Diz-se que a Copa do Mundo é o torneio mais organizado do planeta — o evento que a Fifa passa quatro anos polindo até o último detalhe. Na tarde desta segunda-feira de véspera, porém, uma planilha com documentos de voo mal validados deixou a seleção do Uruguai estacionada no asfalto de Cancún, olhando pela janela do avião para uma pista que simplesmente não liberava a decolagem.

O avião que não saiu do chão em Cancún

O calor úmido da Riviera Maya ainda colava na pele dos jogadores uruguaios quando o relógio passou das 15h (horário de Brasília) e nada acontecia. A aeronave fretada — contratada para o trecho Cancún–Miami — permanecia parada. O motivo, confirmado pela própria Associação Uruguaia de Futebol (AUF) em comunicado oficial, era desconcertante: um erro na validação dos documentos de voo cometido pela Fifa, entidade responsável por toda a logística de deslocamento das delegações na Copa do Mundo de 2026.

Segundo informações publicadas inicialmente pelo jornal uruguaio Ovación, a nova janela de decolagem foi remarcada para as 18h15. Com o voo entre o México e a Flórida levando cerca de uma hora e meia, a chegada em solo norte-americano foi empurrada para o início da noite — horas que, na véspera de uma estreia em Mundial, valem ouro.

Dentro do avião parado, o silêncio devia pesar. Marcelo Bielsa — treinador que cronometra cada minuto de preparação com precisão quase obsessiva — via seu cronograma desmoronar por culpa de um carimbo que não saiu a tempo.

O protocolo da Fifa que virou obstáculo

O atraso não foi apenas um inconveniente de logística. Ele derrubou em cascata uma série de obrigações protocolares que a própria Fifa impõe às seleções na véspera dos jogos. Bielsa e o zagueiro José María Giménez estavam escalados para a coletiva de imprensa oficial no Hard Rock Stadium, em Miami, às 19h45 (horário de Brasília). Com o novo horário de pouso, a AUF informou que os compromissos de mídia precisariam ser reorganizados em conjunto com os oficiais da entidade.

Há uma ironia pesada aqui — é a Fifa que exige o cumprimento do protocolo de entrevistas e, ao mesmo tempo, foi a Fifa que inviabilizou o cumprimento desse mesmo protocolo. A federação uruguaia não escondeu o constrangimento, mas manteve o tom diplomático no comunicado, limitando-se a confirmar o atraso e anunciar as tratativas para readequar a agenda.

"A decolagem foi remarcada para as 18h15", informou a AUF em nota oficial, reconhecendo que os horários das entrevistas precisariam ser reorganizados com os oficiais da Fifa.

Bielsa e uma preparação que já vinha no limite

O episódio ganha contornos mais dramáticos quando se observa o contexto da preparação uruguaia. Diferente de outras seleções que disputaram amistosos nesta última Data Fifa, Bielsa optou por um regime de concentração fechado em Playa del Carmen, no México — treinos táticos intensos, sem jogos-teste, sem exposição pública. Uma escolha deliberada de quem quer controlar cada variável antes da estreia.

O técnico argentino — conhecido por deixar suas equipes no limite físico e mental durante a preparação — construiu uma bolha de controle absoluto no Caribe mexicano. A burocracia da Fifa furou essa bolha de forma banal e humilhante.

A chegada tardia a Miami também compromete algo que qualquer preparador físico listaria como prioritário na véspera de uma partida: a adaptação ao fuso horário local, o sono regulado, a rotina de ativação muscular no campo de treino do estádio. Cada hora perdida no asfalto de Cancún é uma hora a menos de recuperação.

"Bielsa optou por uma preparação mais reservada no México, focando exclusivamente em intensas sessões de treinamento tático e físico", conforme relatado pelo Ovación, o que torna o contratempo ainda mais sensível dentro do planejamento da comissão técnica.

Arábia Saudita espera — e o Grupo H não perdoa erros de largada

O Uruguai estreia nesta segunda-feira (15), às 19h (horário de Brasília), contra a Arábia Saudita, no Hard Rock Stadium. A partida é válida pelo Grupo H — considerado um dos mais imprevisíveis da primeira fase, com a favorita Espanha e Cabo Verde completando o quarteto.

Para uma seleção que chega à sua 15ª Copa do Mundo carregando o peso de duas taças mundiais (1930 e 1950) e a ambição declarada do tricampeonato, tropeçar no primeiro jogo seria catastrófico. A Arábia Saudita — mesma seleção que derrubou a Argentina de Messi na fase de grupos do Qatar — não é adversário para ser subestimado, especialmente por uma equipe que chegou ao estádio desgastada por horas de espera num aeroporto.

O zagueiro Giménez, que deveria estar numa sala de imprensa respondendo perguntas com a serenidade de quem já viveu Copas, passou parte da tarde resolvendo imprevisto burocrático. Bielsa, que nunca foi de esconder a irritação quando os planos desandam, certamente não dormiu tranquilo após esse domingo.

A Celeste embarca para Miami com a cabeça forçada a lidar com o que não controlou — e com menos tempo do que o planejado para focar no que realmente importa: a Arábia Saudita, às 19h desta segunda-feira, num Hard Rock Stadium que vai estar lotado. O voo pousou. O relógio não parou.