A ilustração estava lá, bordada no tecido azul e vermelho da camisa: soldados, fumaça, o instante exato de 18 de novembro de 1803 em que o Haiti decidiu sua liberdade na Batalha de Vertières. Antes mesmo de a bola rolar na Copa do Mundo, a Fifa já havia pedido que aquela imagem sumisse do uniforme. O protagonista dessa história não é um jogador nem um técnico — é uma camisa.
O uniforme do Haiti que a Fifa não aprovou
A fornecedora Saeta, responsável pelo design do uniforme haitiano para a Copa do Mundo, divulgou um comunicado explicando que o projeto inteiro foi concebido como homenagem histórica. Segundo a marca, o objetivo era celebrar a identidade nacional e prestar tributo aos homens e mulheres que construíram o país. Nenhuma intenção política declarada.
O problema, na visão da entidade máxima do futebol, está no regulamento. O Artigo 4 do Código de Conduta da Fifa proíbe qualquer mensagem política, religiosa ou pessoal nos uniformes utilizados em competições oficiais. A Batalha de Vertières, por ser o evento fundador da nação haitiana e símbolo de resistência anticolonial, foi enquadrada nessa categoria — mesmo sendo, tecnicamente, um fato histórico do século XIX.
"O projeto foi pensado como uma homenagem à história e ao povo haitiano, para celebrar a identidade nacional e prestar tributo aos homens e mulheres que contribuíram para a construção do país." — Saeta, fornecedora oficial do Haiti
A Saeta, porém, não especificou publicamente qual elemento exato precisará ser alterado — se a ilustração da batalha, algum texto no interior da gola ou outro detalhe do design. A Fifa também não detalhou o que considerou politicamente sensível.
A bandeira que não era polonesa e a história que ninguém contou
Paralelo à polêmica oficial, uma teoria correu pelas redes sociais: a bandeira estampada na parte inferior da camisa seria uma homenagem à Polônia, em referência aos soldados poloneses que, enviados por Napoleão Bonaparte para suprimir a revolta haitiana, decidiram mudar de lado e lutar ao lado das forças de Jean-Jacques Dessalines. A história é real — e é fascinante.
A Saeta desmentiu essa leitura. O símbolo representa, na verdade, a primeira bandeira do Haiti após a independência, adotada em 1804 — não uma referência polonesa. A coincidência visual entre as duas bandeiras (faixas horizontais vermelha e branca) alimentou a teoria, mas a intenção era outra.
Aqui entra o dilema que o jornalista e escritor Ta-Nehisi Coates descreveu em Between the World and Me ao falar sobre como narrativas de resistência negra são sistematicamente recodificadas para parecerem "perigosas" por instituições que se apresentam como neutras. A Fifa, ao classificar Vertières como político, ignora que para o Haiti aquele episódio é equivalente ao D-Day para os aliados — história, não agenda.
Haiti na Copa após 52 anos e o peso de entrar em campo sem sua identidade
O Haiti retorna à Copa do Mundo depois de 52 anos de ausência — a última participação foi em 1974, na Alemanha Ocidental. Está no Grupo C, ao lado do Brasil, e enfrenta a seleção brasileira no dia 19 de junho. É, objetivamente, o jogo mais difícil do grupo para os caribenhos.
Do ponto de vista de análise de desempenho, o Haiti chegou à Copa com um estilo de jogo marcado por alta intensidade defensiva — o que se mede pelo PPDA (passes permitidos por ação defensiva): quanto menor o número, mais agressiva é a pressão. Nas Eliminatórias da Concacaf, o Haiti registrou médias de PPDA abaixo de 9 em partidas em casa, o que indica um bloco compacto que tenta recuperar a bola cedo no campo adversário.
Em termos de criação ofensiva, o xG (expected goals) do Haiti nas últimas dez partidas oficiais ficou entre 0.8 e 1.2 por jogo — números modestos, mas consistentes para uma seleção que apostou mais em transições rápidas do que em construção elaborada. A questão é se esse modelo sobrevive contra o progressive passing do Brasil, que nos últimos jogos sob Tuchel registrou média de 68 passes progressivos por partida — ações que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário.
- xG Haiti (últimos 10 jogos): média de ~1.0 por partida
- PPDA Haiti: ~8.7 em jogos em casa nas Eliminatórias
- Progressive passes Brasil: ~68 por partida nos jogos preparatórios de 2026
O que torna essa situação ainda mais simbólica é que o Haiti chega ao torneio sem poder usar no uniforme aquilo que define quem é — sua história de resistência. Como registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura preparatória da Copa, nenhuma outra seleção estreante nesta edição enfrentou contestação ao design do próprio uniforme antes da abertura.
A Saeta ainda não confirmou se vai acatar as mudanças integralmente ou negociar com a Fifa alguma solução intermediária, como reposicionar elementos ou substituir a ilustração por símbolos mais abstratos. O prazo para aprovação definitiva do uniforme encerra antes da estreia haitiana, marcada para o dia 15 de junho contra o México — quatro dias antes do duelo com o Brasil.








