Um policial levou um tiro no jantar dos correspondentes da Casa Branca, em Washington, no dia 25 de abril, e sobreviveu graças ao colete balístico. O suposto atirador, Cole Allen, 31 anos, foi detido pela Secretaria dos Serviços Secretos e pela polícia local, e posteriormente indiciado por tentativa de assassinato do presidente Donald Trump, que foi escoltado para fora do Washington Hilton junto com a primeira-dama Melania. Dana White estava no salão. Saiu de lá dizendo que a experiência havia sido 'f*cking awesome'. Esse foi o problema.
O que Dana White disse — e o que ele quis dizer
Nas entrevistas dadas logo após o cancelamento do evento, White deixou claro que não se jogou debaixo das mesas como outros presentes e descreveu o episódio como uma experiência única, quase cinematográfica.
"Foi f*cking awesome... Literalmente aproveitei cada minuto, foi uma experiência bem louca e única", declarou White nos momentos seguintes ao tumulto.O argumento de quem defende a fala do presidente do UFC é o de que ele apenas relatou sua reação pessoal de adrenalina, sem minimizar o sofrimento alheio. É uma interpretação possível, mas insuficiente para quem está na posição pública que White ocupa.
White comanda a maior organização de artes marciais mistas do planeta, com audiências que somam dezenas de milhões de fãs globalmente. O UFC fechou contrato de transmissão com a ESPN por mais de 1,5 bilhão de dólares em 2018 e segue sendo uma das marcas de combate mais valiosas do esporte mundial. Quando o CEO dessa organização faz uma declaração pública sobre um tiroteio, ele não está apenas relatando uma sensação pessoal — está emitindo um sinal de valores para uma base de seguidores massiva. A gestão de crise começa nas palavras escolhidas nos primeiros trinta segundos após o microfone aparecer na sua frente.
Matt Brown e o peso de quem já esteve lá
A crítica mais contundente não veio de um jornalista ou de um político. Veio de Matt Brown, veterano do UFC com carreira de mais de 15 anos no peso-meio-médio, que sobreviveu a um tiroteio em 2004 — uma experiência que, por definição, lhe dá uma perspectiva que a maioria das pessoas, incluindo Dana White, simplesmente não tem.
"Fiquei absolutamente boquiaberto. Me pegou completamente de surpresa quando vi o clipe dele dizendo que foi incrível. Acho que tenho um pouco mais de justificativa para criticar isso, sendo que já estive em um tiroteio. Não é incrível em nenhum sentido da palavra. Não é f*cking legal de jeito nenhum. Um cara foi baleado. Talvez tenha sobrevivido, mas foi baleado. Isso é uma experiência traumática para ele. Não há uma única coisa incrível nisso", disse Brown no podcast The Fighter vs. The Writer.
Brown vai além do choque emocional e toca em um ponto estrutural: a normalização da violência armada pelo discurso de líderes influentes. Quando alguém com a plataforma de Dana White romantiza um episódio em que um policial foi atingido por um projétil dentro de um evento com o presidente dos Estados Unidos, o efeito colateral é a banalização de um problema que mata dezenas de milhares de americanos por ano — o CDC registrou mais de 48 mil mortes por armas de fogo nos Estados Unidos em 2022, o maior número em décadas.
Gestão de crise que não aconteceu
A análise do SportNavo sobre o episódio aponta para um erro clássico de comunicação institucional: a ausência de empatia pública imediata. White poderia facilmente ter dito que ficou impressionado com a resposta dos agentes de segurança, destacado a coragem do policial baleado ou simplesmente expressado alívio pelo fato de não ter havido mortes. Nada disso aconteceu. A primeira frase que saiu foi sobre a própria experiência de adrenalina.
Comparativamente, quando o boxeador Manny Pacquiao foi alvo de uma tentativa de assalto em 2019, sua equipe emitiu uma nota em menos de duas horas expressando gratidão à segurança e preocupação com o bem-estar da comunidade. Essa diferença de abordagem não é trivial — ela define como o público processa o caráter de uma figura pública em momentos de pressão real. White tem 54 anos, décadas de experiência com câmeras e microfones e um departamento inteiro de relações públicas. O que foi dito não foi um escorregão de linguagem. Foi uma escolha.
O UFC e a responsabilidade do porta-voz
O contra-argumento mais comum nesse debate é o de que Dana White é autêntico, e que essa autenticidade é exatamente o que construiu o UFC. Há verdade nisso. White nunca foi um executivo corporativo de terno e linguagem asséptica, e grande parte da identidade da marca foi construída na sua personalidade sem filtros. O problema é que autenticidade e responsabilidade não são opostos — elas precisam coexistir quando a situação envolve vítimas reais.
Matt Brown, que participou de 34 lutas no UFC entre 2008 e 2023, com 22 vitórias, não pediu que White fosse um político. Pediu que ele reconhecesse que um ser humano levou um tiro. Essa é uma barra bastante baixa para qualquer figura pública, independentemente do esporte que representa ou do partido político que apoia. Segundo apuração do SportNavo junto a especialistas em comunicação esportiva, declarações de líderes do setor em crises de segurança pública têm impacto direto sobre a percepção de marca por pelo menos 60 dias após o incidente — tempo suficiente para que o próximo evento do UFC sofra reflexos nas buscas e no engajamento digital. Cole Allen ainda responde ao processo judicial por tentativa de assassinato, e o caso permanece em investigação pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.








