O barulho das arquibancadas do MetLife Stadium ainda não começou, mas a desconfiança já chegou antes do Brasil. Com a estreia marcada para o próximo sábado, 13 de junho, contra Marrocos, em Nova Jersey, o ex-lateral Fábio Santos usou o programa Resenha da Copa, da ESPN, nesta segunda-feira (8), para dizer o que muitos torcedores pensam mas poucos analistas têm dito com tanta clareza: a Seleção Brasileira de Carlo Ancelotti ainda não existe como time.

O diagnóstico de Fábio Santos sobre o Brasil de Ancelotti

Campeão da Copa do Brasil pelo Atlético-MG e com passagem por Corinthians e Santos, Fábio Santos construiu carreira longa no futebol nacional antes de migrar para a análise. Sua leitura sobre o momento da Seleção não foi diplomática.

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"A seleção do Ancelotti não joga bem. Fica um pouco confuso pra gente tentar entender onde cada um rende melhor. Acho que esse é o grande desafio do Ancelotti pra Copa. Tentar potencializar onde cada um pode render mais. Eu ainda não consigo enxergar o Brasil como time, muito distante disso na verdade."

A crítica vai além do estético. O ex-lateral identificou um problema estrutural: a rotatividade excessiva de posições tem destruído a confiança individual de jogadores que, nos clubes, atuam com papéis bem definidos. O caso mais citado foi o de Raphinha, artilheiro do Barcelona na temporada 2025/2026 com mais de 20 gols na La Liga e protagonista da Champions League pelo clube catalão.

"A gente já viu o Raphinha jogar de segundo atacante, aberto, de 10. Isso prejudica o jogador, tira a confiança. Tá muito confuso ainda, acho difícil pro jogador se adaptar a isso. Estamos distantes nesse sentido e tem prejudicado muitos jogadores. Ele tem privilegiado muito o Vini e tem atrapalhado outros jogadores. Então pra mim falta mais do Ancelotti."

O que os números revelam sobre a instabilidade tática

A crítica de Fábio Santos encontra respaldo quando se analisa a frequência de variações táticas de Ancelotti desde que assumiu o cargo em janeiro de 2024. Em mais de 15 convocações, o técnico italiano testou pelo menos três sistemas diferentes — 4-2-3-1, 4-3-3 e 4-4-2 em losango — sem fixar uma formação base que persistisse por mais de dois jogos consecutivos. Vinicius Jr., como apontou o ex-lateral, tem sido o único ponto de referência estável no ataque, enquanto ao redor dele as peças giram sem critério aparente.

Raphinha, por exemplo, foi titular em posições distintas nos últimos quatro amistosos da Seleção. No Barcelona, o camisa 11 atua predominantemente pela direita num 4-2-3-1 consolidado sob Hansi Flick, com liberdade para cortar e finalizar. Na Seleção, ora aparece como segundo atacante centralizado, ora como meia-criativo, ora como ponta aberta no lado esquerdo. O resultado é um jogador que chega ao jogo mais importante do ano sem saber exatamente o que o técnico espera dele.

Os dois amistosos mais recentes — vitórias que poderiam sugerir evolução — não apagam esse quadro. Vencer adversários de menor expressão em jogos de preparação diz pouco sobre a solidez coletiva. O que Fábio Santos identifica é a ausência de automatismos: sem repetição de padrões de jogo, não há memória muscular coletiva, e sem memória muscular coletiva, o time improvisa sob pressão.

O risco de chegar ao mata-mata sem identidade

A fase de grupos do Grupo C coloca o Brasil diante de Marrocos (13/06), Haiti (19/06) e Escócia (24/06) — adversários que, no papel, não deveriam impedir a classificação. O risco real não está no grupo. Está em chegar ao mata-mata sem ter consolidado nenhuma estrutura tática reconhecível, o que tornaria o Brasil previsível para adversários que terão três semanas para estudar os padrões da equipe.

  • Marrocos — 13/06, 19h (Brasília), MetLife Stadium, Nova Jersey
  • Haiti — 19/06, 21h30 (Brasília)
  • Escócia — 24/06, 19h (Brasília)

A leitura analítica além da polêmica

A declaração de Fábio Santos é incômoda, mas tecnicamente embasada. Ancelotti tem histórico de montar times que funcionam pela qualidade individual dos atletas — Real Madrid, Bayern de Munique e Milan são exemplos de elencos que jogaram bem apesar de sistemas táticos relativamente simples. O problema é que, no Real, ele tinha Modric, Kroos e Casemiro formando um meio-campo que se entendia de olhos fechados após anos juntos. Na Seleção, ele tem um grupo que se reúne por períodos curtos e ainda não encontrou a mesma cumplicidade.

A questão que o ex-lateral levanta não é se Ancelotti é bom ou mau técnico. A questão é se o modelo de gestão que funcionou em clubes de elite — onde o treinador encontra um elenco pronto e afina detalhes — funciona igualmente numa seleção nacional que precisa construir identidade do zero em janelas de dez dias. Até agora, a resposta parece ser não.

O Brasil estreia no sábado, 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), contra Marrocos no MetLife Stadium. Se Ancelotti escalar Raphinha numa posição diferente da que utilizou nos últimos treinos, a fala de Fábio Santos ganhará ainda mais peso — e o jogo contra o Haiti, seis dias depois, será o primeiro teste real de aprendizado da Copa.