A Fifa se reúne nesta terça-feira, 28 de janeiro, em Vancouver, no Canadá, para votar uma das alterações regulamentares mais significativas já discutidas em Copas do Mundo: zerar os cartões amarelos acumulados ao fim da fase de grupos e novamente após as quartas de final. A proposta, revelada pela BBC e confirmada pelo Estadão, surge diretamente da ampliação do torneio para 48 seleções — formato que insere uma rodada extra de 16 avos de final entre a fase de grupos e as oitavas, tornando o caminho até a taça mais longo e mais susceptível a punições acumuladas.

Uma rodada a mais que muda tudo

Nas sete edições disputadas entre 1998 e 2022, sob o formato de 32 seleções, o torneio seguia uma estrutura de seis fases a partir das oitavas: oitavas, quartas, semifinal, terceiro lugar e final. Em 2026, com 48 países, serão sete fases, incluindo os 16 avos. Pela regra vigente, o jogador que acumular dois cartões amarelos antes das quartas de final cumpre suspensão automática na partida seguinte. Com a inserção dos 16 avos, um atleta que receber dois amarelos nessa nova fase seria barrado nas oitavas — round que, historicamente, já eliminou seleções como Espanha em 2002 (derrota para a Coreia do Sul) e Argentina em 2002 (eliminação para a Inglaterra). A lógica do risco muda substancialmente.

Segundo apuração do SportNavo com base nas informações da BBC, a Fifa avalia que aumentar o limite de suspensão de dois para três amarelos seria menos eficiente do que simplesmente zerar a contagem em momentos estratégicos do torneio. Um dos cenários estudados prevê que o jogador seja suspenso apenas se acumular dois amarelos dentro de um mesmo bloco de partidas — por exemplo, dois dos três jogos da fase de grupos, ou dois dos jogos que compõem os 16 avos, as oitavas e as quartas, tratadas como um segundo bloco eliminatório.

O peso histórico das suspensões em Copas

A história das Copas do Mundo está marcada por desfalques provocados por cartões amarelos em momentos decisivos. Em 1990, na Itália, a Alemanha Ocidental venceu o Mundial com Franz Beckenbauer no banco como técnico — mas naquela mesma edição, o lateral brasileiro Branco cumpriu suspensão por acúmulo de cartões antes das semifinais. Na Copa de 2010, na África do Sul, o Brasil perdeu para a Holanda nas quartas sem Felipe Melo em campo após expulsão — caso diferente, mas ilustrativo da fragilidade que punições impõem em momentos cruciais. Em 2018, na Rússia, a Alemanha, então campeã em exercício, caiu ainda na fase de grupos acumulando desgastes táticos e disciplinares ao longo de apenas três jogos.

Uma análise histórica das suspensões por amarelos revela que seleções com elencos mais curtos — geralmente africanas e asiáticas — são as mais prejudicadas. Nigéria, em 1998, e Senegal, em 2002 (quando chegou às quartas com Aliou Cissé como capitão, atual técnico da equipe), precisaram reorganizar escalações inteiras por conta de suspensões. A regra atual pune desproporcionalmente equipes com menor profundidade de banco.

Quem ganha e quem perde com a mudança

A reformulação favorece, sobretudo, seleções com poucos jogadores de alto nível para substituições diretas. Uma equipe como a da Costa Rica, que em 2014 chegou às quartas com Bryan Ruiz como principal referência ofensiva, não poderia se dar ao luxo de perder seu camisa 10 por suspensão em uma oitava de final. O mesmo raciocínio aplica-se a países africanos e asiáticos que, pela primeira vez desde 2006 (quando 32 países já participavam), terão representação ampliada no Mundial.

Para as grandes potências, o impacto é diferente. A Seleção Brasileira, por exemplo, contou com 26 convocados nas últimas edições e tem profundidade suficiente em todas as posições. O mesmo vale para a França, campeã em 2018 com um elenco de 23 jogadores em que cada titular tinha ao menos dois concorrentes diretos. Para essas nações, o zerão de amarelos representa conforto tático, mas não necessariamente uma vantagem competitiva transformadora.

"Zerar os cartões em mais fases é melhor do que aumentar para três o número limite de punições", avaliou a Fifa, segundo informações divulgadas pela BBC.

A leitura técnica da entidade é coerente com a matemática do torneio. Com 104 jogos previstos para a Copa de 2026 — contra 64 em 2022 — a probabilidade estatística de um jogador titular acumular dois amarelos ao longo de uma campanha longa aumenta consideravelmente. Histórico: em 2014, no Brasil, foram distribuídos 187 cartões amarelos em 64 partidas, média de 2,9 por jogo. Projetando esse índice para 104 jogos, chega-se a mais de 300 amarelos em toda a competição.

Decisão em Vancouver define o formato definitivo

O Conselho da Fifa, reunido nesta terça-feira em Vancouver — mesma cidade que receberá jogos da Copa de 2026 ao lado de Seattle, Los Angeles, San Francisco, Dallas, Houston, Kansas City, Nova York, Philadelphia, Boston, Miami, Guadalajara, Monterrey, Cidade do México e Toronto —, deliberará sobre o texto final da proposta. Conforme levantamento do SportNavo, ainda não há clareza sobre como exatamente o limite por fase será definido: se dois amarelos em três jogos da fase de grupos já garantem suspensão, ou se apenas o carregamento do segundo cartão dentro do mesmo bloco eliminatório ativa a punição automática. A resposta virá das deliberações desta terça, com aplicação imediata ao regulamento da Copa que começa em junho de 2026, quando os Estados Unidos, Canadá e México receberão o maior Mundial da história do futebol.