Longevidade, defesas de título e dominância de divisão. Três coisas. É a partir desses três critérios que Daniel Cormier constrói o argumento mais incômodo da semana no MMA — e o faz olhando nos olhos do próprio Alex Pereira.

O que Cormier disse a Poatan antes da luta contra Gane

No media day do UFC na Casa Branca, com a luta marcada para 14 de junho contra o francês Ciryl Gane pelo cinturão interino dos pesos-pesados, Daniel Cormier revelou ter tido uma conversa direta com o brasileiro. Sem rodeios, o ex-campeão duplo e atual comentarista da ESPN americana disse ao paulista que nem uma terceira conquista de cinturão seria suficiente para elevá-lo ao patamar de maior de todos os tempos.

"Eu disse a ele que não. Eu disse a ele que não acho que ele seria o maior ainda. Acho que ele precisaria defender o título nos peso-pesado. Ele defendeu três vezes no peso meio-pesado, mas eu acredito que ser campeão em três divisões é um dos maiores feitos de todos os tempos. Mas para colocá-lo acima de GSP ou Khabib, ainda não acho. Jon Jones, vocês sabem como eu me sinto sobre isso..."

A declaração foi direta ao ponto e, como registrado pelo SportNavo, colocou Cormier em rota de colisão até com Dana White, que já havia sinalizado publicamente que Poatan poderia ser considerado o GOAT em caso de vitória sobre Gane.

Por que o argumento de Cormier tem sustentação factual

Quem rejeita a posição de Cormier costuma apontar o feito histórico em si: nenhum lutador na história do UFC conquistou cinturões em três divisões diferentes. Se Alex Pereira vencer Gane, será o primeiro. Trata-se de um argumento legítimo e impressionante.

O problema é que o critério de GOAT nunca foi definido por um único feito isolado. Georges St-Pierre defendeu o cinturão dos meio-médios por sete vezes consecutivas entre 2008 e 2013, construindo um reinado de dominância técnica que durou mais de cinco anos na mesma categoria. Khabib Nurmagomedov encerrou a carreira invicto com 29 vitórias, 13 delas no UFC, sem perder um único round sequer nas três defesas de cinturão que realizou. Jon Jones, por mais controverso que seja o legado extraesportivo, foi campeão dos meio-pesados por quase uma década, com 11 defesas de título na divisão.

O histórico de Poatan no UFC, por mais explosivo que seja, tem uma característica distinta: velocidade, não profundidade. Conquistou o cinturão dos médios em novembro de 2022, migrou para os meio-pesados e acumulou três defesas antes de subir para os pesados. São, no máximo, três anos e meio de reinado distribuídos em duas divisões — com uma terceira sendo disputada agora. Como diz o ditado popular, quem não tem cão caça com gato: Poatan faz com mobilidade entre categorias o que outros fizeram com permanência numa só. São estratégias distintas, e a comparação direta não é automática.

O que Poatan precisa fazer para mudar o debate de vez

A posição de Cormier não é definitiva — é condicional. O próprio ex-campeão deixou claro que defender o cinturão dos pesados mudaria a conversa. Isso significa que Poatan tem diante de si não apenas a luta contra Gane, mas um roteiro de longo prazo que precisaria incluir pelo menos duas ou três defesas bem-sucedidas na nova divisão, contra adversários como Tom Aspinall, detentor do cinturão principal, e potencialmente Jon Jones, caso o veterano retorne ao octógono.

A comparação com GSP e Khabib também revela um dado que poucos mencionam: ambos se aposentaram invictos ou praticamente invictos em suas categorias principais. Poatan, ao subir de divisão, abre mão da profundidade de legado que esses dois construíram. Ganhar um cinturão em três categorias é extraordinário — mas perder o fio de dominância contínua em uma única divisão é o preço que se paga por essa ambição.

Há ainda a questão do nível dos adversários. As três defesas de Poatan nos meio-pesados foram contra Jamahal Hill, Jiří Procházka e Khalil Rountree Jr. — nomes relevantes, mas nenhum com o peso histórico de um Matt Hughes, um BJ Penn ou um Conor McGregor, adversários que GSP e Khabib enfrentaram em seus respectivos reinados. Isso não diminui Poatan, mas contextualiza a profundidade do desafio que ele ainda precisa superar para que o debate seja encerrado em seu favor.

A luta contra Gane acontece no dia 14 de junho, no jardim da Casa Branca, em Washington. Uma vitória abre caminho para o confronto com Aspinall pelo cinturão unificado dos pesados — e é esse combate, mais do que qualquer outro, que determinará se Cormier precisará rever sua posição ou se o argumento dele resistirá ao tempo.