Não, Lautaro Martínez não é o atacante mais letal do elenco argentino nesta temporada — ao menos não se olharmos apenas para os gols. Mas essa frase, por si só, já revela o tamanho do problema que Lionel Scaloni carrega até a estreia contra a Argélia, na terça-feira (16). O que parece uma vantagem — ter três centroavantes de alto nível à disposição — se transforma num dilema tático sem resposta óbvia quando os números de cada um são colocados lado a lado.
Os três números que travam a decisão de Scaloni
Julián Álvarez encerrou a temporada 2025/2026 no Atlético de Madrid como vice-artilheiro do clube, com 20 gols em 49 partidas. Lautaro Martínez foi o maior goleador da Inter de Milão no mesmo período, com 22 tentos em 41 jogos — média ligeiramente superior por partida. Flaco López, jogando pelo Palmeiras em calendário brasileiro, já soma 14 gols e 10 assistências no ano, com metade das rodadas ainda por disputar. Três atacantes, três perfis distintos, três argumentos sólidos.
Hernán Crespo, que conhece a posição de centroavante argentino como poucos — foram 35 gols em Copas do Mundo e clubes como Lazio, Chelsea e Milan entre 1996 e 2008 —, não fugiu da pergunta quando consultado pelo jornal AS.
"Julián e Lautaro são dois atacantes de elite com imensa qualidade. Meu favorito no momento é o Julián, mas isso não significa que Scaloni não possa optar também pelo Lautaro, que é um jogador espetacular. Flaco López merece muito crédito por ter chegado à seleção e poderia ser uma opção interessante, mas tenho plena confiança de que Scaloni sempre saberá o que é melhor para a equipe, como já demonstrou", disse Crespo.
O que Batistuta e Crespo ensinaram sobre o dilema do camisa 9
A Argentina já viveu esse tipo de impasse antes — e a história não é gentil com quem toma a decisão errada. Na Copa de 1998, na França, Passarella optou por Batistuta como titular absoluto e relegou Crespo ao banco. O resultado foi uma campanha sólida até as quartas, com Batistuta marcando quatro gols. Em 2002, no Japão e Coreia, a tentativa de equilibrar os dois num mesmo sistema produziu uma das maiores catástrofes da história argentina: eliminação na fase de grupos, com apenas dois gols marcados em três jogos. A lição que ficou daquele torneio é que a coexistência de atacantes de perfil semelhante exige uma hierarquia clara — e Scaloni sabe disso.
A diferença de 2026 para aquelas edições é que os três candidatos atuais possuem versatilidade real. Álvarez, no Atleti de Simeone, aprendeu a funcionar tanto como referência central quanto como segundo atacante, acumulando 12 assistências na temporada europeia. Lautaro, na Inter, consolidou um estilo mais direto — desmarques em profundidade, agressividade no terço final, 22 gols que incluem sete contra defesas do top-6 da Serie A. Flaco López agrega uma dimensão que os outros dois não têm: 1,87m de estatura e domínio no jogo aéreo, o que pode ser decisivo contra seleções que defendem com linhas altas.
A estreia contra a Argélia e as ausências que complicam o planejamento
O jogo de terça-feira traz uma variável extra: Scaloni precisará montar a equipe sem Nicolás Tagliafico, confirmado fora por lesão, e com dúvidas sobre a condição física de Nahuel Molina, Leandro Paredes e o próprio Julián Álvarez, que chegou ao Mundial em processo de recuperação. Se o atacante do Atlético de Madrid não estiver 100%, a balança pode pender automaticamente para Lautaro — que chegou à Copa sem restrições físicas relatadas.

Há ainda um detalhe que escapou à maioria das análises pré-Copa: o árbitro da estreia será o polonês Szymon Marciniak, o mesmo que apitou a final de 2022 contra a França e as oitavas daquele mesmo Mundial contra a Austrália — ambas vencidas pela Argentina. Marciniak também esteve em campo no empate por 1 a 1 com a Islândia na Copa de 2018, na Rússia. Para uma seleção que acredita em rituais e continuidades, esse dado não passa despercebido no vestiário.
O cenário mais provável para o dia 16 de junho
Com base na forma física, nos números da temporada e na preferência declarada de Crespo — que, mesmo aposentado, mantém influência simbólica sobre a narrativa da camisa 9 argentina —, Julián Álvarez parte como favorito para a titularidade, desde que supere a avaliação médica nos treinos desta segunda-feira. Lautaro Martínez, com 22 gols em 41 jogos pela Inter, entra como alternativa imediata e pode começar caso Scaloni opte por uma linha mais vertical contra o sistema defensivo argelino. Flaco López, por sua vez, representa o trunfo para situações específicas — um segundo tempo em que a Argentina precise explorar bolas aéreas ou desequilibrar uma defesa recuada.
Não, Lautaro Martínez não é o atacante mais letal do elenco argentino nesta temporada — mas é o mais pronto fisicamente para a estreia de terça-feira, e esse detalhe pode ser o único que importa quando Scaloni entregar a escalação ao árbitro Marciniak às 15h (horário de Brasília).








