Diz-se que o Flamengo influenciou gerações pelo mundo afora — mas a maioria dessas histórias fica no campo da anedota. A de Mostafa Mohamed Zaki Abdelraouf, 29 anos, não. Ela se materializou em placar: aos 8 minutos do primeiro tempo desta tarde de sábado, 6 de junho de 2026, no Huntington Bank Field em Cleveland, um egípcio apelidado de Ziko dominou a bola, olhou para a saída de Alisson e fuzilou o empate para o Egito contra o Brasil. Resultado final: 1 a 1, no último teste da Seleção antes da estreia na Copa do Mundo.
O número que explica o gol e o erro que o precedeu
O placar de 1 a 1 nasceu de dois lances em sequência que resumiram a partida inteira. Aos 6 minutos, Bruno Guimarães pressionou a saída de bola egípcia, desarmou Lashin e finalizou colocado da entrada da área — cantinho esquerdo, sem chance para o goleiro. Dois minutos depois, Marquinhos recebeu na direita, tentou o recuo para Alisson, pegou fraco na bola e entregou de bandeja para Ziko, que não desperdiçou. Em 120 segundos, o Brasil abriu e cedeu a igualdade. Raramente uma sequência tão curta sintetiza tão bem as virtudes e as fragilidades de um time.
O gol de Ziko não foi apenas um presente da defesa adversária. O atacante do Pyramids mostrou frieza para dominar e definir antes que Alisson se recompusesse — qualidade que qualquer centroavante de Copa precisa ter. Nos 90 minutos, o Egito não criou muito mais do que isso, mas não precisou.
O pai, o YouTube e o apelido que virou identidade no futebol egípcio
A história do apelido começa antes do nascimento de Mostafa. Seu pai era admirador do Galinho de Quintino — Arthur Antunes Coimbra, o Zico, camisa 10 do Flamengo nos anos 1970 e 1980, artilheiro do Campeonato Brasileiro de 1979 com 26 gols e eleito melhor jogador do mundo pela France Football em 1983. O filho cresceu ouvindo histórias e assistindo a compilações no YouTube.
"É meu modelo de jogador a seguir. Assisti aos vídeos dele, é o meu jogador favorito. Meu pai falava muito sobre ele, e eu assisti aos vídeos no YouTube", declarou Mostafa Ziko.
O apelido não ficou restrito ao ambiente familiar. Hoje, Mostafa Ziko assina assim nas redes sociais — seu Instagram é @mostafa_zico_10 — e é reconhecido dessa forma no futebol egípcio, onde defende o Pyramids FC. A homenagem atravessou décadas e continentes com uma consistência que nem os maiores clubes conseguem planejar em suas campanhas de marketing global.
Há um paralelo que um carioca do Méier não pode ignorar: no compasso da Lapa de quinta-feira à noite, quando a cidade mistura gerações e ritmos sem pedir licença, o futebol faz o mesmo. Zico parou de jogar profissionalmente em 1994. Trinta e dois anos depois, um egípcio carrega seu nome e marca contra o Brasil. O futebol tem essa memória longa que a maioria dos esportes não possui.
De uma semifinal contra o Flamengo ao gol contra a Seleção
A relação de Ziko com o futebol brasileiro ganhou um capítulo presencial em dezembro de 2025, quando o Pyramids enfrentou o próprio Flamengo na semifinal da Copa Intercontinental. Antes da partida, o egípcio falou à TV Globo com a emoção de quem aguardava aquele momento desde a infância.
"Estou muito feliz em enfrentar o Flamengo, clube onde o Zico jogou. Quando eu era pequeno, meu pai mostrou muitos vídeos do Zico para mim", disse o atacante na ocasião.
O Flamengo venceu por 2 a 0, com gols de Léo Pereira e Danilo, e avançou à final — onde acabou derrotado pelo PSG. Ziko saiu eliminado, mas saiu com o nome na memória de quem acompanhou a competição. Danilo e Léo Pereira, que marcaram naquela semifinal, foram convocados por Carlo Ancelotti para o amistoso deste sábado. A ironia é precisa: os mesmos jogadores que eliminaram Ziko da Intercontinental dividiram o gramado com ele seis meses depois — e desta vez ele saiu com o gol.
A influência do futebol brasileiro no exterior não se mede apenas por transferências milionárias ou audiências de transmissão. Ela se mede também em apelidos herdados de pai para filho no Cairo, em perfis de Instagram com o número 10 e em gols marcados contra a Seleção em véspera de Copa do Mundo. O Brasil empata com o Egito em amistoso, e o nome que fica é Ziko — uma homenagem viva ao Galinho que, paradoxalmente, desta vez jogou contra a amarelinha.
A Seleção Brasileira de Ancelotti volta a campo no próximo sábado, 13 de junho de 2026, quando estreia na Copa do Mundo contra Marrocos. Naquele jogo saberemos se o empate desta tarde foi apenas ruído de preparação ou sintoma de algo que precisa ser corrigido antes que o torneio comece de verdade.








