Setenta e quatro minutos em campo foram suficientes para Samuele Inácio deixar uma marca. Na vitória do Borussia Dortmund sobre o Freiburg no último domingo, o meia de 18 anos estreou como titular pelos Aurinegros e protagonizou o lance que desencadeou o terceiro gol da partida — uma jogada de pressing e transição rápida que qualquer torcedor do Signal Iduna Park reconheceria como DNA do clube. O resultado também garantiu ao Dortmund a vaga na próxima Champions League via Bundesliga, contexto que deu ainda mais peso à ocasião.
Uma herança que vem do interior de São Paulo
Nascido em Bérgamo, na Itália, Samuele Inácio carrega no sobrenome a ponte mais direta com o Brasil. Seu pai, o ex-atacante Inácio Piá, saiu do interior paulista para construir uma carreira no futebol italiano, com passagens por Atalanta, Napoli e outros clubes ao longo dos anos 2000. Desse percurso, o jovem herdou algo que não se aprende em academia: a relação afetiva com a bola.
"Meu pai passou o amor pelo futebol que ele tinha para mim. Então, assistindo vídeos de Cristiano Ronaldo e Neymar, essa paixão só ficou mais forte", contou Samuele ao site da Fifa em novembro do ano passado.
Quem acompanhou a carreira de Inácio Piá na Serie A italiana entende a influência gestual que o filho absorveu — a inclinação para o drible curto, a leitura de espaços em campo reduzido. Ao mesmo tempo, a formação nas categorias de base do Dortmund lapidou o jovem com os princípios do gegenpressing que define o clube desde os tempos de Klopp. A combinação é, no mínimo, intrigante.
O que aconteceu contra o Freiburg
A estreia como titular foi a quarta aparição de Samuele pelo profissional dos Aurinegros. Ele havia debutado em fevereiro na derrota para o Bayern de Munique, com apenas 15 minutos em campo, antes de sair do banco nos confrontos contra Bayer Leverkusen e Hoffenheim. Diante do Freiburg, finalmente ganhou o starting eleven.
O lance mais emblemático de sua tarde foi o arranque pelo lado esquerdo que originou o terceiro gol: cortou para dentro, desequilibrou a marcação e inverteu para Julian Brandt, que assistiu Serhou Guirassy para finalizar. Não é crédito de gol nos livros de estatística, mas qualquer analista de data reconhece o valor de uma progressão que quebra linhas. O jovem ainda parou no goleiro em chute na pequena área e cedeu uma boa oportunidade para Jobe Bellingham desperdiçar de fora da área.
"O garoto teve uma excelente estreia hoje. Ele fez isso muito bem. Esse menino ainda vai nos dar muita alegria. É um enorme talento", elogiou o técnico Niko Kovac ao canal DAZN após a partida.
O colega Maximilian Beier foi ainda mais entusiasmado em sua avaliação, destacando uma característica que soa familiar para quem viu Neymar nos tempos de Santos ou Rodrygo emergindo no Real Madrid:
"É um garoto talentoso, com um drible absurdo. Ele só precisa fazer em campo o que quiser. Ele é tão bom que é melhor simplesmente deixá-lo jogar", disse Beier ao mesmo veículo.
Neymar, Rodrygo e Kobe Bryant no mesmo altar
A afinidade com o futebol brasileiro vai além do sobrenome. Samuele lista Neymar como seu herói dentro das quatro linhas — "ele me inspira muito, é um dos meus ídolos" — e tem Rodrygo como referência de modelo técnico e de carreira. A escolha não é casual: ambos são jogadores de corredor que transitam entre o drible individual e a criação coletiva, exatamente o perfil que o jovem tenta construir no Dortmund. Fora do futebol, sua referência é Kobe Bryant, o astro da NBA falecido em 2020, cuja mentalidade competitiva virou clichê de vestiário em todo o mundo esportivo.
A análise do SportNavo aponta que Samuele representa um arquétipo cada vez mais comum no futebol europeu: o jogador de segunda geração da imigração latino-americana, formado no rigor técnico alemão ou espanhol, mas com uma expressividade corporal que os treinadores locais raramente conseguem ensinar. É o mesmo fenômeno que produziu jogadores como Leandro Trossard na Bélgica ou — guardadas as devidas proporções — o próprio Rodrygo, formado nas categorias do Santos antes de ser moldado pela La Liga.
O que vem pela frente
Com passagens por todas as categorias da seleção italiana de base, do sub-15 ao sub-19, Samuele ainda tem pela frente a decisão sobre qual camisa vestir em definitivo — mas esse é um debate para outro momento. O imediato é o Borussia Dortmund, que garantiu sua vaga na Champions League e agora prepara o encerramento da Bundesliga. Para o jovem de 18 anos, a estreia como titular foi apenas o quarto capítulo de uma história que o técnico Niko Kovac já avisou que terá muito mais a contar.








