Todo mundo sabe que Éderson foi convocado para a Copa do Mundo. O que ninguém contava é que ele estava de férias quando o telefone tocou — e que o chamado não veio por sua posição natural, mas por uma lacuna tática que um placar de 6 a 2 deixou escancarada. O volante de 26 anos, nascido em 7 de julho de 1999, é agora o nome mais improvável do grupo brasileiro no torneio.

A ligação que interrompeu as férias de Éderson e revelou o plano de Ancelotti

Carlo Ancelotti precisava de um substituto para Wesley, lateral-direito cortado por lesão. A lógica convencional apontaria para outro jogador da mesma posição. Ancelotti foi na direção oposta. Segundo análise da comissão técnica da Seleção, a goleada sobre o Panamá no Maracanã revelou uma fragilidade no setor de criação e recuperação de bola: o meio-campo precisava de mais uma peça de equilíbrio, alguém capaz de cobrir espaços e ao mesmo tempo contribuir no jogo vertical.

AC Milan - Atalanta

Na sexta-feira, 5 de junho, antes do amistoso contra o Egito, Ancelotti declarou que precisava "mesclar o lado italiano com o brasileiro" para ganhar a Copa. A convocação de Éderson, um volante formado no modelo europeu de marcação intensa e transição rápida, é a tradução prática dessa frase. O jogador da Atalanta viajou às pressas para os Estados Unidos, trocando o descanso pelas chuteiras.

De Desportivo Brasil à Atalanta — a trajetória que construiu o volante que Ancelotti quer

Éderson não chegou ao futebol europeu por atalho. Revelado pelo Desportivo Brasil, ele foi cedido ao Cruzeiro ainda jovem, entre 2018 e 2019, num empréstimo que serviu mais como vitrine do que como trampolim imediato. Na Raposa, jogou em uma equipe que acabaria rebaixada para a Série B — situação que, paradoxalmente, ajudou a temperar o volante. Quem se mantém tecnicamente eficiente em um elenco em queda livre aprende a jogar sob pressão de um jeito que nenhum time campeão ensina.

Depois, passou pelo Corinthians, onde o rendimento ficou abaixo do esperado. Mas foi no Fortaleza que o jogador deu o salto decisivo de carreira — desempenho que abriu as portas da Salernitana, e em seguida da Atalanta. Em Bérgamo, sob Gian Piero Gasperini, Éderson aprimorou dois aspectos que hoje o tornam atraente para Ancelotti: a marcação posicional de alto nível e a capacidade box to box, atacando e retornando em ciclos curtos. Essa combinação o colocou entre os grandes nomes da Atalanta e agora o projeta para o Manchester United, onde é apontado como sucessor de Casemiro.

A comparação com Casemiro não é aleatória. Na temporada 2025/2026, a Atalanta utilizou Éderson como pivô de marcação em um esquema de duas linhas compactas — papel similar ao que Casemiro exerceu no Real Madrid entre 2015 e 2022, quando a equipe merengue conquistou três Champions Leagues consecutivas com o volante brasileiro como âncora. A diferença é que Éderson soma mais mobilidade ofensiva ao perfil, o que em tese o torna mais versátil para as demandas táticas de Ancelotti na Copa.

O encaixe tático na Seleção e o papel que Éderson pode ocupar na Copa

A última vez que Éderson vestiu a camisa amarela foi exatamente na estreia de Ancelotti no comando da Seleção, há um ano. Naquele chamado, ele não entrou em campo. Suas únicas partidas como titular da Amarelinha aconteceram sob Dorival Júnior — inclusive em convocação para a Copa América, outro torneio de peso em que o volante chegou pela primeira vez à lista.

O histórico revela um padrão: Éderson aparece nos momentos em que a Seleção precisa de soluções, não de nomes. Ancelotti, ao optar por ele e não por um lateral convencional para a vaga de Wesley, sinalizou que o flanco direito será gerenciado de forma coletiva, com o volante cobrindo espaços internos enquanto outros jogadores se revezam na largura.

"Preciso mesclar o lado italiano com o brasileiro se quiser ganhar a Copa do Mundo", disse Ancelotti antes do amistoso contra o Egito — frase que, à luz da convocação de Éderson, ganhou contornos táticos muito concretos.

Na prática, a presença de Éderson corrige um problema que a própria comissão técnica identificou na análise pós-Panamá: a falta de um volante com perfil mais conservador ao lado dos nomes já convocados em maio. Com ele, Ancelotti passa a ter uma peça que se assemelha funcionalmente a Fabinho — capaz de proteger a defesa sem abrir mão da participação na saída de bola.

O Brasil estreia na Copa do Mundo diante de um adversário a ser confirmado na fase de grupos, com o jogo previsto para a segunda quinzena de junho, nos Estados Unidos. Para Éderson, que saiu de férias e chegou à Copa em menos de uma semana, a partida inaugural será também o primeiro teste real de como Ancelotti pretende usá-lo — um volante vestindo a camisa de lateral, construindo sua função a partir do nada, como um chef que recebe os ingredientes de última hora e ainda assim precisa entregar o prato principal.