A última vez que o Brasil entrou em campo numa estreia de Copa do Mundo sem um lateral-direito titular consolidado foi em 1998, quando Mario Zagallo escalou Cafu em dúvida com Leonardo suspenso — e a Seleção venceu a Escócia por 2 a 1 com um gol de César Sampaio nos primeiros minutos. Vinte e oito anos depois, Carlo Ancelotti se vê diante de um dilema estruturalmente parecido: quem ocupa o corredor direito no MetLife Stadium, no próximo sábado (13), contra Marrocos?
O corte de Wesley e o vácuo que ninguém esperava
Quando Wesley foi cortado da Copa do Mundo, a notícia chegou como um raio num dia de sol. O lateral do Flamengo havia sido um dos nomes mais regulares nas convocações recentes e chegou a ser tratado internamente como titular em potencial. A lesão que o tirou do torneio abriu uma disputa que, até então, existia mais no papel do que no campo real: Danilo, Ibañez e Fabinho passaram a dividir a mesma vaga.

No treino desta quarta-feira (10), no CT de Columbia Park, em Nova Jersey, Ancelotti apresentou uma resposta provisória. O técnico italiano escalou a linha defensiva com Danilo na direita, Gabriel Magalhães e Marquinhos na zaga e Alex Sandro pelo lado esquerdo. A formação foi registrada pelos jornalistas presentes e confirmada por múltiplos veículos: a dupla experiente, ambos remanescentes da Copa do Mundo de 2022 no Catar, começa como favorita para a estreia.
Ibañez, que vinha sendo testado na posição e chegou a aparecer em algumas atividades como opção para o setor, ainda não está definitivamente afastado da titularidade. Restam dois treinos antes do jogo. Mas o sinal emitido por Ancelotti nesta quarta foi inequívoco.
Danilo e o peso de ter estado no Catar
Há algo que o futebol europeu e o sul-americano avaliam de formas distintas quando o assunto é Copa do Mundo: o que para o técnico italiano é experiência acumulada sob pressão, para o treinador argentino costuma ser bagagem que pode pesar nos pés. Ancelotti, formado na cultura do Calcio e do Real Madrid, claramente pertence à primeira escola. E Danilo, aos 33 anos, é exatamente o tipo de jogador que essa filosofia valoriza.
O capitão da Seleção esteve no Catar em 2022, saiu machucado no primeiro jogo contra a Sérvia — uma lesão no tornozelo que o tirou das oitavas — e voltou para o banco nas quartas de final contra a Croácia, partida que terminou com a eliminação brasileira nos pênaltis. A frustração daquele 4 a 2 nas cobranças ainda ressoa. Danilo sabe o que é uma Copa do Mundo por dentro, nos momentos de crise e de glória parcial.
Ibañez, por sua vez, tem 27 anos e nunca disputou um Mundial. Formado no Atalanta e hoje no Al-Qadsiah, da Arábia Saudita, o zagueiro-lateral tem qualidades físicas evidentes e boa capacidade de marcação individual — virtudes que seriam úteis diante de Marrocos, equipe que explorou bem os corredores na Copa de 2022, quando eliminou Portugal e Espanha. Mas Ancelotti, ao menos neste momento, escolheu o conhecido.
Fabinho, terceira opção para a posição, aparece como alternativa de emergência. O volante do Al-Ittihad já atuou como lateral-direito em momentos pontuais pelo Liverpool sob Klopp, mas sua função natural é no meio-campo, e usá-lo na defesa seria uma solução de contingência, não de escolha técnica.
O que Ancelotti monta ao redor da defesa
A linha defensiva definida no treino desta quarta — Danilo, Gabriel Magalhães, Marquinhos e Alex Sandro — é a mais experiente possível dentro do elenco disponível. Marquinhos chegou a 105 jogos pela Seleção e integra o top 10 de jogadores com mais partidas na história do escrete. Gabriel Magalhães, mais jovem do quarteto com 26 anos, é o único sem Copa do Mundo no currículo, mas tem sido titular absoluto desde que Ancelotti assumiu o comando.
Do meio para frente, a tendência apontada nos treinos é igualmente conservadora na escolha dos titulares: Casemiro e Bruno Guimarães como dupla de volantes, Lucas Paquetá como meia de criação, com Raphinha, Vini Jr. e Matheus Cunha completando o setor ofensivo. Luiz Henrique, Gabriel Martinelli e Endrick foram testados, mas devem começar no banco.
A ausência de Neymar no primeiro jogo é confirmada. O camisa 10, que trata uma lesão grau 2 na panturrilha direita, participou de uma roda de altinha na academia nesta quarta — ao lado de Casemiro, Lucas Paquetá, Gabriel Martinelli e Luiz Henrique — mas ainda não apareceu no gramado durante as atividades abertas à imprensa. A comissão técnica projeta o retorno do atacante para a segunda rodada, no dia 19 de junho, contra o Haiti, na Filadélfia.
"Canta mal demais", disse Casemiro sobre Ancelotti após o técnico passar pelo tradicional trote da Seleção, cantando a canção italiana I migliori anni della nostra vita — Os melhores anos de nossas vidas — diante do grupo.
A frase de Casemiro foi dita em tom de brincadeira, mas o contexto é significativo: Ancelotti completou 67 anos nesta quarta, passou pelo corredor polonês organizado pelos jogadores e demonstrou, mais uma vez, a capacidade de criar conexão com o grupo sem abrir mão da autoridade técnica. É um equilíbrio raro — e que explica, em parte, por que suas escolhas táticas são aceitas sem resistência visível dentro do elenco.
"Sei que tenho que cantar na frente dos jogadores, não tenho medo, porque gosto de cantar", disse Ancelotti antes mesmo de chegar ao Brasil, ainda em Guayaquil, quando perguntado sobre o ritual.
A última vez que o Brasil entrou em campo numa estreia de Copa do Mundo sem um lateral-direito titular consolidado foi em 1998 — e venceu. Desta vez, Ancelotti escolheu Danilo para responder à mesma pergunta que Zagallo respondeu com Cafu: quem protege aquele corredor quando o jogo começa a pesar.








