Sábado à tarde, Neymar come feijoada em um boteco em Santos, flagrado pela reportagem do UOL. Domingo pela manhã, o astro não aparece no CT Rei Pelé para o treino de preparação para a Sul-Americana, e o clube emite nota oficial explicando que o camisa 10 "apresentou quadro de virose na noite de sábado". A sequência de eventos, com intervalo de menos de 24 horas, seria cômica se não fosse o Santos a 17ª colocação do Brasileirão, com 14 pontos, dentro da zona de rebaixamento após a vitória do Corinthians sobre o Vasco.
A nota oficial e o que ela não explica
O comunicado do Santos foi objetivo e protocolar:
"O atleta Neymar Jr. apresentou quadro de virose na noite de sábado, foi medicado, reagiu bem e segue acompanhado pelo departamento médico do Santos FC."O clube ainda confirmou que Neymar estará na delegação que viaja à Argentina para enfrentar o San Lorenzo na terça-feira, pela Copa Sul-Americana. Tudo resolvido, portanto. Exceto que o timing da virose, surgida exatamente horas depois do flagrante público em um bar, gerou incômodo interno na diretoria santista, segundo informações da ESPN. O staff do jogador foi acionado para justificar a ausência antes de qualquer nota ser emitida — detalhe que revela o embaraço da situação.
Também estavam programados para o treino deste domingo Gabriel Brazão, Igor Vinícius, Willian Arão e Gabigol, todos poupados do jogo contra o Bahia por opção do técnico Cuca. Nenhum deles gerou manchete por falta ao treino. Apenas Neymar havia sido fotografado em público na véspera.
Um padrão que antecede o Santos desta vez
Quem tenta minimizar o episódio recorre ao argumento de que virose é uma condição médica legítima, que pode acometer qualquer atleta sem relação com o que comeu ou bebeu horas antes. O argumento tem fundamento biológico. O problema é que ele ignora o contexto histórico do jogador. Neymar acumula um currículo de ausências e episódios disciplinares que tornaram o padrão reconhecível: em fevereiro de 2024, o Al-Hilal confirmou que o atacante participou de um torneio de pôquer em sua mansão na Arábia Saudita enquanto se recuperava de lesão no joelho esquerdo, sofrida em outubro de 2023. O clube saudita chegou a se manifestar publicamente sobre a conduta do atleta. Antes disso, no PSG, o técnico Thomas Tuchel cobrou publicamente em 2020 que Neymar precisava ser "mais profissional" em sua preparação física e postura fora de campo.
Na avaliação do SportNavo, o problema não é a feijoada nem o boteco isoladamente. O problema é que Neymar construiu ao longo de quinze anos de carreira uma relação com o futebol em que o prazer pessoal e a agenda profissional coexistem em tensão permanente — e quando a tensão aparece, a agenda profissional costuma sair perdendo.
O desgaste com a torcida santista tem endereço e data
A torcida do Santos vivencia uma relação ambígua com Neymar desde o retorno do jogador em janeiro de 2025. A expectativa inicial era a de que o ídolo histórico ajudasse o clube a escapar de uma crise institucional e esportiva grave. O Peixe foi rebaixado para a Série B em 2023 e voltou à elite em 2024, mas segue em situação precária na tabela. Com 14 pontos em 17 rodadas disputadas do Brasileirão, o time ocupa a 17ª posição — e o retorno de Neymar ainda não se traduziu nos resultados que justificariam o investimento financeiro e o capital político empregado na contratação.
A ausência de Neymar no jogo contra o Bahia, no sábado, foi uma decisão de Cuca, não uma punição. O técnico optou por poupar o atleta em função do calendário. Mas foi exatamente nessa folga que o flagrante aconteceu — e o Santos entrou na zona de rebaixamento justamente no domingo em que o astro não apareceu para treinar. A coincidência de datas não escapa à percepção de quem acompanha o clube.

O que está em jogo na terça-feira em Buenos Aires
O levantamento do SportNavo aponta que o Santos enfrenta o San Lorenzo pela Copa Sul-Americana na próxima terça-feira, e Neymar está confirmado na viagem para a Argentina. O clube afirmou que o atleta reagiu bem ao tratamento e estará disponível. Se jogar e tiver boa atuação, o episódio será rapidamente esquecido — a memória esportiva brasileira é seletiva com quem performa. Se for poupado novamente ou render abaixo do esperado, a sequência boteco-virose-ausência voltará à pauta com mais força. O Santos não tem margem para distrações: 14 pontos na 17ª posição significa que cada rodada do Brasileirão a partir de agora é uma disputa direta pela permanência na Série A.








