Sete titulares perdidos em uma única temporada. Para qualquer equipe do vôlei nacional, seria o anúncio de uma temporada de reconstrução e expectativas baixas. Mas o Cruzeiro transformou essa adversidade em combustível para uma das campanhas mais surpreendentes da Superliga Masculina 2025/26. Nesta quarta-feira (22), a equipe celeste venceu o Minas por 3 sets a 1, de virada, no Ginásio do Riacho, e ficou a uma vitória da final nacional.

O placar de 26/28, 25/22, 25/23 e 25/20 resume apenas o resultado da partida. A verdadeira vitória começou em dezembro de 2024, quando a diretoria cruzeirense precisou reinventar completamente o plantel após o êxodo de atletas fundamentais da temporada anterior. Em menos de quatro meses, técnico Filipe Ferraz e sua comissão moldaram um grupo que agora está entre os dois melhores times do país.

A revolução silenciosa do plantel

A saída de sete jogadores titulares forçou o Cruzeiro a uma reformulação radical que poucos acreditavam ser possível em tão pouco tempo. O levantador Brasília, autor de um ace decisivo no segundo set contra o Minas, exemplifica perfeitamente essa nova filosofia: jovem, técnico e com fome de títulos. Aos 23 anos, ele assumiu a responsabilidade de comandar um ataque que perdeu suas principais referências.

Douglas Souza, que entrou no terceiro set por opção técnica de Filipe Ferraz, representa outra faceta da reconstrução cruzeirense. Contratado especificamente para dar profundidade ao banco de reservas, ele se tornou peça fundamental nos momentos decisivos. Contra o Minas, sua entrada coincidiu com a virada definitiva no placar - de 15 a 14 para 25 a 23 no terceiro set.

Oppenkoski, com seus aces nos momentos cruciais, ilustra como a comissão técnica soube equilibrar experiência e juventude. O atacante polonês chegou como uma das poucas contratações pontuais, mas rapidamente se adaptou ao sistema tático que privilegia velocidade de transição e variação de ataques.

Filipe Ferraz e o DNA da reconstrução

A análise do SportNavo mostra que Filipe Ferraz aplicou uma metodologia específica para acelerar a integração do novo grupo. Durante os primeiros dois meses de preparação, a comissão técnica focou em fundamentos coletivos antes de lapidar as características individuais. O resultado aparece na consistência defensiva: mesmo perdendo o primeiro set por 28 a 26, o Cruzeiro manteve a confiança no sistema.

Rodriguinho, um dos poucos remanescentes da temporada anterior, assumiu papel de liderança técnica e emocional. Seu erro de ataque no final do primeiro set, que custou o empate no 23 a 21, poderia ter abalado o grupo. Mas a resposta veio imediata: no segundo set, a equipe abriu 9 a 6 com autoridade e nunca mais permitiu que o Minas assumisse o controle.

A substituição de Willian por Douglas Souza no terceiro set demonstra a maturidade tática de Ferraz. Mesmo com a lesão do levantador Javad no Minas - substituído por Gustavo Orlando -, o técnico cruzeirense manteve suas mudanças planejadas, priorizando o ritmo de jogo sobre a leitura do adversário.

Números que impressionam

Os dados revelam a eficiência da nova formação cruzeirense. Após perder o primeiro set por apenas dois pontos, a equipe cresceu progressivamente: venceu o segundo por três (25 a 22), o terceiro por dois (25 a 23) e o quarto por cinco pontos (25 a 20). Essa curva ascendente indica maturidade tática e condicionamento físico superior.

Bertolini, do Minas, simbolizou a pressão sobre o time visitante ao sacar para fora no set point do segundo set. Já o ace de Brasília, que abriu 11 a 9 no primeiro set, mostrou personalidade dos novatos cruzeirenses mesmo nos momentos de maior tensão do clássico mineiro.

Leo Lukas, com seu bloqueio simples logo no primeiro ponto da partida, deu o tom físico que o Minas pretendia impor. Mas a resposta técnica do Cruzeiro, variando entre ataques pelo meio com Giovane e jogadas pelas pontas, neutralizou a estratégia adversária.

O futuro começa na segunda

Na próxima segunda-feira (27), na Arena UniBH, o Cruzeiro pode confirmar uma vaga na final que parecia improvável no início da temporada. Para o Minas, será literalmente uma partida de vida ou morte na série melhor de três das semifinais. A vantagem cruzeirense vai além do placar: é psicológica, tática e, principalmente, baseada na confiança de um grupo que já provou ser capaz de superar qualquer adversidade.