Três coisas: posição, experiência e resultado. Ibañez nunca foi lateral-direito em nenhum clube da carreira, a estreia do Brasil na Copa do Mundo foi contra uma seleção marroquina organizada e perigosa, e o placar ficou em 1 a 1. Tudo se explica daí.
O que Felipe Melo viu que o banco técnico preferiu ignorar
A crítica de Felipe Melo não foi genérica. O ex-volante e atual comentarista foi cirúrgico ao identificar o ponto de ruptura da escalação de Carlo Ancelotti: colocar Roger Ibañez como titular na lateral-direita em uma partida de Copa do Mundo, contra o Marrocos, que chegou à semifinal do torneio em 2022 e mantém boa parte daquele elenco maduro.
"Ancelotti é um dos maiores da história, mas não pode passar pano. Começou com 11 iniciais equivocados, Ibañez não podia começar como titular. Sai e melhora muito. É muito bom jogador, mas não é lateral. O primeiro jogo de lateral e colocar como zagueiro", afirmou Melo.
A declaração tem peso técnico real. Ibañez, que defende o Al-Qadsiah na Arábia Saudita, construiu toda a sua carreira como zagueiro central — passou por Roma, Bayer Leverkusen e Atalanta sempre nessa função. Pedir que ele opere como lateral-direito em um jogo de Copa do Mundo, sem nenhuma rodagem prévia na posição, foi uma aposta que Ancelotti perdeu antes do apito inicial.
Marrocos foi melhor e Vinicius Jr. salvou o que restava
Reparemos no detalhe: o único momento em que o Brasil pareceu uma seleção de Copa foi quando Vinícius Júnior decidiu individualmente. O gol do empate, anotado pelo camisa 7 do Real Madrid, foi a diferença entre um empate constrangedor e uma derrota que poderia ter complicado de vez a situação do grupo. Melo reconheceu o mérito do atacante, mas não deixou o coletivo escapar ileso.
"Vinicius Jr. fez total diferença, agora o coletivo... Marrocos foi muito melhor, até a organização defensiva, que tanto se falava da seleção brasileira, principalmente no jogo contra o Egito, hoje não se viu. Tem que melhorar", disse o comentarista.
Os números do jogo reforçam a percepção. O Marrocos pressionou com consistência, criou mais situações de perigo e demonstrou coesão defensiva que o Brasil simplesmente não apresentou. Bilal El Khannouss e, sobretudo, o jovem Bouaddi — meio-campista de apenas 18 anos — ditaram o ritmo no setor central do campo, exatamente onde o Brasil deveria ter dominado. Melo usou o desempenho de Bouaddi para desmontar o argumento da ansiedade da estreia: se um adolescente de 18 anos jogou sem travar, por que os titulares brasileiros não conseguiram?
A teimosia tática de Ancelotti e o efeito cascata no grupo
O problema de escalar Ibañez na lateral vai além de um erro pontual de escalação. Ele revela um padrão que já apareceu em outras decisões de Ancelotti ao longo da temporada 2025/2026 — a preferência por perfis de jogadores que ele conhece bem, mesmo quando a função exigida é diferente daquela em que eles brilham. No Real Madrid, o italiano já utilizou Tchouaméni improvisado em diferentes posições com resultados mistos. Com a Seleção Brasileira, a margem para experimentos é infinitamente menor: são sete jogos para chegar ao título, e cada ponto desperdiçado tem peso de eliminação.
O efeito cascata do 1 a 1 com Marrocos é imediato. O Brasil divide a liderança do grupo com os marroquinos, ambos com um ponto, e o saldo de gols já se torna uma variável relevante. Melo foi direto sobre o risco que isso representa:
"O empate está de ótimo tamanho para a seleção brasileira. Para um torcedor como eu, que esperava muito mais, o Brasil muito abaixo e precisa melhorar muito não para ganhar do Haiti, que é obrigação, mas já na próxima fase. Tem que fazer muito mais, se não corre risco."
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da fase preparatória, Ancelotti optou por não testar variações táticas nos amistosos que pudessem antecipar esse tipo de problema. A ausência de um lateral-direito de referência no elenco — Danilo está fora da Copa por lesão — foi conhecida com antecedência suficiente para que alternativas fossem trabalhadas. A escolha por Ibañez, portanto, não foi improvisação de última hora: foi uma decisão planejada que não funcionou.
O que precisa mudar antes do próximo jogo do Brasil
A Seleção Brasileira volta a campo contra o Haiti, adversário que, objetivamente, representa a menor resistência do grupo. Mas o jogo contra os haitianos não pode ser tratado apenas como obrigação aritmética — precisa ser o momento em que Ancelotti corrige a estrutura tática e experimenta soluções reais para a lateral-direita, seja com um jogador de origem ou com uma reorganização que não exponha o flanco de forma tão evidente quanto aconteceu diante de Marrocos.
Luis Henrique, que entrou no segundo tempo e foi um dos pontos positivos do banco, deu uma entrevista pós-jogo que Melo criticou abertamente, considerando que o atacante subestimou a qualidade do adversário ao usar a ansiedade como justificativa coletiva. A cobrança é legítima: o Marrocos não é um time que surpreende mais ninguém. É uma seleção consolidada, com jogadores atuando nas principais ligas europeias, e que provou em 2022 que pode eliminar qualquer um.
O Brasil joga contra o Haiti e, dependendo do resultado do outro jogo do grupo, pode já definir a classificação para as oitavas de final. Mas a classificação, nesse estágio, é o mínimo. Ancelotti precisa mostrar que a escalação contra Marrocos foi um erro reconhecido, não uma convicção mantida. É o mesmo cenário que a Seleção Brasileira viveu na Copa de 2014, quando Luiz Felipe Scolari insistiu em escolhas táticas questionadas pela imprensa e pela torcida até que o time desmoronou — só que agora a aposta é em um técnico com cinco Champions Leagues no currículo, e a expectativa é que a correção venha antes, não depois do precipício.








