Nove convocados, US$ 250 milhões em disputa e uma fórmula que poucos dirigentes dominam de verdade. Tudo se explica daí. O Flamengo projeta ser o clube brasileiro com maior compensação financeira no Programa de Benefícios aos Clubes da Fifa durante a Copa do Mundo de 2026 — e os números, quando colocados lado a lado, revelam uma assimetria histórica entre os grandes do futebol nacional.

O Programa da Fifa que transforma convocações em receita

O Programa de Benefícios aos Clubes da Fifa não é novidade: existe desde a Copa de 2010, na África do Sul, quando a entidade formalizou o compromisso de remunerar as agremiações que cedem atletas para os Mundiais. Para a edição de 2026, disputada entre 11 de junho e 19 de julho nos Estados Unidos, México e Canadá, a Fifa reservou US$ 250 milhões — aproximadamente R$ 1,2 bilhão na cotação atual — para distribuição entre os clubes participantes. A diária por atleta oscila entre US$ 5 mil (cerca de R$ 25 mil) e US$ 11 mil (cerca de R$ 57 mil), dependendo da fase alcançada pela seleção e da minutagem efetiva do jogador em campo. O valor final só é confirmado após o encerramento do torneio.

Para contextualizar a grandeza do programa: na Copa de 2018, na Rússia, a Fifa distribuiu US$ 209 milhões entre 416 clubes de 60 países. O Real Madrid, com o maior número de convocados naquela edição (16 jogadores), recebeu mais de US$ 9 milhões. A evolução para US$ 250 milhões em 2026 representa um crescimento de quase 20% em oito anos, reflexo direto da pressão das ligas europeias — especialmente a Premier League e a Liga dos Campeões — por maior participação nas receitas geradas pelo futebol de seleções.

Flamengo na frente, Palmeiras e os demais na conta

Com base nas projeções de convocação, o Flamengo deve ceder nove atletas para quatro seleções diferentes: Léo Pereira, Danilo, Alex Sandro e Lucas Paquetá para o Brasil; Varela, Arrascaeta e De la Cruz para o Uruguai; Jorge Carrascal para a Colômbia; e Gonzalo Plata para o Equador. Aplicando a diária mínima de US$ 5 mil, o clube rubro-negro receberia R$ 225 mil por dia; pelo teto de US$ 11 mil, o valor sobe para R$ 513 mil diários. Considerando que a fase de grupos vai de 11 a 27 de junho — 17 dias —, apenas nessa primeira etapa o Flamengo poderia acumular entre R$ 3,8 milhões e R$ 8,7 milhões.

O Palmeiras, por sua vez, projeta entre quatro e seis convocados, com destaque para os atletas ligados à Seleção Brasileira e ao futebol sul-americano. Com seis jogadores na diária máxima, o clube alviverde chegaria a R$ 342 mil por dia — expressivo, mas ainda bem abaixo do teto flamenguista. Clubes como Atlético Mineiro e Fluminense, com projeções de dois a três convocados, devem ficar na faixa de R$ 75 mil a R$ 171 mil diários. Segundo análise publicada pelo jornal Lance e referenciada em matéria do SportNavo, a diferença entre o líder e o quarto colocado brasileiro pode ultrapassar R$ 300 mil por dia.

Há ainda a remuneração pelas Eliminatórias, que segue critério distinto: a Fifa paga US$ 2.360 (cerca de R$ 11,8 mil) por atleta por partida disputada. Para um clube que cedeu quatro jogadores em dez rodadas duplas — como o Flamengo ao longo das Eliminatórias Sul-Americanas para 2026 —, esse acumulado já representa uma receita adicional de R$ 944 mil apenas nesse período preparatório.

Quanto o critério de minutagem muda o jogo final

Quantos torcedores percebem que o valor que o clube recebe depende diretamente do tempo que o seu jogador passa em campo?

A minutagem é o fator mais volátil do cálculo. Um atleta convocado mas que não entra em campo em nenhum jogo gera receita menor do que um titular absoluto que disputa seis partidas completas. No caso do Flamengo, a presença de Arrascaeta e De la Cruz como peças centrais do Uruguai de Marcelo Bielsa — equipe que chegou às quartas de final na Copa de 2022, no Catar — eleva a expectativa de minutagem combinada. Já Gonzalo Plata, ponta equatoriano com histórico irregular em Mundiais, representa a maior incerteza do grupo. O Equador caiu na fase de grupos em 2022, o que reduziu drasticamente a compensação dos clubes que cederam seus jogadores àquela seleção.

O desempenho das seleções também multiplica os valores: quanto mais longe uma equipe avança, mais dias de competição são contabilizados. Se o Brasil chegar à final — o que não acontece desde a campanha de vice-campeão em 1998, na França —, os quatro jogadores do Flamengo na Seleção gerariam receita por 38 dias de torneio, e não apenas pelos 17 da fase de grupos. Essa diferença pode dobrar o montante total recebido pelo clube.

O efeito cascata nos orçamentos do futebol brasileiro

A concentração de convocados no Flamengo não é acidental. Reflete uma política de investimento que, desde 2019, transformou o clube no maior orçamento do futebol brasileiro: folha salarial superior a R$ 500 milhões anuais, contratações de atletas internacionais como Arrascaeta (vindo do Defensor, em 2019, por cerca de US$ 15 milhões) e De la Cruz (adquirido do Nacional em 2023 por US$ 12 milhões). Jogadores de alto nível em seleções competitivas geram convocações — e convocações, no modelo da Fifa de 2026, geram receita direta.

Para clubes menores do Brasileirão, o programa tem alcance limitado. Um clube com um único convocado, como eventualmente ocorre com equipes do interior paulista ou nordestinas, recebe entre R$ 25 mil e R$ 57 mil por dia — valor relevante, mas insuficiente para equilibrar a perda do atleta durante 30 a 40 dias de competição, incluindo preparação e viagem. A assimetria, portanto, não favorece apenas o Flamengo em relação ao Palmeiras; ela aprofunda a distância entre os clubes da elite e o restante da pirâmide.

Os pagamentos serão processados pela Fifa nos meses seguintes ao encerramento do torneio, com previsão de liquidação até dezembro de 2026. Para o Flamengo, que realiza intertemporada em Portugal durante o período da Copa, a compensação financeira chega num momento estratégico: o clube precisará recompor o elenco para a reta final do Brasileirão e para as fases decisivas da Copa Libertadores.

Nove convocados, quatro seleções, até R$ 513 mil por dia — o Flamengo transformou sua política de contratações internacionais em linha de receita direta da Fifa.