6 minutos. Foi o tempo que Endrick precisou em campo para resolver o que o Brasil não havia conseguido em 51 minutos de jogo contra o Egito, neste sábado (6), em Cleveland. O gol aos 52 do segundo tempo — ou seja, no sétimo minuto após sua entrada — encerrou o amistoso em 2 a 1 e fechou a preparação da Seleção com uma vitória. Mas deixou aberta, e mais urgente do que nunca, a questão que vai perseguir Carlo Ancelotti até o apito inicial contra o Marrocos, no próximo sábado (13), em Nova Jersey: o que fazer quando Neymar estiver disponível?

O garoto de 19 anos que aparece quando o Brasil mais precisa

Há um padrão difícil de ignorar no currículo de Endrick com a Seleção. Contra a Croácia, no primeiro jogo sob o comando de Ancelotti, o atacante entrou do banco e decidiu. Contra o Egito, repetiu a dose com a mesma frieza. Aos 19 anos, o ex-palmeirense acumula uma estatística que poucos jogadores têm na história recente do futebol brasileiro: gols decisivos em partidas de pressão, saindo do banco. O próprio técnico italiano reconheceu a qualidade do jovem após o apito final.

"O Endrick tem essa qualidade, é muito potente, bem posicionado na área. É um jogador muito importante para nós", afirmou Ancelotti em entrevista coletiva.
O elogio é merecido, mas levanta uma contradição que o treinador ainda não resolveu em público: se Endrick é tão importante, por que começa no banco?

A resposta, ao menos por ora, chama-se Neymar. O camisa 10 não viajou para Cleveland por conta de uma lesão na panturrilha e é dúvida para a estreia contra o Marrocos. A ausência forçada do maior artilheiro da história da Seleção — 79 gols em 128 jogos — cria um vácuo que Endrick ocupa com naturalidade, mas que Ancelotti ainda reluta em oficializar como titular. É uma situação que lembra, guardadas as devidas proporções, o dilema vivido por Vanderlei Luxemburgo em 1998, quando Ronaldo entrava em campo com a saúde comprometida e ninguém ousava questionar sua presença no time.

A Copa do Mundo começa daqui a sete dias e Ancelotti já tem o time

O técnico italiano foi categórico ao confirmar que a escalação para a estreia já está definida.

"Eu tenho a escalação inicial para jogar contra o Marrocos, tenho a ideia clara. O jogo me dá mais certeza, porque acho que a equipe está bem", disse Ancelotti.
A dupla de zaga foi a única informação concreta que o treinador entregou: Marquinhos e Gabriel Magalhães são titulares indiscutíveis, mesmo ainda não estando em 100% fisicamente após a final da Champions League. No setor ofensivo, Ancelotti elogiou a dupla Vinícius Júnior e Raphinha e sinalizou que os dois devem começar. O que sobra, portanto, é a vaga de centroavante — e ali mora o debate.

Bruno Guimarães, que abriu o placar contra o Egito com um gol no primeiro tempo, mostrou a consistência que o torcedor espera do meio-campo. O volante do Newcastle foi direto ao ponto após o apito final:

"Muito feliz. Faltando uma semana para a estreia, nada melhor que terminar essa sequência de amistosos com uma vitória. Agora é já focar no jogo contra o Marrocos, que nosso sonho começa ali."
A confiança do elenco é palpável. O problema é que a confiança não elimina a dúvida sobre quem vai começar na ponta de lança.

A lesão de Wesley e o roteiro que o Brasil já conhece de cor

Se a disputa entre Endrick e Neymar pela camisa 9 é o debate principal, a lesão do lateral-direito Wesley é a emergência imediata. O jogador da Roma saiu de campo aos 16 minutos do primeiro tempo com dores na virilha esquerda, chorou no banco de reservas e será submetido a exames neste domingo (7). O prazo limite para substituição na lista da Copa é sexta-feira, dia 12 — um dia antes da estreia. A situação é angustiante porque tem precedente: Éder Militão e Vanderson já haviam sido cortados antes mesmo da convocação oficial por lesão. A Seleção chega ao Mundial com o setor defensivo sob pressão.

Quem viveu algo semelhante foi Luiz Felipe Scolari em 2002, quando o capitão Emerson se lesionou num treino recreativo às vésperas da estreia contra a Turquia e precisou ser substituído por Ricardinho, do Corinthians — uma escolha que surpreendeu a todos que esperavam a convocação de Alex, do Cruzeiro. A diferença é que Ancelotti tem opções mapeadas: Danilo, do Flamengo, entrou na vaga de Wesley e pode atuar na lateral direita; Roger Ibañez é a primeira opção do treinador para o posto; e, caso o corte seja confirmado, Vitinho, do Botafogo, e Paulo Henrique, do Vasco, constam na pré-lista enviada à Fifa. O técnico foi pragmático:

"Temos de esperar amanhã para ver o diagnóstico do Wesley. Acho que ele vai ter tempo para se recuperar e estar conosco. Se não, vamos escolher outro. Temos tempo para pensar nisso."

O que Endrick representa além do gol em Cleveland

Há uma analogia que ajuda a entender o momento de Endrick na Seleção. No tênis, quando um jovem prodígio entra como substituto e vence um set decisivo, o técnico enfrenta o dilema clássico: manter o veterano campeão ou apostar no garoto que não conhece pressão porque ainda não aprendeu a temê-la. Endrick, aos 19 anos, joga com a leveza de quem ainda não carrega o peso de uma Copa perdida. Neymar, aos 34, carrega tudo isso — e mais a responsabilidade de ser o maior artilheiro da história verde-amarela.

O histórico de confrontos entre Brasil e Marrocos favorece amplamente os brasileiros: em quatro jogos disputados em Copas do Mundo e amistosos, o Brasil venceu três e empatou um, marcando 8 gols e sofrendo apenas 2. Mas o Marrocos de 2026 não é o mesmo que caiu na fase de grupos em 1994 ou 1998 — a seleção africana chegou às semifinais do Mundial do Catar em 2022 e construiu uma geração experiente. Raphinha foi claro ao encerrar a entrevista pós-jogo: "Confiar na gente, confiar no trabalho que está sendo feito. A gente vai buscar o hexacampeonato para o Brasil." A promessa pesa 24 anos de espera desde o Japão e Coreia.

O Brasil enfrenta o Marrocos no próximo sábado (13), às 19h, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, pela primeira rodada do Grupo C. Antes disso, os exames de Wesley neste domingo vão definir se Ancelotti precisa reconfigurar o setor defensivo — e aí, com ou sem Neymar, Endrick já sabe o que fazer quando o técnico chamar o seu nome.

Enquanto os médicos aguardavam o resultado dos exames, Endrick saiu do estádio em Cleveland com a camisa da Seleção no braço e um sorriso que não precisava de legenda.