Notas fiscais obtidas pelo UOL mostram que o Corinthians desembolsou recursos em 2025 com aulas de artesanato, um evento temático com Papai Noel, hospedagem em hotel para animais e serviços de salão de cabeleireiro — despesas que chamam atenção justamente porque o clube paulista carrega uma dívida total estimada em mais de R$ 2 bilhões, uma das maiores do futebol brasileiro. Os documentos não especificam os valores exatos de cada item, mas a natureza dos gastos já levanta perguntas legítimas sobre a governança financeira do Timão.
O que dizem as notas fiscais
Segundo os documentos acessados pelo UOL, o Corinthians realizou pagamentos a fornecedores relacionados a quatro categorias distintas de serviços considerados atípicos para uma associação esportiva: aulas de artesanato, evento comemorativo com a presença de Papai Noel, estadia de animais de estimação em hotel especializado e atendimento em salão de cabeleireiro. Nenhuma dessas despesas se enquadra diretamente em atividade-fim do clube — formação de atletas, manutenção de infraestrutura esportiva ou contratações.
"O Corinthians realizou uma série de gastos com serviços de natureza associativa e administrativa considerados incomuns", apontou o levantamento publicado pelo UOL, descrevendo as despesas como parte de um padrão que merece escrutínio público.
A classificação dessas despesas como "associativas" é relevante. Clubes brasileiros constituídos como associações civis precisam demonstrar que seus gastos têm relação com o interesse dos associados — sócios-torcedores que pagam mensalidades e têm direito a prestação de contas. O Corinthians conta com mais de 100 mil sócios ativos em seu programa de fidelização, o que torna a transparência na aplicação dos recursos uma obrigação, não uma cortesia.

O peso da dívida e a contradição dos números
Enquanto o departamento de futebol masculino do Corinthians negocia parcelamentos com a Caixa Econômica Federal e tenta equilibrar o orçamento para competir no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil, a diretoria precisa justificar cada centavo gasto fora do eixo esportivo. O clube encerrou 2024 com passivo total superior a R$ 2,1 bilhões, segundo balanços divulgados à época, e a pressão por austeridade nunca foi tão alta. Qualquer despesa que não contribua diretamente para receita ou rendimento esportivo vira alvo imediato de crítica — e, neste caso, a crítica é proporcional.

"Quando um clube deve mais de dois bilhões de reais e ainda aparece com nota fiscal de hotel para pet, o mínimo que a torcida pode exigir é uma explicação detalhada", avaliou uma fonte ligada à gestão de finanças esportivas ouvida pelo SportNavo.
A comparação com outros grandes clubes do Brasil reforça o estranhamento. Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro, que investiram pesado em infraestrutura e contratações nos últimos três anos, publicam relatórios financeiros trimestrais com grau crescente de detalhamento. O Corinthians, historicamente mais opaco em sua prestação de contas, segue enfrentando resistência interna para adotar padrões equivalentes de transparência.
Governança ou benefício corporativo
A questão central não é o valor absoluto das notas — que, individualmente, podem representar quantias modestas — mas o sinal que esse tipo de despesa emite sobre a cultura administrativa do clube. Aulas de artesanato e eventos temáticos podem ser classificados como benefícios a funcionários ou ações de bem-estar corporativo, práticas que existem em empresas privadas. O problema, segundo análise exclusiva do SportNavo, é que o Corinthians não é uma empresa privada: é uma associação civil sem fins lucrativos, e seus recursos têm origem em receitas de bilheteria, cotas de TV, patrocínios e contribuições de sócios.
Em 2024, o futebol feminino do Corinthians — um dos mais vitoriosos do Brasil, com múltiplos títulos do Campeonato Brasileiro Feminino — operou com orçamento infinitamente menor do que o masculino, ao mesmo tempo em que atraía médias de público superiores a 20 mil torcedores em jogos no Neo Química Arena. A pergunta que fica é direta: se há escassez para investir no setor mais produtivo esportivamente do clube, como sobram recursos para hotel de animais?
O que o Corinthians precisa responder
O clube ainda não se pronunciou oficialmente sobre as notas fiscais reveladas pelo UOL. A diretoria presidida por Augusto Melo, eleita em dezembro de 2023, assumiu com a promessa de profissionalizar a gestão e reduzir o endividamento. O prazo para apresentar um plano de reestruturação financeira à Caixa Econômica Federal — credora de parte significativa da dívida do Timão — foi prorrogado em 2024, e novas negociações estão em curso em 2025. Com o Corinthians disputando o Brasileirão Série A e precisando de cada real disponível para fortalecer o elenco, a resposta sobre os gastos atípicos não pode esperar a próxima assembleia de sócios, marcada para o segundo semestre.








