Em 1994, quando Romário entrou em campo no Rose Bowl para disputar a final da Copa do Mundo, o jogador mais velho daquele torneio tinha 40 anos — era o goleiro colombiano René Higuita, que sequer foi convocado para os Estados Unidos. Naquela edição, nenhum atleta com quatro décadas de vida pisou no gramado. Trinta e dois anos depois, no mesmo país, esse número chegou a oito. Oito. Um recorde absoluto em 92 anos de história do torneio.
O homem de 43 anos que quer parar o mundo
O termômetro em Dallas marca 36°C. A umidade sobe pelo asfalto como vapor. E em algum vestiário dessas arenas gigantescas, Craig Gordon — 43 anos, goleiro da Escócia — faz o aquecimento. Ele é o mais velho entre todos os convocados desta Copa do Mundo. Se entrar em campo, se tornará o segundo atleta mais velho a disputar um Mundial, superado apenas pelo egípcio Essam El Hadary, que jogou em 2018 com 45 anos. Gordon deve começar o torneio como reserva de Angus Gunn, mas o fato de estar ali — convocado, preparado, em forma — já é uma declaração de guerra ao calendário biológico.
Ao lado de Gordon, outros sete atletas acima dos 40 anos compõem este grupo histórico. O goleiro Vozinha, de 41 anos, representa Cabo Verde em sua estreia absoluta em Mundiais. Manuel Neuer, campeão do mundo com a Alemanha em 2014 e hoje com 40 anos, chega se recuperando de problemas físicos recentes, mas mantido por Julian Nagelsmann como opção real. O uruguaio Fernando Muslera completa 40 anos poucos dias após a estreia de sua seleção. E, claro, há Cristiano Ronaldo, cuja presença em qualquer torneio já dispensa apresentações — mas que, nesta Copa, ganha uma camada extra de narrativa: é um homem de 41 anos disputando o que provavelmente será sua última chance de ouro.
"O sono é o maior segredo para a longevidade. Ser consistente", declarou o próprio Cristiano Ronaldo ao explicar sua rotina de recuperação física.
O calor que ninguém treinou para enfrentar
O desafio não é só biológico. É geográfico. É climático. É brutal. Veículos como BBC, Marca, L'Équipe e Bloomberg publicaram análises preocupantes sobre as condições que aguardam todas as seleções — e que, para um corpo de 40 anos, pesam o dobro. Em cidades como Dallas, Houston, Miami, Atlanta e Monterrey, os termômetros frequentemente batem nos 35°C durante o dia. Em períodos de onda de calor, ultrapassam essa marca.
O número que mais assusta não é a temperatura em si, mas a sensação térmica gerada pela combinação com a umidade. Em Miami, por exemplo, 32°C reais podem gerar sensação de 40°C ou mais. Estudos citados pela imprensa britânica indicam que 14 das 16 cidades-sede apresentaram índices considerados preocupantes para atletas de alto rendimento durante as tardes de verão. A FIFA, reconhecendo a gravidade, determinou pausas obrigatórias para hidratação durante as partidas — uma medida raramente vista em Copas anteriores.
Quando o Super Mundial de Clubes foi disputado nos Estados Unidos em 2025, diversas partidas sofreram interrupções por tempestades e raios. Jogadores e treinadores fizeram críticas públicas às condições. Agora, com um torneio espalhado por três países — EUA, México e Canadá —, a escala do problema é incomparavelmente maior, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura pré-Copa.
Como um corpo de 40 anos sobrevive ao que um de 25 teme
A resposta paradoxal é que, em alguns aspectos, os veteranos chegam melhor preparados do que os jovens. Não fisicamente — aí a biologia é implacável, com recuperação mais lenta e maior risco de câimbras em calor extremo. Mas mentalmente e taticamente, esses oito jogadores acumulam um capital que não tem preço: eles já viram tudo. Neuer disputou quatro Copas. Muslera chegou à sua terceira. Cristiano Ronaldo joga sua sexta — um número que, nos anos 1990, seria matematicamente impossível para qualquer atleta de linha.
"Nunca houve uma Copa com tanto jogador experiente ao mesmo tempo. Eles chegam mais preparados para gerenciar o esforço, para saber quando economizar", analisou a imprensa europeia especializada ao traçar o perfil dos veteranos desta edição.
A comparação com eras anteriores é reveladora. Na Copa de 1990, na Itália, o torneio inteiro teve apenas dois jogadores acima dos 38 anos. Em 2006, na Alemanha, o recorde até então era de quatro atletas com 40 anos ou mais em toda a história do torneio. Em 2026, esse número dobrou de uma vez. O futebol moderno — com nutrição de precisão, monitoramento de carga em tempo real, crioterapia e sono como pilar de recuperação — criou uma nova categoria de atleta: o veterano performático, que não apenas sobrevive no alto nível, mas compete.
O que acontece quando o relógio bate e o calor sufoca ao mesmo tempo
A questão central para esses oito atletas não é chegar à Copa — eles já chegaram. A questão é o que acontece no minuto 70 de uma partida jogada a 34°C em Houston, com umidade de 80%, quando o corpo manda sinais de alarme e a torcida pede mais. Para Gordon, Neuer e Muslera — goleiros, que gerenciam esforço de forma diferente dos jogadores de linha —, o calor representa risco de desidratação e queda de concentração. Para Cristiano Ronaldo, que ainda tenta participar ativamente do jogo com sprints e finalizações, o desafio é ainda mais explícito.
A experiência, nesse contexto, vira arma. Saber quando trotar em vez de correr. Saber usar as pausas de hidratação para recuperar a frequência cardíaca. Saber ler o jogo com o corpo, não apenas com as pernas. São habilidades que nenhum jogador de 22 anos possui — e que nenhum preparador físico consegue ensinar em um campo de treinamento.
A estreia da Escócia, com Craig Gordon no banco mas pronto para entrar, está marcada para a fase de grupos. Se Angus Gunn sofrer qualquer problema, o homem de 43 anos pode entrar em campo em Dallas ou Seattle e reescrever o livro de recordes de uma vez. Vale marcar o jogo da Escócia na fase de grupos — e deixar o controle na mão.








