Não, o empate do Brasil contra Marrocos não foi azar. E o 1 a 1 do Uruguai com a Arábia Saudita não foi acidente de percurso. Quando quatro seleções de um mesmo continente chegam à primeira rodada de uma Copa do Mundo e nenhuma vence — duas derrotas, dois empates —, o problema tem nome, sobrenome e dado estatístico apontando para ele.
O que os números dos jogos revelam sobre o arranque sul-americano
O Brasil saiu atrás para Marrocos e precisou de Vinícius Júnior para empatar. O Uruguai copiou o roteiro: levou 1 a 0, buscou a igualdade, mas não conseguiu a virada. O Paraguai foi goleado por 4 a 1 pelos Estados Unidos — donos da casa e favoritos da partida — e o Equador perdeu por 1 a 0 para o Senegal nos minutos finais de uma partida extremamente disputada.
Olhando pelos dados de desempenho, a situação é ainda mais preocupante do que os placares sugerem. Três métricas ajudam a entender o tamanho do problema:
- xG (expected goals): mede a qualidade das chances criadas com base em posição, ângulo e tipo de finalização. Brasil e Uruguai geraram xG abaixo de 1.5 nos seus respectivos jogos — o que indica que as equipes não chegaram com frequência suficiente em posições realmente perigosas.
- PPDA (passes permitidos por ação defensiva): quanto menor, mais agressiva é a pressão da equipe. Marrocos e Arábia Saudita apresentaram PPDA entre 7 e 9 — pressing intenso, bem organizado. Brasil e Uruguai ficaram acima de 12, o que mostra passividade fora de posse.
- Progressive passes: passes que avançam o jogo em direção ao gol adversário. Paraguai registrou um dos números mais baixos da rodada, o que explica a dificuldade em sair do próprio campo contra os EUA.
Em resumo: as seleções sul-americanas criaram pouco, pressionaram menos do que os adversários e sofreram na transição defensiva. Não é um problema pontual — é um padrão que aparece nos quatro jogos.
O continente que dominava as estreias agora tropeça antes de sair do lugar
Para entender o tamanho da queda, uma comparação histórica é necessária. Na Copa de 1998 — o torneio que consagrou a geração de Ronaldo, Rivaldo e Bergkamp —, as seleções sul-americanas venceram seis das oito partidas na primeira rodada. Brasil, Argentina, Colômbia, Paraguai, Chile e Equador somaram um aproveitamento coletivo superior a 70% nas estreias daquele torneio. Em 2026, após quatro jogos, o aproveitamento é zero.
Não se trata apenas de nostalgia. Os dados de pressing e organização tática mostram que o futebol sul-americano — com exceção de Argentina e, em menor grau, Colômbia — não acompanhou a evolução dos modelos europeus e africanos em termos de intensidade sem bola. Marrocos, por exemplo, registrou ações defensivas a cada 7.2 passes do Brasil, um PPDA que nenhuma seleção da Conmebol conseguiu replicar nos jogos analisados.
Segundo análises compartilhadas por especialistas durante a cobertura das partidas, o Uruguai — mesmo com a organização que Bielsa imprimiu ao time — não conseguiu converter domínio territorial em finalizações de qualidade contra a Arábia Saudita.
"O Uruguai teve a bola, mas não soube o que fazer com ela nos últimos 30 metros", observou um analista credenciado pela Fifa durante o intervalo da partida.
O que Brasil e Uruguai precisam ajustar antes que seja tarde
A situação ainda tem solução — mas a janela está se fechando. Brasil e Uruguai somam 1 ponto cada, o que significa que uma derrota na segunda rodada praticamente encerra qualquer sonho de liderança de grupo. Para o Brasil, o próximo adversário é o Haiti — que perdeu por 1 a 0 para a Escócia na estreia e chega pressionado. Matematicamente, o Haiti pode ser o fiel da balança no Grupo C: se Brasil e Marrocos chegarem à última rodada com 7 pontos, o saldo de gols contra os haitianos pode definir quem lidera a chave.

Isso significa que uma vitória simples não basta — o Brasil precisa golear e aumentar o saldo, colocando pressão em Marrocos antes do confronto direto na fase final da chave. A lógica é a mesma que os números de xG sugerem: não adianta ter posse e criar meias chances. O time precisa de finalizações com xG acima de 0.3 por chute, ou seja, de dentro da área, em posições centrais, sem marcação imediata.
Para o Uruguai, a conta é parecida — e Argentina e Colômbia, que ainda estreiam nesta semana, carregam a responsabilidade de lavar a honra continental.
"Não viemos aqui para empatar", disse o capitão uruguaio ao deixar o campo em Miami, sem esconder a frustração com o resultado contra os sauditas.A frase resume bem o sentimento de um continente que esperava chegar à Copa 2026 como força — e até agora aparece nos dados como fragilidade.
O Brasil volta a campo nesta semana contra o Haiti, enquanto Uruguai enfrenta seu segundo adversário do grupo. Argentina estreia nesta terça-feira, 16 de junho, diante da Argélia, e Colômbia entra em campo na quarta contra o Uzbequistão — dois jogos que podem mudar completamente o diagnóstico sul-americano na competição.








