confirmado como titular pelo técnico. Na zaga, Cristian Romero retorna após lesão ligamentar no Tottenham ao lado de Lisandro Martínez, que superou Nicolás Otamendi na disputa pela vaga.
A principal ausência é de Nicolás Tagliafico, que sofreu um desgarro no sóleo da perna esquerda no amistoso contra Honduras e foi substituído por Facundo Medina, zagueiro de origem adaptado à lateral-esquerda. Na vaga de Ángel Di María — aposentado da seleção após Qatar — entra Thiago Almada, que marcou no amistoso contra a Islândia, quando a Argentina venceu por 3 a 0. A preparação foi encerrada com dois triunfos sem sofrer gols, o que reforçou a confiança do grupo.
"Scaloni definiu o onze titular que contará com a presença estelar de Lionel Messi", confirmou o TyC Sports antes do jogo, sinalizando que não havia mais dúvida sobre a participação do camisa 10.
Do outro lado, a Argélia de Riyad Mahrez — que anunciou que encerrará sua carreira na seleção ao fim deste torneio — chega com ambições de surpresa. Sob o comando do técnico Vladimir Petković, os argelinos venceram a Holanda em amistoso recente, resultado que gerou atenção no ambiente argentino, embora uma goleada por 4 a 0 sofrida diante da Bolívia em treino fechado tenha relativizado o otimismo dos africanos. O grupo J ainda conta com Áustria e Jordânia, o que torna a classificação argentina praticamente obrigatória, mas não automática.
O que uma sexta Copa acrescenta a um legado já consolidado
Há uma distinção que os números sozinhos não capturam: Messi não está em Kansas City apenas para disputar mais uma Copa. Ele está lá para tentar o bicampeonato com a Argentina — feito que nenhuma seleção conseguiu desde a França em 1998 e 2002, e que a própria Argentina não repete desde 1978 e 1986. Se em Qatar 2022 o título encerrou o debate sobre seu lugar entre os maiores da história, uma conquista em 2026 abriria um capítulo diferente: o de atleta que, aos 38 anos, foi capaz de liderar uma geração nova até o topo.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura desta Copa, a narrativa de Messi em Mundiais sempre foi marcada por superação de expectativas externas. Em 2014, chegou à final e perdeu. Em 2018, foi eliminado nas oitavas. Em 2022, ganhou. Em 2026, o contexto é outro: ele chega como campeão, como recordista absoluto de jogos e edições disputadas, e como um jogador que o próprio comando técnico trata com gestão de carga — o que, por si só, revela que a Albiceleste sabe que ele não é eterno, mas ainda aposta que ele é insubstituível.
"Este é também o último Mundial de Messi com sua seleção", destacou o portal Depor ao contextualizar a estreia, sublinhando o caráter histórico do momento para além do resultado em campo.
O recorde de seis Copas não é apenas uma estatística. É a tradução objetiva de uma longevidade que desafia a biologia do esporte de alto rendimento, de uma consistência técnica que atravessou cinco ciclos táticos diferentes na seleção argentina e de uma motivação que, ao contrário do que se esperava em 2022, não se extinguiu com o título. A segunda rodada do Grupo J, que definirá com mais clareza o caminho da Argentina no torneio, está marcada para 21 de junho, contra a Áustria — e será o momento em que saberemos se Messi estará ainda mais afiado, ou se o gerenciamento físico desta estreia terá sido apenas o primeiro capítulo de uma história que promete ser longa.








