"O objetivo é muito claro, ser campeão da Copa do Mundo. Com muito talento e zero atitude, não se ganha. Com zero talento, mas muita atitude e sacrifício, também não se ganha." A frase foi dita por Carlo Ancelotti em um dos seus primeiros contatos com o elenco na Granja Comary — e ela abre, com precisão cirúrgica, o que a série Vai, Brasil! se propõe a fazer: mostrar que a reconstrução da Seleção Brasileira tem menos glamour e muito mais método do que o torcedor imagina.
O ponto zero da reconstrução de Ancelotti
A série, produzida pela Feel The Match em parceria com a CBF e disponível no Globoplay a partir desta semana, tem um ponto de partida que nenhum brasileiro gostaria de revisitar: a derrota por 4 a 1 para a Argentina nas Eliminatórias, a maior goleada sofrida pelo Brasil diante do maior rival em toda a história da competição. Foi esse resultado que derrubou Dorival Júnior e abriu caminho para Ancelotti. O diretor Bruno Maia, responsável pela produção, foi direto ao explicar a premissa do projeto.
"O filme parte da premissa de que a reconstrução começa após a derrota pra Argentina, que é um impacto muito grande. A gente vai investigar e conversar com os jogadores para entender se era só uma coincidência ou se isso de fato teve um impacto emocional na trajetória deles. E parece que sim, que teve um impacto na trajetória deles", disse Bruno Maia ao UOL.
As filmagens aconteceram ao longo de um ano inteiro — um ciclo completo de trabalho que culminou com a convocação dos 26 jogadores que embarcaram para os Estados Unidos para a Copa do Mundo. A série não é um produto de marketing institucional: ela mostra vestiários, rodinhas de jogadores e os bastidores de decisões que raramente chegam ao público.
O que a câmera capturou que o roteiro não previa
Documentários de bastidores dependem de acesso e de sorte. Bruno Maia admite que a equipe passou dias inteiros com câmera ligada para capturar 15 ou 20 segundos aproveitáveis. A paciência rendeu ao menos uma cena que nenhum roteirista teria ousado escrever: Richarlison aplicou um carrinho involuntário em Ancelotti durante um treino, o italiano gritou e foi ao chão. O episódio, segundo Maia, terminou em piada — e virou um dos trechos mais comentados da série antes mesmo do lançamento.
"Foi uma coisa impactante, aquele crescente na hora. Mas foi se diluindo depois, caiu no bom humor. Virou piada. O Richarlison é muito engraçado", contou Bruno Maia.
Mas a série não vive de curiosidades. Ela documenta ajustes táticos concretos: o trabalho de bola parada, por exemplo, aparece como elemento central e foi diretamente responsável pela vitória sobre o Senegal em amistoso. Há também conexões explícitas entre situações de treino e lances dentro dos jogos — a metodologia de Ancelotti sendo destrinchada em tempo real.
Quanto vale mostrar o que acontece antes do apito
Aqui cabe uma pergunta que o futebol brasileiro ainda responde de forma tímida demais:
Por que o Brasil demorou tanto para entender que transparência de bastidores gera engajamento, receita e identificação — exatamente o que a Seleção perdeu nos últimos anos?
Projetos como o All or Nothing da Amazon, que documentou Manchester City, Juventus e Seleção Alemã, mostraram que o acesso aos bastidores pode gerar dezenas de milhões em receita de streaming e ampliar a base de fãs em mercados que nunca assistiram a uma partida completa. A NFL, cujo Hard Knocks existe desde 2001, usa o formato há 25 anos como ferramenta de expansão de audiência. O Brasil chega agora a esse modelo — e a parceria CBF-Feel The Match, com distribuição via Globoplay, coloca o produto dentro de uma plataforma que superou 20 milhões de assinantes em 2025. Não é pouca coisa.
A série também reposiciona lideranças dentro do grupo. Ao dar voz a jogadores em cenas de vestiário e rodinhas, os nomes que carregam o elenco de Ancelotti ficam mais evidentes — e isso tem valor simbólico num ciclo em que a Seleção precisou reconstruir não só o esquema tático, mas a própria narrativa de identidade após anos de resultados inconsistentes.
O Brasil de Ancelotti estreia em 13 de junho contra Marrocos
Toda a reconstrução documentada em Vai, Brasil! encontra seu primeiro teste real no dia 13 de junho (sábado), quando o Brasil enfrenta Marrocos no MetLife Stadium, em Nova Jersey, pelo Grupo C da Copa do Mundo. Antes disso, no dia 6 de junho, a Seleção faz seu último amistoso contra o Egito no Huntington Bank Field, em Cleveland. Ancelotti já deixou claro sua equação: talento mais atitude. A série mostra o processo. O MetLife Stadium, no dia 13, vai mostrar se ele funciona.








