É um cronômetro de precisão que ninguém sabe quando vai parar.
A imagem serve à Espanha de Luis de la Fuente, que no último resultado diante da Turquia pelas Eliminatórias Europeias empatou em 2 a 2 e chegou a 31 jogos sem derrota em competições oficiais — igualando o recorde mundial que pertencia à Itália de Roberto Mancini, construído entre 2018 e 2021. A última vez que a Fúria Espanhola perdeu um jogo oficial foi em março de 2023, para a Escócia. Desde então, vieram a Eurocopa de 2024, a campanha até a final da Liga das Nações e uma fase classificatória para a Copa do Mundo em que não havia sofrido sequer um gol antes do confronto com os turcos.
A Itália de Mancini e o recorde que a Europa queria esquecer
Para entender o peso do que a Espanha igualou, é preciso revisitar o que a Itália construiu naquele ciclo de 37 jogos invictos — a maior sequência da história entre seleções. A Azzurra de Mancini não perdeu entre outubro de 2018 e outubro de 2021, período em que conquistou a Eurocopa disputada em Wembley, em julho de 2021, batendo a Inglaterra nos pênaltis. A invencibilidade só terminou nas semifinais da Liga das Nações daquele mesmo ano, quando a Espanha — hoje protagonista desta disputa — derrotou os italianos e encerrou a série. Há uma ironia histórica difícil de ignorar: foi justamente a Roja que matou o recorde da Azzurra, e agora tenta ultrapassá-lo.
Os 31 jogos oficiais sem derrota da Itália em competições não-amistosas representam apenas parte da sequência total. Quando se considera todos os jogos, incluindo amistosos, o número sobe para 37. A Espanha, ao igualar a marca restrita a competições oficiais, ainda tem diante de si o desafio de superar essa barreira mais ampla — e o calendário que se apresenta antes e durante a Copa do Mundo de 2026 oferece exatamente essa oportunidade.
O técnico Fernando Torres, em entrevista à época em que a Espanha vivia outro ciclo de invencibilidade — aquele de 29 jogos entre 2010 e 2013, encerrado pelo Brasil na final da Copa das Confederações no Maracanã —, já sinalizava o que move esse grupo:
"Quanto mais vencemos, mais se quer. Não podemos ganhar sempre, mas esperamos que dure muito tempo. Essa equipe tem a vontade de ganhar como algo similar. Quando se ganha, normalmente se perde o apetite, mas com nosso time é ao contrário."A mentalidade descrita por Torres em 2013 parece ter atravessado gerações dentro da seleção espanhola.
Brasil, Argentina e o mapa das grandes invencibilidades mundiais
A corrida por recordes de invencibilidade não pertence apenas a europeus. O Brasil tem a segunda maior sequência da história, com 36 jogos sem derrota entre 1993 e 1996 — período que incluiu, claro, o tetracampeonato mundial na Copa dos Estados Unidos em 1994. A série terminou na final da Copa Ouro de 1996, contra o México. Quem acompanhou aquela geração de Romário, Bebeto e Zinho sabe que não se tratava de uma equipe que evitava adversários: eram jogos contra seleções de peso, em competições continentais e mundiais. O Brasil de 1993 a 1996 era, literalmente, imbatível.
A Argentina de Lionel Scaloni ocupa hoje a quarta posição nesse ranking histórico, com 32 jogos sem derrota — marca alcançada após a vitória sobre a Itália na Finalíssima. Os hermanos não perdem desde 2019 e, nesse período, conquistaram a Copa América de 2021 contra o Brasil no Maracanã e o título mundial no Catar em 2022. A sequência argentina é a mais longa atualmente ativa entre as grandes seleções, mas a Espanha — com seus 31 jogos — respira no pescoço dos campeões do mundo.
Para que se tenha dimensão histórica completa: a França de 1994 a 1996 e a Hungria de 1950 a 1954 ficaram 30 jogos sem perder. A Itália de 1935 a 1939 — aquela que venceu a Copa do Mundo de 1938 sob Vittorio Pozzo — também chegou a 30. A Espanha de 2007 a 2009, geração que antecedeu o tricampeonato, acumulou 35 jogos invictos, sequência interrompida pelos Estados Unidos na semifinal da Copa das Confederações de 2009 em Johannesburgo.

Qual dessas sequências tem mais valor histórico — a que dura mais jogos, ou a que atravessa mais torneios decisivos?
A Espanha chega à Copa do Mundo com moral e com contas a acertar
A atual sequência espanhola tem substância além dos números. Mikel Oyarzabal, autor do gol que garantiu a Eurocopa de 2024 contra a Inglaterra em Berlim, marcou seu 25º gol pela seleção principal no amistoso contra o Peru, vitória por 3 a 1 no Estádio Cuauhtémoc, no México — partida que elevou a invencibilidade no tempo regulamentar a 30 jogos antes do confronto com a Turquia. Pedri, Ferran Torres e Yéremy Pino também figuram como peças desse mosaico técnico que De la Fuente montou com paciência e consistência.
A Espanha estreia no Grupo H da Copa do Mundo contra Cabo Verde em 15 de junho. Antes disso, enfrenta a Argentina na Finalíssima — confronto que colocará frente a frente as duas maiores invencibilidades ativas do futebol mundial: os 31 jogos espanhóis contra os 32 argentinos. Quem vencer carrega para o Mundial não apenas os três pontos simbólicos, mas o argumento mais poderoso do futebol contemporâneo.
A história das invencibilidades ensina que as sequências terminam sempre de forma inesperada. A Suíça derrubou a Espanha na estreia da Copa de 2010 com um gol de Gelson Fernandes — ninguém apostaria nisso. O Brasil encerrou a série italiana de 2013 com Fred marcando duas vezes nos primeiros minutos de cada tempo no Maracanã. A Espanha de 2021 fez o mesmo com os italianos de Mancini. Cada fim de invencibilidade tem um algoz improvável.
A Espanha chega à Copa do Mundo 2026 como campeã europeia, com 31 jogos oficiais sem derrota, e com a Finalíssima contra a Argentina marcada como derradeiro teste antes do torneio mais importante do planeta.








