Confesso: eu errei sobre Wesley em 2024. Vi aquele lateral de base tardia, cheio de dúvidas defensivas, e escrevi aqui mesmo que a Seleção precisava de um nome mais experiente na direita. Hoje, com ele convocado por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo e titular na Roma, vejo o porquê do erro — e o porquê da reviravolta.

A mesma dúvida recaiu sobre Brentford's centroavante Igor Thiago. Um jogador de 24 anos criado nos campinhos de terra de Gama, no Distrito Federal, que passou por peneiras de clubes do interior, trabalhou em lava-jato para ajudar a mãe gari e só estreou profissionalmente pelo Cruzeiro na Série B de 2020 — justamente a temporada em que o clube disputava a segunda divisão pela primeira vez na história. Dois perfis que o futebol brasileiro convencional costumava descartar. Dois nomes agora na lista do técnico italiano para o maior torneio do planeta.

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O que Wesley construiu longe dos holofotes do Flamengo

Há uma lógica perversa nas categorias de base dos grandes clubes brasileiros: entrar cedo ou não entrar. Wesley desafiou esse dogma. Chegou ao Flamengo mais tarde do que a maioria dos jovens que sonham com a Gávea, foi alvo de críticas dentro e fora do clube, e ainda assim saiu em alta o suficiente para assinar com a Roma. Na Itália, recebeu uma meta incomum para um lateral: seis gols na temporada. Cumpriu cinco — e só não chegou ao sexto porque não entrou no último jogo do campeonato.

O que para o argentino é um lateral que sobe para cabecear, para o português é um ala que triangula no corredor — mas para o italiano da Serie A, um lateral de valor é aquele que termina jogadas. Wesley aprendeu esse idioma tático em campo, e foi justamente essa versatilidade que chamou a atenção de Ancelotti. Na Roma, ele atuou com frequência pela esquerda, posição que o próprio jogador admite ainda estar assimilando, mas que ampliou seu repertório.

"Não imaginava estar na Seleção em uma Copa. Era um sonho muito distante, para falar a verdade. Mas dei a volta por cima. Tudo que passei não foi à toa", disse o camisa 2 da Seleção.

Ancelotti, em uma sessão de treino aberta à imprensa, chegou a exibir um vídeo de erro defensivo de Wesley diante de todo o elenco e perguntou ao experiente Danilo o que deveria ser feito. A cena poderia ter constrangido um jogador menos maduro. Wesley interpretou como aprendizado. "Foi algo saudável. Ele sabe do meu potencial ofensivo, mas me ajuda nos detalhes defensivos", resumiu o lateral, que já deixou claro que fará o que for pedido — incluindo passar 90 minutos sem atacar, se o jogo assim exigir.

A história de Igor Thiago que o futebol quase não contou

Existe um projeto social em Cidade Ocidental, Goiás, chamado Grêmio Ocidental. Igor Thiago entrou nele aos 8 anos, levado pelo irmão Maycon. Hoje, aos 24, contribui financeiramente com o projeto que o acolheu. Esse detalhe diz muito sobre o jogador — e sobre o caminho percorrido.

Quando o pai morreu, Igor tinha 13 anos e o sonho do futebol precisou dividir espaço com a sobrevivência. Carregou frutas na feira, trabalhou como servente de pedreiro, distribuiu panfletos de supermercado e lavou carros. A mãe, Dona Maria Diva, era gari. A família passou por humilhações que Igor guarda na memória com precisão cirúrgica.

"Por tudo o que passei com minha mãe e meus três irmãos, pelas humilhações que passamos durante boa parte da minha vida... Chegar e falar para ela: 'Não precisa trabalhar mais, só fique comigo' foi uma das maiores vitórias da minha vida", contou o centroavante em entrevista à TNT Sports.

Aos 15 anos, saiu do Grêmio Ocidental e começou a tentar peneiras. O destino inesperado foi Verê, cidade de 8 mil habitantes no interior do Paraná, onde se destacou no sub-17 do clube local. De lá, um teste no Cruzeiro — aprovação e contrato por empréstimo, depois compra definitiva em fevereiro de 2020. A estreia profissional veio no Campeonato Mineiro de 2020, sob o comando de Adilson Batista, num Cruzeiro que vivia a ressaca inédita do rebaixamento à Série B de 2019. O caminho da Premier League começou ali, naquele cenário de reconstrução.

O que Wesley e Igor Thiago podem resolver para o Brasil na Copa

Selecionar jogadores para uma Copa do Mundo envolve equilíbrio entre experiência e frescor. Ancelotti, que já conquistou quatro Champions Leagues como técnico — com Milan em 2003 e 2007, Real Madrid em 2014 e 2022 —, sabe melhor do que ninguém que carreiras lineares não produzem os melhores competidores. Trajetórias tortuosas, sim.

Wesley chega à Copa como uma opção real para a lateral direita, posição que o Brasil não resolve com facilidade desde os tempos de Cafu — campeão em 1994 e 2002, com 142 jogos pela Seleção. O lateral da Roma não pretende herdar esse legado de imediato, mas demonstra clareza sobre seu papel: "Se ele pedir para eu defender o jogo todo, eu vou ficar. Se pedir para atacar, vou atacar. Estou aqui para ajudar o Brasil".

Igor Thiago, por sua vez, representa uma opção diferente no ataque brasileiro. Centroavante de área, com 24 anos e rodagem na Premier League pelo Brentford, ele preenche um perfil que a Seleção não tinha de forma consistente nos últimos ciclos. A estreia do Brasil na Copa está marcada para 13 de junho, contra Marrocos — antes disso, o time de Ancelotti enfrenta o Egito em amistoso no dia 6 de junho. Tempo suficiente para Wesley e Igor Thiago mostrarem, mais uma vez, que viagens longas costumam chegar mais longe.

Confesso: eu errei sobre Wesley em 2024. E hoje vejo o porquê — da base tardia ao lava-jato, os dois fizeram o caminho mais difícil, e é exatamente por isso que chegaram.