Quando um capitão some do mapa às vésperas de uma Copa do Mundo, a ausência pesa mais do que qualquer derrota em amistoso. Wataru Endo, 33 anos, volante titular e braçadeira do Japão, foi cortado da Copa do Mundo por lesão e, na mesma publicação em que comunicou o corte, anunciou sua aposentadoria da seleção. Sem barulho de estádio, sem coletiva de imprensa — um post nas redes sociais e uma lacuna tática de proporções consideráveis para Hajime Moriyasu resolver em menos de uma semana.
"Desde a minha lesão, fiz tudo o que pude até este momento, então não tenho nenhum arrependimento", escreveu Endo. "Com esta campanha, vou me aposentar da seleção nacional. Daqui em diante, estarei torcendo pela seleção japonesa como um torcedor."
O que Endo representava no esquema de Moriyasu
Quem acompanhou o Japão no Catar, em 2022, sabe que a virada histórica sobre a Alemanha — 2 a 1, com gols de Doan e Asano no segundo tempo — não teria acontecido sem a capacidade de Endo de equilibrar pressão e posse no meio-campo. Ele era o pivô que permitia ao time de Moriyasu fazer a transição entre o bloco defensivo baixo e o contra-ataque veloz. Pense no papel que Javier Mascherano exercia na Argentina de 2010 e 2014, ou no que Gilberto Silva fazia pelo Brasil de 2002: um destruidor que libera os meias mais criativos para correr risco. Endo ocupava exatamente essa função nos Samurais Azuis.
Na temporada 2025/2026, o volante sofreu com lesões recorrentes no Liverpool, o que limitou sua participação na Premier League a menos de 20 partidas. Mesmo assim, Moriyasu manteve a confiança nele — e agora paga o preço dessa aposta.

A substituição anunciada pela Federação Japonesa de Futebol é Shuto Machino, atacante do Borussia Mönchengladbach na Bundesliga. A troca não é apenas de jogador: é de posição, de perfil, de função. Trocar um volante de contenção por um centroavante é o tipo de movimento que muda o DNA de uma convocação.
Machino como substituto e o dilema de posição de Moriyasu
Machino é um atacante de área com bom jogo aéreo, eficiente no Mönchengladbach quando tem espaço para trabalhar. Mas ele não resolve o problema que Endo deixou. A lacuna é no meio-campo, não no ataque — e Moriyasu terá de escolher entre duas rotas igualmente arriscadas.
A primeira é reorganizar o meio de campo com Hidemasa Morita ou Ao Tanaka como âncora, abrindo mão de parte da criatividade para manter a proteção defensiva. A segunda é apostar num sistema mais ofensivo, com dois meias adiantados e Machino como referência, aceitando que o Japão será mais vulnerável nas transições defensivas. Há algo de Sophie's Choice nessa decisão: qualquer caminho exige sacrificar algo que o time não tem de sobra.
Moriyasu já demonstrou capacidade de adaptação. Na Copa de 2022, ele mudou para um 3-4-3 no intervalo da partida contra a Alemanha e inverteu o resultado. Mas aquela mudança foi feita com Endo em campo, garantindo a segurança que permitia o risco ofensivo. Agora, o técnico precisará de equilíbrio sem o principal instrumento de equilíbrio que tinha.
O Grupo F e a estreia contra a Holanda em Dallas
O Japão está no Grupo F ao lado de Holanda, Tunísia e Suécia — e estreia justamente contra os holandeses, em Dallas, no dia 14 de junho. A Holanda de Ronald Koeman tem em Frenkie de Jong e Tijjani Reijnders dois meias que exploram exatamente o tipo de espaço que Endo costumava fechar. Sem ele, o corredor central japonês fica exposto a transições rápidas que podem ser letais.
Historicamente, equipes asiáticas que chegam às Copas sem seu principal organizador de jogo tendem a perder consistência justamente nas partidas de maior pressão. A Coreia do Sul de 2006, sem o lesionado Lee Chun-soo em plena forma, conseguiu passar da fase de grupos, mas perdeu a identidade ofensiva que havia construído. O paralelo não é perfeito, mas a lógica é a mesma: líderes técnicos criam padrões de comportamento coletivo que não se substituem apenas com qualidade individual.
Em matéria do SportNavo, já havíamos apontado que o Japão era uma das seleções mais bem organizadas taticamente do torneio — justamente pela presença de Endo como eixo. Essa análise precisa ser revisada.
O Grupo F tem uma janela de oportunidade real para os japoneses: Tunísia e Suécia são adversários alcançáveis, e uma vitória ou empate contra a Holanda já colocaria o Japão em posição confortável. Mas sem Endo ditando o ritmo e protegendo a defesa, a margem de erro encolheu. A estreia contra os holandeses, em Dallas, no dia 14 de junho, será o primeiro teste real de quanto Moriyasu conseguiu adaptar seu sistema em tempo recorde.








