A temperatura em Cleveland estava em queda quando o staff de Carlo Ancelotti distribuiu os coletes no último treino antes do amistoso contra o Egito, neste sábado (6), no Huntington Bank Field. No centro do campo, Matheus Cunha disputava uma bola com Bruno Guimarães — e, nos bastidores, a pergunta que todos faziam era a mesma: como o Brasil ataca sem o seu jogador mais famoso?

Raphinha e Matheus Cunha foram os nomes mais acionados na goleada por 6 a 2 sobre o Panamá, em 31 de maio, quando seis jogadores diferentes balançaram a rede. Neymar, que segue em reabilitação de uma lesão grau 2 na panturrilha esquerda em Nova Jersey, não participou daquele jogo e também deve desfalcar a estreia do Grupo C contra o Marrocos, no dia 13 de junho, em Nova Jersey. O amistoso contra o Egito é, portanto, o último laboratório disponível antes de a Copa do Mundo começar de verdade.

O que a goleada sobre o Panamá revela sobre o Brasil sem Neymar

Nos últimos dois amistosos — 3 a 1 sobre a Croácia em abril e 6 a 2 sobre o Panamá em maio —, o Brasil marcou nove gols. O número é expressivo, mas o detalhe mais relevante para Ancelotti é a distribuição dos artilheiros: nenhum jogador marcou mais de uma vez no 6 a 2. Isso indica tanto a fluidez do sistema quanto a ausência de um centroavante dominante, papel que Neymar jamais ocupou, mas que sua presença em campo costumava liberar para outros.

A provável escalação contra o Egito repete a espinha dorsal do jogo anterior: Ederson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Raphinha, Vinícius Júnior e Matheus Cunha. O trio ofensivo, que atua sem um centroavante fixo, já demonstrou mobilidade suficiente para criar superioridade numérica nas transições — padrão que Ancelotti vem testando desde outubro de 2025, quando a Seleção ainda oscilava entre derrotas para o Japão (3 a 2) e para a França (2 a 1).

A tensão nos treinos e o que Fabinho disse sobre Casemiro e Endrick

Antes do amistoso, um vídeo que circulou nas redes sociais mostrou Casemiro aplicando uma falta dura em Endrick durante o treino — uma entrada que gerou debate sobre os limites da intensidade nos trabalhos preparatórios. Fabinho, que defende o Al-Ittihad e integra o grupo da Seleção, minimizou o episódio com uma explicação que diz muito sobre o ambiente no elenco.

"É normal, dado o comprometimento e a qualidade dos jogadores. Desde que é seleção nacional, todos querem mostrar algo a mais. Até um jogo simples vira algo intenso; todos querem se sair bem. Faltas acontecem em todo treino. Quando é possível evitar um choque mais forte, a gente evita, mas às vezes não dá; você quer ganhar a bola, quer ser forte na disputa", disse Fabinho.

A declaração revela um grupo em estado de alerta máximo — o que é positivo do ponto de vista competitivo, mas exige gestão cuidadosa de Ancelotti para não chegar à Copa com desfalques por contusões em treino. Gabriel Magalhães, por exemplo, deve ser poupado ou ter carga reduzida após disputar a final da Champions League pelo Arsenal no último sábado.

O que o Egito representa como teste real antes de Marrocos

O Brasil não enfrenta o Egito desde novembro de 2011, quando venceu por 2 a 0 com dois gols de Jonas. Quinze anos depois, o adversário é substancialmente mais qualificado. O técnico egípcio Hossam Hassan levou a equipe a uma campanha de classificação invicta nas eliminatórias africanas — oito vitórias e dois empates em dez jogos —, com Mohamed Salah marcando nove gols em nove partidas. O atacante do Liverpool é o principal nome dos Faraós e deve iniciar o jogo contra o Brasil.

"Confio nos meus jogadores porque o nível deles é muito alto, seja Mohamed Salah, Omar Marmoush ou os jogadores da liga egípcia. Eles têm grande ambição", afirmou Hassan em declaração à CAF, reproduzida pela Reuters.

Omar Marmoush, do Manchester City, forma com Salah a dupla mais perigosa dos Faraós. Mas o Egito chega ao amistoso como um time em construção de entrosamento — na última escalação conhecida, contra a Rússia em 28 de maio, o técnico Hassan utilizou um 4-2-3-1 com Trezeguet e Zizo nas pontas. O Brasil, portanto, terá pela frente um bloco médio compacto que tende a explorar contra-ataques rápidos — exatamente o tipo de cenário que Ancelotti precisa usar para testar a solidez defensiva da Seleção antes de encarar o Marrocos.

Conforme apurado em matéria do SportNavo, Eder Militão (lesão na coxa) e Willian Estavão (lesão no tendão) estão fora da Copa. Isso significa que a defesa titular já está praticamente definida, e o amistoso contra o Egito serve menos para testar a linha de quatro e mais para calibrar o posicionamento ofensivo sem a bola — aspecto que custou gols nas derrotas para Japão e França no segundo semestre de 2025.

Vini Jr como referência e o que muda quando Neymar não está

Com Neymar ausente, Vinícius Júnior assume de fato o papel de referência criativa. O atacante do Real Madrid tem sido o jogador mais acionado nas transições rápidas, e sua capacidade de conduzir e finalizar em espaços reduzidos é o principal ativo ofensivo do Brasil neste momento. Raphinha, pelo lado direito, complementa com volume de jogo — o capitão do Barcelona terminou a temporada europeia 2025/2026 entre os líderes em assistências da La Liga, o que reforça sua importância no sistema.

O que a goleada sobre o Panamá revela sobre o Brasil sem Neymar Como Vini Jr, Ra
O que a goleada sobre o Panamá revela sobre o Brasil sem Neymar Como Vini Jr, Ra

Que capacidade Matheus Cunha tem de sustentar a pressão de ser o homem de referência no ataque brasileiro durante uma Copa do Mundo inteira?

O atacante do Wolverhampton vive a melhor fase da carreira: marcou 18 gols e deu 9 assistências na Premier League 2025/2026, números que justificam a aposta de Ancelotti. Mas uma coisa é performar em nível de clube; outra é ser o pivô de um sistema nacional que ainda busca identidade sem seu maior astro histórico. O amistoso contra o Egito, às 19h (horário de Brasília), no Huntington Bank Field, em Cleveland, começa a dar a resposta — a estreia contra o Marrocos, no dia 13 de junho, exige que ela esteja completa.