Quatro anos e meio de raquete na mão, uma virada de 4/1 para 7/6 na final e um troféu erguido diante de duas lendas do tênis sul-americano. Duda Gomes, 13 anos, nascida no Paraná, venceu no último domingo (19) o Roland Garros Juniors Series em São Paulo e se tornou a mais jovem campeã em cinco edições do torneio — o único no Brasil que concede vaga direta na chave juvenil de Roland Garros, em Paris.

Uma final decidida no detalhe

Na decisão, disputada na Sociedade Harmonia de Tênis, na capital paulista, Duda enfrentou a catarinense Maria Eduarda Carbone, de 15 anos — ou seja, dois anos mais velha. O placar final foi 7/6(5) 6/3, mas os números não contam tudo: Duda chegou a estar perdendo por 4/1 no primeiro set antes de virar. Esse tipo de resiliência em condições adversas é dado estatístico que diferencia talentos geracionais dos simplesmente bons jogadores.

"Estou muito emocionada e feliz com tudo o que aconteceu essa semana aqui em São Paulo. Agora é esperar a hora de ir para Paris", celebrou Duda logo após a conquista.

A jovem tenista disputou o torneio na categoria sub-17, com convite da Confederação Brasileira de Tênis — o que, por si só, já indica o reconhecimento institucional precoce de seu potencial. Ela entrou na chave como uma das mais novas e saiu como campeã. Na raquete que usou na final, seu pai e treinador havia escrito uma mensagem: "Eu posso todas as coisas". Um detalhe humano, mas revelador de uma estrutura familiar coesa, que costuma ser determinante no desenvolvimento de atletas de alto rendimento.

"Eu sabia que era a mais nova, mas também sabia que tinha potencial para ganhar de todas as meninas", afirmou a paranaense, com a confiança técnica que raramente se vê nessa faixa etária.

O peso histórico da conquista

A análise comparativa exige contexto. Duda começou a treinar aos 7 anos — seis anos de formação até o título. Conforme levantamento do SportNavo, desde Gustavo Kuerten em 2000, quando o gaúcho conquistou seu terceiro Roland Garros, o tênis brasileiro convive com uma lacuna significativa na formação de jogadores capazes de competir em Grand Slams de forma consistente. No feminino, essa ausência é ainda mais pronunciada: nenhuma brasileira venceu um torneio do Grand Slam juvenil em Paris nos últimos 20 anos.

Uma final decidida no detalhe Duda Gomes vence Roland Garros Juniors e
Uma final decidida no detalhe Duda Gomes vence Roland Garros Juniors e

Os troféus foram entregues pelas mãos de Gabriela Sabatini e Juan Martín del Potro, dois dos maiores nomes da história do tênis argentino. No masculino, o mato-grossense radicado no Rio de Janeiro Leonardo Storck também venceu sua final, superando o colombiano Juan Miguel Bolivar de virada por 2/6 6/2 6/4 — outro resultado que aponta para uma geração brasileira em ascensão simultânea no calendário junior.

Roland Garros e a ausência do ídolo

Duda declarou que seu maior ídolo é Carlos Alcaraz, atual bicampeão em Paris. A expectativa era acompanhar treinos e jogos do espanhol na Philippe-Chatrier. A realidade, porém, impôs um revés: na sexta-feira (24), Alcaraz anunciou sua desistência de Roland Garros devido a uma lesão no punho. A ausência do número 3 do ranking ATP reconfigura o torneio masculino, mas não altera em nada a trajetória da jovem paranaense no juvenil feminino.

O torneio juvenil de Roland Garros representa, historicamente, um dos filtros mais confiáveis para identificar futuros profissionais de alto nível. Steffi Graf, Arantxa Sánchez Vicário e Kim Clijsters passaram pela chave juvenil de Paris antes de dominar o circuito adulto. A vitória no torneio classificatório brasileiro coloca Duda em um quadro de visibilidade internacional que, aos 13 anos, pouquíssimos atletas alcançam.

O peso histórico da conquista Duda Gomes vence Roland Garros Juniors e
O peso histórico da conquista Duda Gomes vence Roland Garros Juniors e

O que os dados dizem sobre o futuro

A análise exclusiva do SportNavo mostra que, das últimas dez campeãs do torneio juvenil de Roland Garros, sete chegaram ao top 100 do ranking WTA em até cinco anos após o título. A janela de desenvolvimento entre 13 e 18 anos será decisiva para Duda — especialmente em aspectos físicos e táticos que o saibro exige: consistência de fundo de quadra, variação de ritmo e leitura de jogo em rally prolongado.

A paranaense estreia na chave juvenil de Roland Garros em Paris em maio, em data e adversária ainda a serem definidas pelo sorteio da Federação Internacional de Tênis. Será a primeira vez que ela pisará na quadra de saibro mais famosa do mundo — aos 13 anos, com um título sob o braço e uma geração inteira de torcedores brasileiros acompanhando cada ponto.