A FIFA rejeitou oficialmente o pedido inusitado do governo americano para substituir o Irã pela Itália na Copa do Mundo de 2026. A proposta partiu de Paolo Zampolli, enviado do presidente Donald Trump, sob justificativa das tensões bélicas entre Washington e Teerã, iniciadas em fevereiro com o assassinato do líder supremo Ali Khamenei.
O episódio revive memórias históricas de quando a política tentou interferir no futebol mundial. Em 1978, a Argentina sediou a Copa sob ditadura militar, enquanto Chile e Uruguai boicotaram eliminatórias em 1973 e 1974 por questões diplomáticas. Porém, desde a Era Fifa moderna iniciada com João Havelange em 1974, raramente pressões externas conseguiram alterar competições já estruturadas.
Regulamento técnico prevalece sobre diplomacia
Gianni Infantino, presidente da FIFA desde 2016, manteve posição firme defendendo critérios esportivos. O Irã conquistou classificação legítima em campo e integra o Grupo G ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Segundo regulamento fifa, eventual substituição deveria respeitar confederação de origem - no caso asiático, caberia aos Emirados Árabes Unidos, não à seleção europeia.
A situação da Itália lembra o trauma de 2018, quando a Azzurra ficou fora da Copa da Rússia pela primeira vez desde 1958. Naquela ocasião, perdeu a repescagem para Suécia por 1 a 0 no San Siro, encerrando ciclo com 56 vitórias em 67 jogos sob Gian Piero Ventura. Agora em 2025, nova decepção: derrota por 2 a 1 para Bósnia em 31 de março selou eliminação precoce.
Reação italiana surpreende pela unanimidade
O governo italiano manifestou rejeição unânime à proposta americana, surpreendendo observadores por sua postura ética. Giancarlo Giorgetti, ministro da Economia, criticou duramente a iniciativa:
"Li que o enviado de Trump quer readmitir a Itália na Copa do Mundo: acho isso vergonhoso. Eu ficaria envergonhado", declarou o chefe da pasta econômica.

Andrea Abodi, ministra dos Esportes, reforçou inviabilidade técnica e moral do pedido americano.
"Primeiro, não é possível, e segundo, não é apropriado. Não sei o que vem primeiro. A qualificação é alcançada em campo", destacou a autoridade esportiva italiana, ecoando princípios defendidos pela própria FIFA desde Estatutos de 1904.
A postura contrasta com episódios históricos quando Itália aceitou benefícios questionáveis. Em 1934, sediou e venceu Copa com arbitragem favorável sob Mussolini. Já em 2006, conquistou título mundial em meio ao escândalo Calciopoli que manchou futebol doméstico com Juventus rebaixada à Serie B.

Precedentes geopolíticos no futebol mundial
Análise do SportNavo mostra que tentativas políticas de alterar competições FIFA raramente prosperaram. África do Sul foi excluída de Copas entre 1958-1992 devido ao apartheid, mas por decisão multilateral. Iugoslávia perdeu vaga na Euro 1992 por guerra civil, substituída pela Dinamarca que se sagrou campeã europeia.
O caso iraniano difere destes precedentes. Desde classificação para Copa de 1978, seleção persa participou de seis Mundiais, estabelecendo tradição respeitável. Melhor campanha veio em 2018 na Rússia: vitória sobre Marrocos por 1 a 0 e empate com Portugal, quase alcançando oitavas de final pela primeira vez.
Trump já demonstrou interesse em usar esporte como ferramenta diplomática. Durante primeiro mandato (2017-2021), pressionou NBA sobre questões chinesas e criticou Colin Kaepernick por protestos no futebol americano. Porém, FIFA mantém autonomia estatutária desde reformas pós-escândalo de 2015, quando Sepp Blatter renunciou após prisões do FBI.
A Copa de 2026 será disputada entre Estados Unidos, Canadá e México de 11 de junho a 19 de julho. O Irã estreia contra a Bélgica no Soldier Field, em Chicago, mantendo sonho de superar fase de grupos pela primeira vez em nove participações mundialistas.








