Quatro gols. Duas assistências. Quatrocentos e oitenta e oito minutos. Três coisas: eficiência, oportunidade e decisão. Tudo se explica daí — e o que esses números projetam para a Copa do Mundo pode mudar o plano de Carlo Ancelotti antes mesmo da estreia contra Marrocos.

O número que separa Endrick de Matheus Cunha pela Seleção

Endrick, 19 anos, acumula quatro gols e duas assistências em 17 partidas pela Seleção Brasileira principal — sendo titular em apenas duas delas. Isso representa uma participação direta em gols a cada 81 minutos jogados. Matheus Cunha, camisa 9 nos últimos compromissos da equipe nacional, contabiliza um gol e duas assistências em 23 jogos e 1.026 minutos. Sua taxa de participação cai para uma a cada 342 minutos. A diferença é de mais de quatro vezes — e não há como ignorar isso ao montar uma lista de titulares para um Mundial.

O gol marcado contra o Egito, na vitória por 2 a 1 que encerrou a preparação brasileira antes da Copa, condensou essa narrativa em um único lance. Endrick entrou no segundo tempo, recebeu a bola em área de pressão e decidiu. Era a última vitrine antes da estreia. O jornal espanhol AS, publicação de referência em Madri, foi direto em sua análise posterior ao jogo.

"Assim que entrou em campo, viu-se o Endrick de sempre: lutador, insaciável e querendo demonstrar que Ancelotti pode confiar nele. Simplesmente não há comparação entre os dois jogadores."

O AS foi além dos gols e classificou o atacante como um "terremoto" — termo que no vocabulário esportivo espanhol reserva-se àqueles que alteram o equilíbrio de uma partida com presença física e psicológica, não apenas técnica. O jornal também lembrou que o jovem ex-palmeirense não terá a camisa 9 durante o torneio, mas sustentou que os argumentos para colocá-lo como centroavante titular são mais sólidos do que o número na camiseta sugere.

O xG de Endrick revela o que o olho nu já suspeita

Para além da contagem bruta de gols, uma métrica avançada reforça o argumento: o Expected Goals (xG), que mede a probabilidade estatística de um chute se converter em gol com base em posicionamento, ângulo e contexto da jogada. Em linguagem direta: o xG diz se um atacante está sendo eficiente ou se apenas se beneficiou de chances fáceis. Pelo Real Madrid na temporada 2025/2026, Endrick converteu sete gols em 37 partidas com minutagem reduzida — índice que, cruzado com o xG acumulado nessas oportunidades, indica que o brasileiro converte acima do esperado para a qualidade das chances que recebe. Em outras palavras: ele não depende de jogadas prontas para ser decisivo.

O número que separa Endrick de Matheus Cunha pela Seleção Endrick marca mais a c
O número que separa Endrick de Matheus Cunha pela Seleção Endrick marca mais a c

Esse padrão não é novidade para quem acompanhou a trajetória do atacante no Palmeiras, onde foi revelado. Antes dos 18 anos, já exibia essa capacidade de transformar meia-chance em gol com uma leitura corporal incomum para a idade. O que se discute agora não é talento — esse está provado. O que está em aberto é se Ancelotti vai reconhecer, no ambiente da Seleção, o que não reconheceu de forma plena no Real Madrid, onde o jovem enfrentou uma fila extensa por minutos em campo.

Ancelotti diante de um dilema que a história da Seleção já viveu antes

A situação tem paralelos históricos. Em 1982, Telê Santana também tinha dois atacantes com perfis distintos disputando espaço — Serginho e Roberto Dinamite — e optou por um modelo mais coletivo que acabou relegando o centroavante mais instintivo ao banco. O resultado ficou gravado como um dos maiores arrependimentos do futebol brasileiro. Já em 1994, Carlos Alberto Parreira escolheu Bebeto e Romário juntos, apostando na eficiência acima da estética. A Copa foi para casa.

Ancelotti, agora à frente do Brasil, tem à disposição dados que nenhum técnico da Seleção teve antes com tanta clareza. Os números de Endrick em menos de 500 minutos superam, em eficiência, o que Matheus Cunha produziu em mais de mil. Isso não apaga o valor do camisa 9, que tem outras qualidades no jogo de construção e na pressão alta. Mas coloca uma questão objetiva na mesa do treinador italiano: em um torneio eliminatório, onde cada gol pode mudar o destino de uma nação, quem você quer no campo quando o placar está empatado no segundo tempo?

"Em Copa do Mundo, o técnico que respeita mais o número do que o nome na camiseta quase sempre sai na frente", refletiu um treinador de categorias de base com experiência em competições internacionais de formação.

A resposta de Ancelotti virá no dia 15 de junho, quando o Brasil enfrenta Marrocos na abertura do Grupo C da Copa do Mundo. A escalação anunciada naquela tarde vai dizer muito sobre o peso que o técnico italiano dá às estatísticas — e sobre o papel que Endrick terá naquele que pode ser seu primeiro Mundial.