29 minutos. Foi esse o tempo que Noussair Mazraoui durou no gramado do último amistoso de Marrocos antes da Copa do Mundo. O lateral do Manchester United caiu no chão depois de um choque, as mãos no ombro esquerdo, o rosto contorcido. Não voltou. E o pior: não estava sozinho na lista de baixas da noite.
O amistoso contra a Noruega, disputado neste domingo (7) em Nova Jersey, terminou em 1 a 1 — resultado que, sozinho, já seria motivo de análise. Mas foi o que aconteceu dentro do campo, antes do apito final, que deixou o técnico Mohamed Ouahbi com o semblante fechado na coletiva de imprensa. Além de Mazraoui, o ponta-esquerda Abdessamad Ezzalzouli, do Real Betis, também precisou ser substituído — este no intervalo, após receber uma pancada no joelho direito quando um adversário norueguês caiu sobre sua perna em disputa na área.
"Alguns jogadores saíram lesionados. Estou mais preocupado com isso do que com o resultado do jogo. Espero que os jogadores lesionados possam se recuperar e que os tenhamos na estreia", disse Ouahbi após a partida.
A estreia que o treinador menciona é justamente contra o Brasil, no próximo sábado (13), pelo Grupo C da Copa do Mundo. O relógio já corre.
O que Mazraoui e Ezzalzouli representam para Marrocos
Mazraoui não é apenas um lateral. É uma referência técnica e de liderança na seleção marroquina — um jogador que transita entre a marcação intensa e a construção ofensiva pelo lado esquerdo, papel que não se improvisa em seis dias de preparação. Aos 29 minutos do primeiro tempo, após o choque que o derrubou, ele saiu carregando o braço. Youssef Belammari entrou no seu lugar e tentou segurar o ritmo, mas o impacto tático foi imediato.
Ezzalzouli, por sua vez, é o desequilíbrio de Marrocos no ataque. O ponta do Real Betis terminou a temporada 2025/2026 como um dos jogadores mais verticais do elenco marroquino, com capacidade de criar superioridade numérica na borda da área. Perder os dois em um único jogo, no mesmo primeiro tempo, é o tipo de cenário que nenhum treinador quer imaginar a seis dias de uma Copa do Mundo.
Marrocos chega ao torneio como sétima colocada no ranking da Fifa — logo atrás do Brasil — e é apontada como a principal concorrente da Seleção pela liderança do Grupo C, que também tem Escócia e Haiti. A força do time de Ouahbi é real. Mas dois titulares machucados mudam o peso do confronto.
O flanco que o Brasil enxerga aberto
Com Mazraoui em dúvida no lado esquerdo da defesa marroquina, o flanco direito do ataque brasileiro — território natural de Rodrygo e eventualmente de Endrick em movimentações internas — ganha um contexto diferente. O substituto imediato, Belammari, ainda carece do mesmo rodagem internacional do titular. Não é fraqueza óbvia, mas é incerteza. E incerteza, contra o Brasil, costuma ser explorada.
A ausência ou limitação de Ezzalzouli no setor ofensivo também reduz a capacidade de Marrocos de criar pressão alta e transições rápidas — justamente o padrão de jogo que o técnico Ouahbi havia sinalizado querer implementar. Com menos velocidade na ponta esquerda adversária, a saída de bola da defesa brasileira tende a ter mais espaço para respirar.
Há, claro, o contraponto: os seis dias até o jogo podem ser suficientes para ao menos um dos dois recuperar condições mínimas. O próprio Ouahbi não descartou nenhum dos atletas. Mas o prazo é curto, e preparações médicas aceleradas carregam riscos de recidiva que nenhum comissão técnica ignora.
O contexto mais amplo da rodada de amistosos
Marrocos não é o único selecionado chegando à Copa com nomes importantes em situação delicada. A Espanha, por exemplo, enfrentará o Peru nesta segunda-feira (8) no Estádio Cuauhtémoc, em Puebla, sem Lamine Yamal nem Nico Williams — ambos com problemas musculares contraídos no fim da temporada com Barcelona e Athletic Bilbao, respectivamente. O técnico Luis de la Fuente, porém, foi mais tranquilo em sua avaliação: os dois foram poupados de forma planejada, e a expectativa é que estejam aptos para a estreia espanhola contra Cabo Verde, no dia 15 de junho no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta.
A diferença é que, no caso da Espanha, a ausência dos atacantes no amistoso foi uma escolha médica calculada — protocolo, não emergência. No caso de Mazraoui e Ezzalzouli, as saídas foram provocadas por choques dentro do jogo. Lesões traumáticas têm prognósticos menos previsíveis do que musculares em recuperação controlada.
"Sobre a partida em si e o estilo de jogo que queremos implementar, estou muito satisfeito", completou Ouahbi, tentando equilibrar a preocupação com um sinal de confiança no coletivo.
O técnico marroquino sabe que o grupo acredita no sistema. A questão é se as peças estarão disponíveis para executá-lo na intensidade necessária quando o árbitro apitar no MetLife Stadium, em East Rutherford, no sábado (13).
Para o Brasil, a notícia chega como uma vantagem inesperada — não conquistada em campo, mas registrada no boletim médico de um adversário que, até domingo, parecia chegar em condições ideais. A Seleção, que ocupa a sexta posição no ranking da Fifa, encontrará do outro lado uma equipe com pelo menos duas interrogações táticas que não existiam há 48 horas. Assim como uma sinfonia tocada com dois músicos a menos no naipe de cordas ainda pode ser poderosa — mas dificilmente soará como o maestro ensaiou.








