Duas decisões tomadas esta semana em Vancouver podem redesenhar a disciplina do futebol mundial. A Ifab (International Football Association Board) convocou reunião extraordinária para discutir a chamada 'Lei Vini Jr.', que autoriza árbitros a expulsar jogadores que cobrirem a boca para proferir ofensas em campo. Paralelamente, o Conselho da Fifa debate uma alteração inédita no regulamento da Copa do Mundo: zerar os cartões amarelos em dois momentos do torneio — após a fase de grupos e depois das quartas de final.

O gatilho do caso Prestianni e a regra de campo

O episódio que motivou a convocação extraordinária ocorreu em fevereiro, no Estádio da Luz, em Lisboa. O argentino Gianluca Prestianni, do Benfica, foi flagrado tampando a boca com a camisa antes de dirigir palavras a Vinicius Júnior, do Real Madrid, após um gol do brasileiro nos playoffs da Champions League. Vini Jr. acusou imediatamente o adversário de tê-lo chamado de 'mono' — macaco, em espanhol. Na semana passada, a Uefa aplicou seis jogos de suspensão a Prestianni por 'conduta discriminatória'.

A proposta que tramita na Ifab estabelece o gesto de cobrir a boca como indício suficiente para justificar a expulsão direta. Do ponto de vista tático, isso cria um controle comportamental sistêmico: o árbitro passa a ter respaldo regulamentar para agir em situações hoje enquadradas na zona cinzenta da conduta antiesportiva. A tendência apontada pela própria Ifab é de aprovação. Segundo a entidade, a medida poderia entrar em vigor a tempo de ser aplicada já na Copa do Mundo de 2026.

A mecânica de zerar cartões e o impacto na competitividade

O regulamento atual da Copa do Mundo suspende automaticamente o jogador que acumular dois cartões amarelos no torneio. A edição de 2026 terá 48 seleções e, com isso, a fase de grupos passa a ter três rodadas em vez de duas, elevando o número mínimo de partidas de sete para oito jogos até a final.

A proposta da Fifa prevê duas janelas de anistia:

  1. Após a fase de grupos — cartões acumulados nas três rodadas iniciais são zerados antes dos playoffs de 32 ou oitavas de final.
  2. Após as quartas de final — nova zeragem antes das semifinais.

O regulamento vigente já previa uma anistia após as quartas. A novidade é a inclusão do primeiro corte, logo após a fase de grupos. Na análise do SportNavo, essa mudança reduz a probabilidade de um jogador-chave ser suspenso por advertências acumuladas em jogos de menor pressão competitiva — partidas em que equipes já classificadas frequentemente rotacionam o elenco e expõem reservas a contextos de maior agitação em campo.

Favoráveis e contrários têm argumentos técnicos sólidos

Quem apoia a medida sustenta que o aumento no número de jogos eleva estatisticamente a chance de uma suspensão por acúmulo afastar figuras decisivas de partidas de mata-mata, distorcendo o nível competitivo do torneio. Um atacante que recebe amarelo por reclamação em dois jogos da fase de grupos poderia, sob as regras atuais, iniciar as oitavas com uma advertência já contabilizada — situação que a anistia eliminaria.

O gatilho do caso Prestianni e a regra de campo Fifa debate zerar cartões na Cop
O gatilho do caso Prestianni e a regra de campo Fifa debate zerar cartões na Cop

Os críticos, por outro lado, apontam que a zeragem reduz o peso disciplinar do cartão amarelo como instrumento de controle. Com a perspectiva de anistia garantida, o cálculo tático de levar advertências intencionais — para travar transições ofensivas adversárias ou quebrar linhas de pressão bem montadas — se torna menos arriscado para o infrator. Treinadores que trabalham com compactação defensiva e aceitam falta estratégica no campo médio saem favorecidos.

Conforme apuração do SportNavo, entidades de arbitragem consultadas nos bastidores de Vancouver demonstraram preocupação com o sinal que a medida pode passar sobre a tolerância ao comportamento antiesportivo nas fases iniciais do torneio.

O que muda concretamente para a Copa de 2026

A Copa do Mundo de 2026 será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, com início previsto para junho. Para que as mudanças discutidas esta semana em Vancouver sejam incorporadas ao regulamento do torneio, a Fifa precisa formalizar a deliberação de seu Conselho e a Ifab precisa registrar a alteração nas Leis do Jogo antes da data de entrada em vigor.

Com 48 seleções e 104 partidas programadas — ante as 64 das últimas edições —, o torneio oferece um volume inédito de dados para avaliar o impacto da anistia de cartões. A fase de grupos, por si só, será a maior janela amostral já registrada em uma Copa, com 72 jogos distribuídos em 12 grupos de quatro equipes. Se aprovada, a zeragem após essa fase será testada pela primeira vez justamente na edição de maior escala da história do Mundial.