Um bisturi de precisão cirúrgica guardado na gaveta enquanto o paciente sangra. Essa é a imagem que ficou do Hard Rock Stadium, em Miami, na tarde desta segunda-feira, 15 de junho, depois que o Uruguai empatou em 1 a 1 com a Arábia Saudita pela estreia do Grupo H da Copa do Mundo de 2026.

A metáfora faz sentido quando os números chegam: 27 finalizações, 10 no alvo, 67% de posse de bola, conforme registrado pelo SportNavo com base nos dados divulgados ao fim da partida. Uma superioridade que, traduzida em quilômetros, seria a distância entre Recife e Fortaleza — absurda no mapa, invisível no placar final. O Uruguai teve tudo para vencer e saiu sem a vitória.

O vestiário sem seu metrônomo e o primeiro tempo que ninguém esperava 27 finaliz
O vestiário sem seu metrônomo e o primeiro tempo que ninguém esperava 27 finaliz

O vestiário sem seu metrônomo e o primeiro tempo que ninguém esperava

Giorgian de Arrascaeta, meia do Flamengo, chegou à Copa do Mundo de 2026 como um dos principais articuladores da Celeste. Mas uma lesão o tirou da estreia, deixando Bielsa sem o jogador que, na Copa do Mundo de 2022, foi o único uruguaio a marcar dois gols em uma única partida — os dois tentos contra Gana, no dia 2 de dezembro daquele ano, em Al Wakrah. A ausência não é um detalhe: Arrascaeta é o jogador que conecta o meio-campo ao ataque, que encontra o espaço entre linhas onde a maioria dos meias não enxerga sequer uma fresta.

Sem ele, o Uruguai começou controlando a bola, mas sem consequência. Maxi Araújo criou a primeira chance real, obrigando o goleiro saudita Al-Owais a trabalhar nos minutos iniciais. Depois, a equipe de Bielsa perdeu ritmo e cadência. Darwin Núñez, que em seus melhores momentos pelo Liverpool marcou 18 gols na Premier League na temporada 2022/2023, teve atuação discreta e pouco participou das jogadas decisivas. Aos 38 minutos do primeiro tempo, Al-Juwayr cobrou escanteio, Kanno cabeceou, Fernando Muslera defendeu — mas no rebote, Al-Amri estava bem posicionado e fez 1 a 0. Bola parada, falha de organização defensiva, gol de uma seleção que mal tocou na bola.

"Era um rival que deveríamos ter superado. Concedemos minutos no primeiro tempo que não indicam que fizemos as coisas bem. Tínhamos que ganhar nossa partida", afirmou Marcelo Bielsa ao fim da partida, olhando para baixo enquanto respondia à repórter da Fifa — postura já conhecida do treinador argentino.

O segundo tempo e o banco de reservas que Bielsa demorou demais para abrir

No intervalo, Bielsa agiu. Tirou Viña e Darwin Núñez, colocou Sanabria e Canobbio. A mudança funcionou: o Uruguai ganhou presença pelas laterais, aumentou o volume com cruzamentos e escanteios consecutivos, e passou a martelar a defesa saudita. Aos 34 minutos do segundo tempo, Viñas cabeceou forte, Al-Owais falhou no rebote e Maxi Araújo empurrou para as redes: 1 a 1. A reação existiu. O que faltou foi tempo — e uma decisão anterior.

De la Cruz, meia do Flamengo, entrou apenas nos minutos finais e, mesmo com pouco tempo, mostrou precisão e mobilidade com a bola. A reação dos torcedores uruguaios nas redes sociais foi imediata e contundente. Um dos comentários mais compartilhados dizia: "A única coisa que Bielsa melhorou é que ele não fica gritando na linha lateral deixando os jogadores nervosos. Inexplicável que De la Cruz não tenha jogado desde antes." Outro torcedor foi mais direto: "De La Cruz nunca pode ser reserva, Bielsa gaga." A análise mais equilibrada reconhecia os limites físicos do jogador — "fica a dúvida se fisicamente aguenta mais minutos" — mas concluía que os minutos que jogou foram "muito positivos".

Fede Valverde, capitão e meia do Real Madrid, tentou contextualizar o desempenho irregular da equipe sem poupar autocrítica:

"No primeiro tempo acredito que sentimos um pouco os nervos, a ansiedade de sempre. Na segunda parte merecíamos mais e mostramos mais nosso jogo e o que queria o treinador. Como capitão estou muito feliz pelo trabalho de todos os companheiros", disse Valverde após o apito final.

Valverde, que chegou a acertar um chute forte nos minutos finais — defendido por Al-Owais em grande intervenção —, foi um dos poucos que manteve nível elevado durante os 90 minutos. Ugarte acertou o travessão. Viñas desperdiçou oportunidades claras antes do gol. O Uruguai criou, mas não finalizou com eficiência: das 27 tentativas, apenas 10 foram no alvo, índice de conversão insuficiente para qualquer adversário minimamente organizado defensivamente.

O peso histórico de uma estreia ruim e o que Bielsa precisa decidir antes de 21 de junho

A história da seleção uruguaia nas Copas do Mundo é construída sobre uma lógica de resiliência que começou em 1950, quando a Celeste venceu o Brasil por 2 a 1 no Maracanã e conquistou o título. Desde então, o Uruguai foi semifinalista em 1954, 1970 e 2010 — nessa última edição, eliminando Gana nas quartas de final com dois gols de Diego Forlán e Luís Suárez. Em 2011, conquistou a Copa América. Mas desde o ciclo de Oscar Tabárez, que durou de 2006 a 2021, a seleção não encontrou regularidade suficiente para superar os estágios intermediários das grandes competições.

O segundo tempo e o banco de reservas que Bielsa demorou demais para abrir 27 fi
O segundo tempo e o banco de reservas que Bielsa demorou demais para abrir 27 fi

Bielsa assumiu o cargo com a missão de modernizar o estilo de jogo sem abandonar a raça que caracteriza o futebol uruguaio. O sistema de posse propositiva que o treinador argentino prega — e que encantou figuras como Pep Guardiola e Marcelo Gallardo — funcionou em partes contra a Arábia Saudita: o Uruguai dominou, mas não converteu. A questão tática que fica é direta: com Arrascaeta ainda em recuperação e De la Cruz demonstrando qualidade mesmo com minutagem reduzida, qual é a razão objetiva para não escalar o meia do Flamengo como titular na segunda rodada?

Perguntado se foram suas substituições que mudaram a partida no segundo tempo, Bielsa respondeu com uma evasiva que diz mais do que qualquer admissão direta:

"A partida mudou, mas não sei se mudou pelas substituições ou por outros motivos", disse o técnico argentino.

Essa ambiguidade, vinda de um treinador que costuma ser didático e analítico em suas coletivas, soa como resistência a reconhecer o óbvio. O Grupo H fechou a primeira rodada com todos os quatro times empatados: Uruguai e Arábia Saudita com 1 ponto cada, Espanha e Cabo Verde sem gols após 0 a 0. O equilíbrio da chave significa que qualquer tropeço pode ser fatal. No próximo sábado, 21 de junho, o Uruguai enfrenta Cabo Verde — adversário acessível no papel, mas que já provou ter organização defensiva ao segurar a Espanha. Uma derrota ou novo empate pode complicar severamente a classificação da Celeste. Em 21 de junho saberemos se Bielsa aprendeu a lição do Hard Rock Stadium ou se a teimosia falará mais alto do que os 27 finalizações que não bastaram.