O Corinthians fechou 2025 com déficit de R$ 143,4 milhões e dívida bruta de R$ 2,723 bilhões — sendo R$ 2 bilhões referentes ao clube e R$ 642 milhões ao financiamento da Neo Química Arena. O Conselho Fiscal e o Conselho de Orientação (Cori) aprovaram as demonstrações financeiras com ressalvas, e o Conselho Deliberativo votará as contas na próxima segunda-feira.

O que gerou o rombo

A receita operacional líquida registrada foi de R$ 810,1 milhões, mas as despesas consumiram o resultado e deixaram saldo negativo de R$ 85,3 milhões antes de outros ajustes. O principal peso veio das despesas de pessoal — salários, encargos, direitos de imagem e premiações —, que saltaram de R$ 428,9 milhões em 2024 para R$ 571,1 milhões em 2025, alta de 33%.

A venda de jogadores trouxe R$ 107,4 milhões brutos. Descontadas as despesas com negociações de direitos econômicos, o líquido foi de R$ 89,1 milhões. As principais transações foram: Denner ao Chelsea por R$ 58 milhões, Guilherme Biro por R$ 14,1 milhões e a multa rescisória de Kauê Furquim paga pelo Bahia, no valor de R$ 14 milhões.

Do lado positivo, as premiações somaram R$ 128,8 milhões, puxadas pelos R$ 97,7 milhões do título da Copa do Brasil e pelos R$ 10,9 milhões da Copa Libertadores Feminina. O setor comercial contribuiu com R$ 252,1 milhões, sendo R$ 124,7 milhões de patrocínio de uniforme e R$ 46,9 milhões de material esportivo.

As ressalvas da auditoria e os problemas de governança

A auditoria independente Parker Russell apontou quatro ressalvas formais. A mais grave envolve a inclusão da transação tributária com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) no balanço de 2025, sendo que o acordo foi assinado apenas em 2 de fevereiro de 2026. O Corinthians negociou a dívida de R$ 1,2 bilhão com a União, reduzindo-a para R$ 679 milhões após desconto de 46,6% — impacto de R$ 217,4 milhões na dívida bruta.

"Consequentemente, em 31 de dezembro de 2025, o saldo de impostos parcelados no passivo encontra-se subavaliado e o patrimônio líquido e o resultado do exercício encontram-se superavaliados, no montante de R$ 593,299 milhões", afirmaram os auditores da Parker Russell em documento obtido pelo ge.globo.

Os auditores foram ainda mais diretos sobre o futuro do clube:

"Essas condições indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional do clube", registraram no relatório.

O documento do Conselho Fiscal também flagrou ausência de divulgação mensal das demonstrações financeiras, falta de controles internos documentados e uso de dinheiro em espécie para pagamento de despesas — prática que compromete a rastreabilidade contábil. O CF justificou a aprovação pelo cenário atípico: o exercício de 2025 contemplou cinco meses sob Augusto Melo, que sofreu impeachment em maio, e sete meses sob Osmar Stabile, que assumiu provisoriamente em 26 de maio e definitivamente em 27 de agosto.

O que o Corinthians precisa cortar e o que precisa gerar

O levantamento do SportNavo mostra que a folha de pessoal de R$ 571,1 milhões representa 70,5% da receita operacional líquida — índice muito acima do limite recomendado de 50% para clubes com perfil de endividamento elevado. Para 2026, a gestão Stabile precisará ou renegociar contratos com jogadores de menor impacto esportivo ou acelerar saídas que gerem receita líquida superior à de 2025.

A venda de R$ 89,1 milhões líquidos em transferências foi insuficiente para compensar o déficit operacional. Para equilibrar as contas, o clube teria de ao menos dobrar esse volume ou, alternativamente, reduzir a folha de pessoal em aproximadamente R$ 100 milhões — o equivalente a cortar entre 15% e 18% do custo atual.

O passivo circulante caiu de R$ 1,25 bilhão em setembro de 2025 para cerca de R$ 700 milhões em dezembro, com migração de dívidas para o longo prazo. A diretoria classifica esse movimento como melhora no perfil da dívida e na previsibilidade do fluxo de caixa — argumento aceito pelo Cori, mas sem eliminar as ressalvas contábeis.

O caminho para 2026

A análise do SportNavo aponta três frentes concretas que o Corinthians pode acionar para reduzir o déficit no exercício atual: ampliar receitas comerciais acima dos R$ 252,1 milhões registrados — o contrato de patrocínio master com a Esporte da Sorte encerrou-se e o substituto ainda não foi divulgado com valores públicos —, vender ativos com maior valor de mercado do que os negociados em 2025 e conter a escalada da folha salarial que cresceu R$ 142,2 milhões em apenas um ano.

O Conselho Deliberativo se reúne na próxima segunda-feira para votar as contas. Se aprovadas, a gestão Stabile terá o aval formal para executar o plano de reestruturação financeira que, segundo o próprio relatório de auditoria, é condição para garantir a continuidade operacional do clube.