Três coisas: um boneco de vinil com orelhas pontudas, um sorriso de dentes à mostra e uma fila de colecionadores que já dura anos. Tudo que explica por que o Labubu roubou a cena do maior evento esportivo do planeta nesta quinta-feira (11 de junho) no Estádio Azteca, na Cidade do México.
O Azteca recebeu a Copa e o brinquedo que ninguém esperava ver ali
A Copa do Mundo de 2026 abriu suas cortinas com uma cerimônia pensada para impressionar. Shakira, Burna Boy, Maná, J Balvin, Belinda, Alejandro Fernández, Lila Downs, Los Ángeles Azules, Danny Ocean e Tyla — um line-up de peso para um estádio que recebe o torneio pela terceira vez na história. Mais de 80 mil pessoas no Azteca, transmissão global, os olhos do mundo voltados para a Cidade do México. O que a FIFA não previu foi o coadjuvante mais comentado da noite.
Espalhados pelas arquibancadas, pendurados em mochilas e erguidos por mãos de torcedores de diferentes nacionalidades, os bonecos Labubu — personagens da série The Monsters, criados pelo artista hongkonguês Kasing Lung e produzidos pela Pop Mart — tomaram as redes sociais antes mesmo de Shakira pisar no palco. Vídeos e fotos dos colecionáveis circularam em velocidade impressionante no X, no TikTok e no Instagram, transformando o art toy numa das palavras mais buscadas do dia no Google Trends ao lado dos termos da própria abertura do Mundial.
Quem criou o Labubu e por que ele chegou até o Azteca
Kasing Lung concebeu o personagem de aparência excêntrica — orelhas pontudas, sorriso dentado, olhos grandes — dentro de um universo de ilustrações chamado The Monsters. A parceria com a Pop Mart, empresa chinesa fundada em 2010 e hoje presente em mais de 20 países com mais de 630 lojas, transformou o desenho em objeto de desejo global. O modelo de comercialização em blind boxes — caixas que escondem qual personagem está dentro — criou um ciclo vicioso de compra por impulso e colecionismo compulsivo, gerando filas em lançamentos de edições limitadas e milhões de visualizações em unboxings nas redes.
O fenômeno tem nome técnico: cultura kidult. O termo descreve adultos que mantêm hábitos de consumo tradicionalmente associados à infância, como colecionar brinquedos e personagens de entretenimento. Não é nicho. Em 2024, a Pop Mart faturou mais de 1,3 bilhão de dólares — número que explica a presença do boneco em aeroportos, desfiles de moda e, agora, na abertura de uma Copa do Mundo.
O timing também não é coincidência. A Pop Mart anuncia chegada oficial ao Brasil a partir do dia 18 de junho, em operação conduzida pela Candide, trazendo personagens como Labubu, Skullpanda, Cry Baby e Hirono. O Azteca virou, involuntariamente, o maior anúncio gratuito que a marca poderia ter.
Shakira cantou, Maná animou — mas o meme foi outro
A cerimônia em si entregou momentos de qualidade desigual. O Maná, banda de pop rock mexicano fundada nos anos 1980, arrancou reação genuína do público ao revisitar Oye Mi Amor — ainda que a apresentação tenha soado claramente em playback, falha que se repetiu nas performances de Belinda, Danny Ocean e J Balvin. O uso de playback foi perceptível e virou crítica recorrente nas análises pós-evento.
Shakira subiu ao palco ao lado do nigeriano Burna Boy para interpretar Dai Dai, música oficial da Copa do Mundo de 2026. A performance teve coreografias caprichadas e energia dos dois artistas, mas a canção em si — uma combinação calculada de pop latino, afrobeats e refrão insistente — não escapou de comparações desfavoráveis com Waka Waka (This Time for Africa), o hino da Copa de 2010 que ainda ressoa 16 anos depois. A colombiana já é figura recorrente em eventos da FIFA e está envolvida na trilha oficial do torneio, mas desta vez o impacto cultural ficou aquém do esperado.
Quase uma hora depois das atrações latinas, o tenor italiano Andrea Bocelli — cuja seleção sequer se classificou para o Mundial — cantou DNA, segundo hino oficial da Copa, ao lado da cantora sul-coreana-americana Ejae e com produção do DJ David Guetta e participação de Megan Thee Stallion.
"O título da música, 'DNA', diz tudo. O futebol faz parte da minha vida desde que me lembro e sempre ocupará um lugar muito especial em meu coração", disse Bocelli antes do espetáculo.A apresentação, no entanto, foi prejudicada pela equalização de som deficiente, perceptível mesmo pela transmissão televisiva.
O resultado foi uma cerimônia que celebrou com sinceridade a riqueza cultural mexicana — Lila Downs e Los Ángeles Azules foram dois dos momentos mais autênticos da noite — mas que pecou na duração enxuta e na dependência do playback para sustentar a grandiosidade prometida.
O boneco que virou protagonista de uma abertura histórica
Pela primeira vez na história, a Copa do Mundo tem três cerimônias de abertura. Depois do México nesta quinta (11), Canadá e Estados Unidos recebem seus próprios espetáculos na sexta-feira (12) — Toronto às 14h30 de Brasília, com Michael Bublé, Alessia Cara e Nora Fatehi; Los Angeles às 20h30, com Katy Perry, Anitta e Future. São 48 seleções, três países-sede, 104 partidas. A maior Copa da história, como a FIFA repete exaustivamente.
Nesse contexto de superlativo, o Labubu funcionou como um espelho involuntário do tempo em que vivemos. Um brinquedo de vinil com 7 centímetros de altura disputou atenção com Shakira num estádio de 80 mil pessoas — e, nas métricas de engajamento digital das primeiras horas após a abertura, ganhou, conforme apurado em matéria do SportNavo. Não porque Shakira seja irrelevante. Mas porque a cultura pop de 2026 se move em camadas simultâneas, e o meme muitas vezes chega antes da análise.
Os ingressos para assistir a tudo isso custaram entre 2.600 e 8.100 dólares — cerca de R$ 14 mil a R$ 42 mil. Com esse valor, daria para comprar centenas de Labubus em edição limitada. Alguns setores do Azteca permaneceram com lugares vagos até o início do jogo entre México e África do Sul, o que diz algo sobre os limites do espetáculo quando o preço de entrada ultrapassa o salário mensal de boa parte do público que mais ama o futebol. Quando a Pop Mart abrir suas portas no Brasil em 18 de junho, o boneco que dominou o Azteca estará disponível para quem não pôde pagar pelo ingresso — mas quer um pedaço da memória da Copa. Será que o Labubu vai aparecer também nas arquibancadas de Los Angeles na sexta-feira?








