Um dos jogadores mais explosivos de Marrocos saiu carregado de um amistoso — e a seleção brasileira ganhou, antes mesmo de pisar em campo, uma das vantagens táticas mais concretas desta fase de grupos. Abdessamad Ezzalzouli, ponta-esquerdo do Real Betis, foi diagnosticado com entorse moderada do ligamento colateral medial do joelho direito e está fora da estreia da Copa do Mundo contra o Brasil, marcada para o próximo sábado, 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

O paradoxo que abre esta história é simples e brutal: Ezzalzouli se machucou num lance de defesa de escanteio — exatamente o tipo de ação que não é sua função principal. O companheiro Chadi Riad caiu sobre ele na disputa pela bola, torcendo o joelho do atacante. Pouco antes, no mesmo amistoso contra a Noruega, no domingo 7, Abde havia produzido o momento técnico mais bonito da partida: uma arrancada fulminante pela esquerda que resultou na assistência para o gol de Brahim Díaz, que abriu o placar antes do empate norueguês, assinado por Odegaard, no 1 a 1 final.

O jogador que Marrocos perde e o Brasil sabia que temia

A tensão começa aqui: Ezzalzouli era justamente o nome que a comissão técnica brasileira havia mapeado como o mais imprevisível no esquema do técnico Mohamed Ouahbi. Com 37 partidas pelos Leões do Atlas, o ponta de 23 anos construiu uma identidade de jogo baseada em aceleração em espaços reduzidos, dribles em velocidade e transições rápidas pelo corredor esquerdo. Sua principal virtude — a explosão nos primeiros três metros — é também o tipo de recurso mais difícil de neutralizar defensivamente.

O boletim médico divulgado pelo Real Betis à Federação Marroquina aponta recuperação estimada de duas a três semanas, o que praticamente elimina sua participação na fase de grupos e coloca em risco qualquer presença antes das oitavas de final. O técnico Ouahbi tem até 24 horas antes da estreia para decidir se mantém Ezzalzouli na lista de convocados — apostando numa recuperação improvável para o mata-mata — ou aciona um substituto da pré-lista.

O efeito cascata no ataque marroquino

A ausência de Ezzalzouli não é um problema isolado. Marrocos já chegou à Copa do Mundo com o elenco pressionado por lesões, e a saída do ponta reconfigura o equilíbrio ofensivo de forma significativa. Com o lado esquerdo descoberto, a expectativa dos analistas é que o poderio criativo marroquino migre para o flanco direito, concentrando-se na dupla Achraf Hakimi, lateral do PSG, e Brahim Díaz, meia-atacante do Real Madrid. Essa centralização de jogo num único corredor é uma informação valiosa para o posicionamento defensivo brasileiro.

Do ponto de vista estatístico, a ausência de Ezzalzouli tem peso mensurável. Em métricas de xT (Ameaça Esperada) — um índice que calcula a probabilidade de cada ação de um jogador gerar gol, considerando posição e tipo de movimento —, pontas velozes em transição como Abde acumulam valores acima da média simplesmente por forçar a defesa adversária a se desdobrar lateralmente. Sem ele, Marrocos perde o agente que mais distorcia linhas defensivas pelo lado esquerdo, o que significa que o Brasil pode defender com uma linha mais compacta e menos exposta nas costas dos laterais.

"A entorse tende a tirá-lo de parte da fase de grupos, em especial a estreia contra o Brasil", informou o jornal espanhol Marca, veículo que primeiro revelou o diagnóstico ao público após contato entre o Betis e o departamento médico da Federação Marroquina.

O que o Brasil ganha taticamente em 13 de junho

A vantagem brasileira não é apenas a ausência de um jogador: é a previsibilidade que essa ausência gera no adversário. Sem Ezzalzouli, Marrocos tende a jogar com um ponta menos vertical pela esquerda — possivelmente Sofiane Boufal ou outro perfil de jogador com menos explosão de velocidade —, o que favorece a saída de bola do lateral-direito brasileiro, que terá um corredor com menor pressão de marcação alta.

O efeito cascata no ataque marroquino Ezzalzouli cai em amistoso e abre o flan
O efeito cascata no ataque marroquino Ezzalzouli cai em amistoso e abre o flan

A concentração do jogo marroquino pelo lado de Hakimi também é uma faca de dois gumes para os Leões do Atlas. O lateral do PSG é um dos melhores do mundo em sua posição, com capacidade ofensiva que desequilibra qualquer defesa. Mas ao sobrecarregar o flanco direito, Marrocos abre espaço nas transições pelo lado esquerdo — exatamente onde o Brasil tem jogadores com capacidade para explorar profundidade.

"Com a ausência de Abde, o poderio ofensivo de Marrocos deve se concentrar pelo outro lado do campo, com o lateral Hakimi do PSG e Brahim Díaz do Real Madrid", apontou análise publicada pela Veja após a confirmação do diagnóstico.

Marrocos chega ao Grupo C pressionado por um acúmulo de baixas

O quarto colocado da Copa do Mundo de 2022 — feito histórico para o futebol africano — inicia esta edição do torneio em condições diferentes das que o projetaram ao estrelato. Além de Ezzalzouli, o elenco já carregava outras ausências por lesão antes mesmo de a competição começar, o que reduz as opções de Mohamed Ouahbi para girar o elenco e manter intensidade ao longo das três rodadas da fase de grupos.

O Grupo C reúne Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti. A segunda rodada coloca Marrocos diante da Escócia no dia 19 de junho, em Boston, e a terceira, contra o Haiti no dia 24 de junho, em Atlanta. A perspectiva de recuperação de Ezzalzouli para o mata-mata depende de como a lesão evoluir nas próximas semanas — e de Marrocos, primeiro, avançar de fase. O Brasil, enquanto isso, joga sua segunda partida do grupo no dia 18 de junho, contra a Escócia, com a possibilidade de já chegar a esse confronto matematicamente classificado caso vença Marrocos no sábado.