O Brasil inicia oficialmente os preparativos para sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027 com uma abordagem que transcende a simples adequação de estádios. Na terça-feira (14), a Secretaria Extraordinária para a Copa do Mundo de Futebol Feminino 2027 (Secopa27) realizou sua primeira reunião estratégica, estabelecendo diretrizes que contrastam significativamente com o modelo adotado para a Copa masculina de 2014, quando o foco recaiu primordialmente sobre arenas e mobilidade urbana básica.
Legado histórico das Copas anteriores como referência
Diferentemente da edição masculina de 2014, que custou R$ 25,8 bilhões aos cofres públicos com investimentos concentrados em 12 cidades-sede, o planejamento para 2027 prioriza o desenvolvimento estrutural do futebol feminino brasileiro. A secretária Juliana Agatte coordena uma estratégia baseada em dados concretos: desde 1991, apenas três edições da Copa Feminina foram realizadas em solo sul-americano (nenhuma no Brasil), enquanto a Europa sediou oito das dez últimas edições entre 1995 e 2023.
"É um momento fundamental para pensarmos a comunicação estratégica da Copa, tendo como centro o legado social, o desenvolvimento do esporte e as oportunidades que vamos construir até a realização do torneio, tanto no Brasil quanto internacionalmente", afirmou a secretária Juliana Agatte.
A TV Brasil já demonstra esse comprometimento prático ao transmitir há três anos consecutivos as Séries A1, A2, A3 e categorias de base femininas, representando mais de 180 partidas anuais em horário nobre - um aumento de 340% comparado ao período 2018-2020, quando apenas 53 jogos femininos eram exibidos nacionalmente.
Infraestrutura além dos estádios tradicionais
Enquanto a Copa de 2014 utilizou exclusivamente arenas com capacidade superior a 40 mil lugares, o Mundial feminino de 2027 estuda a inclusão de estádios menores, com foco na experiência do público e proximidade com centros de treinamento femininos. O Estádio do Pacaembu, reformado em 2023, e a Arena Pernambuco figuram entre as opções que combinam capacidade adequada (entre 25 mil e 45 mil lugares) com localização estratégica para o desenvolvimento da modalidade.
A presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Antônia Pellegrino, detalhou prioridades concretas que diferem do modelo 2014: ampliar transmissões do futebol feminino de 12 para 36 horas semanais até 2027, estabelecer parcerias com confederações estaduais para cobertura de campeonatos regionais e desenvolver campanhas contra violência de gênero usando o esporte como ferramenta.
"Entre as nossas prioridades da EBC estão ampliar a presença do futebol feminino nas transmissões públicas, fortalecer parcerias com entidades do setor esportivo e também desenvolver campanhas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher, utilizando o esporte como uma ferramenta de mobilização social", afirmou Pellegrino.
Investimentos em formação e estrutura permanente
O planejamento para 2027 inclui a construção de centros de treinamento permanentes em pelo menos oito capitais brasileiras, contrastando com os investimentos temporários de 2014. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul já sinalizam interesse em sediar partidas, mas condicionam a candidatura à criação de estruturas que beneficiem o futebol feminino local após o Mundial.
Dados da CBF mostram que o Brasil possui apenas 847 clubes com equipes femininas profissionais ou semi-profissionais, número 67% inferior aos 2.573 clubes masculinos registrados. A meta estabelecida pela Secopa27 prevê dobrar esse número até 2027, utilizando recursos federais e parcerias estaduais para criar infraestrutura de base em municípios com mais de 100 mil habitantes.

Desafio de superar o modelo 2014
A Copa masculina de 2014 deixou um legado controverso: estádios subutilizados em cidades como Manaus e Brasília, que registram ocupação média inferior a 60% em jogos locais, segundo levantamento do Tribunal de Contas da União de 2023. Para 2027, a estratégia governamental foca em investimentos de menor escala individual, mas maior impacto social duradouro.

A experiência da Copa Feminina de 2023 na Austrália e Nova Zelândia serve como modelo: investimentos de US$ 200 milhões resultaram em aumento de 32% na participação feminina no futebol australiano e criação de 1.847 empregos permanentes ligados ao esporte feminino. O Brasil estuda replicar esse modelo adaptado à realidade nacional, com foco em regiões onde o futebol feminino ainda carece de estrutura básica. A próxima reunião da Secopa27 está marcada para fevereiro, quando serão definidas as primeiras cidades-sede oficiais e o cronograma de investimentos prioritários.

