Quando Ronaldo tinha 17 anos, já era titular do Cruzeiro e artilheiro do Campeonato Brasileiro de 1993. Aos 19, estava na Copa de 1994, nos Estados Unidos — mas ficou fora dos onze iniciais de todas as partidas. Ganhou o título como passageiro. Só em 1998, aos 21, virou protagonista. E em 2002, aos 25, se tornou eterno. Esse percurso não é anedota: é o mapa que Ronaldo Fenômeno usou, nesta segunda-feira (15), para contextualizar a situação de Endrick na Copa do Mundo de 2026.

A terceira opção que ganhou um gol e a internet

Ronaldo foi convidado do Resenha da Copa, transmitido ao vivo pelo YouTube da ESPN Brasil, e não deu margem para romantismo. Quando questionado sobre a ausência de Endrick no empate por 1 a 1 contra Marrocos, na estreia do Brasil no Mundial, R9 foi cirúrgico:

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"Eu tenho certeza que ele vai ter a oportunidade. Ele vai entrar em algum momento, mas agora mesmo ele é a terceira opção no ataque. Tem Igor Thiago, tem Matheus Cunha e aí depois é ele."

Não há tragédia nisso: há contabilidade. Endrick tem 19 anos, marcou o gol da vitória do Brasil sobre o Egito no amistoso de preparação e acumula uma temporada 2025/2026 irregular no Real Madrid — onde Carlo Ancelotti, o mesmo técnico que comanda a Seleção, frequentemente optou por rodízio e experiência no ataque. O jovem balançou as redes 8 vezes pelo clube espanhol em todas as competições, mas raramente foi titular. A hierarquia que R9 descreveu não é arbitrária: é o reflexo direto do que acontece dentro de campo semana após semana.

Matheus Cunha, do Manchester United, vive o melhor momento da carreira — 27 gols e 9 assistências na temporada pelo clube inglês. Igor Thiago, que atua na Premier League pelo Brentford, foi artilheiro da competição em determinado período da temporada. Endrick, por mais que o apelo popular seja real e crescente — ele ganhou 600 mil seguidores no Instagram sem jogar um minuto na Copa —, ainda não entrega consistência de 90 minutos em alto nível europeu.

O que separa Endrick de 1994 e o que aproxima de 2002

A comparação com Ronaldo Fenômeno jovem é tentadora, mas exige precisão. Em 1994, Ronaldo foi convocado por Carlos Alberto Parreira como quarta opção no ataque, atrás de Romário, Bebeto e Mazinho. Não entrou em nenhum jogo. Em 1998, na França, foi titular e artilheiro da Seleção com quatro gols — mas viveu o colapso misterioso na véspera da final contra a França, derrota por 3 a 0. Só em 2002, na Coreia e Japão, com 25 anos, dois gols na final contra a Alemanha e o pentacampeonato no pescoço, a narrativa se fechou com perfeição.

Endrick tem 19 anos e está na Copa do Mundo. Isso já o coloca em território de exceção. Mas a diferença em relação ao Ronaldo de 1994 é estrutural: R9 chegou àquela Copa com o Campeonato Brasileiro na bagagem e uma clareza técnica que impressionava treinadores experientes. Endrick chega com potencial enorme e uma temporada no Real Madrid que ainda não decolou completamente. O próprio Ronaldo reconheceu isso sem rodeios ao comentar o jogo contra Marrocos:

"Ele está pronto, esquece, ele está pronto. Ele está competindo ali com outros grandes jogadores. Bate com Matheus Cunha no Manchester United, o Igor Thiago na Inglaterra foi artilheiro, mas estamos bem servidos agora."

O diagnóstico de R9 tem duas camadas. A primeira é a confirmação de que Endrick tem qualidade para estar no grupo — e que a Seleção está bem servida no setor. A segunda é a sinalização de que essa Copa pode ser, para o jovem, o que 1994 foi para Ronaldo: uma escola, não um palco.

Ancelotti, a substituição e a janela que se abrirá contra o Haiti

Ronaldo também revelou um detalhe tático que pesou na decisão de Ancelotti de não colocar Endrick no jogo contra Marrocos. Segundo R9, a substituição de Bruno Guimarães, que pediu para sair por lesão, alterou o planejamento do técnico italiano. Com a mudança forçada no meio-campo, Ancelotti precisou reorganizar o time sem consumir a carta do jovem atacante. A lógica, portanto, não foi ignorar Endrick — foi gerenciar recursos numa partida que ficou equilibrada e com pouco espaço.

O próximo jogo do Brasil é contra o Haiti, na sexta-feira (19), às 21h30 (horário de Brasília), com transmissão da CazéTV disponível no Disney+. Esse é o cenário mais provável para Endrick ganhar minutos — ou até uma titularidade. Ronaldo foi claro sobre a importância da partida para além da vitória simples:

"Acho que esse próximo jogo vai ser importante para todo mundo ganhar confiança. Logicamente, a vitória é muito importante, mas o saldo de gols vai ser importante nesse jogo para o primeiro lugar, isso vai decidir o primeiro lugar do grupo."

Com o Brasil precisando de uma vitória expressiva para disputar a liderança do grupo, o espaço para Endrick se apresentar é real. O Haiti não tem o mesmo nível defensivo de Marrocos, que eliminou a Espanha na Copa de 2022 e chegou às semifinais. Se Ancelotti quiser construir um saldo de gols favorável e ao mesmo tempo dar ritmo de jogo ao jovem atacante, a conta fecha. Endrick precisa responder dentro de campo ao que Ronaldo disse fora dele — que ele está pronto. Está pronto — falta o palco.