A última vez que uma seleção chegou a uma Copa do Mundo com tamanho acúmulo de talento ofensivo foi a França de 1998, quando Zidane, Thierry Henry e David Trezeguet compunham um ataque que destruiu o Brasil por 3 a 0 na final do Stade de France. Vinte e oito anos depois, os Bleus chegam ao torneio de 2026 com Kylian Mbappé, Michael Olise, Ousmane Dembélé, Désiré Doué e Rayan Cherki — uma concentração de qualidade que não tem paralelo no futebol contemporâneo. E o Brasil, que naquele julho de 1998 ao menos estava na decisão, hoje não figura sequer entre os três candidatos principais ao título.
O que os campeões desde 2010 ensinaram sobre favoritismo
Existe um padrão documentado nas últimas quatro edições do Mundial que merece atenção. Espanha (2010), Alemanha (2014), França (2018) e Argentina (2022) eram, no momento de suas conquistas, os favoritos ou estavam ao menos entre os três primeiros nas projeções pré-torneio. Não é coincidência — é a tradução estatística de ciclos bem construídos. A Espanha de 2010 chegava com dois títulos consecutivos de Eurocopa (2008) e um modelo de jogo consolidado sob Vicente del Bosque. A Alemanha de 2014 tinha 34 jogadores formados no mesmo sistema tático implantado por Klinsmann e Löw desde 2004. A França de 2018 venceu seis dos sete jogos no torneio, com aproveitamento de 85,7% nos pontos disputados. A Argentina de 2022 entrou invicta há 36 partidas. Todos esses ciclos tinham algo em comum: construção de longo prazo, identidade tática clara e um líder técnico com autoridade consolidada… e aí vem o problema do Brasil.
Por que a seleção brasileira desapareceu das apostas para 2026
Desde a eliminação para a Croácia nas quartas de final do Qatar 2022 — derrota nos pênaltis após 1 a 1 no tempo regulamentar —, a seleção brasileira acumulou uma sucessão de tropeços administrativos e técnicos que afastaram qualquer sensação de projeto sólido. Fernando Diniz assumiu interinamente, Ancelotti foi especulado por meses sem desfecho, e o ciclo 2023-2026 chegou à Copa sem a estabilidade que caracterizou os campeões citados acima. Nenhum dos últimos quatro vencedores do torneio trocou de treinador duas vezes no ciclo classificatório. O Brasil fez exatamente isso. O resultado prático é que as casas de apostas e as análises especializadas colocam a equipe fora do pódio de favoritas — uma posição inédita para uma seleção que foi apontada como candidata em todas as edições entre 1994 e 2018.
França e Espanha como os modelos opostos ao caos brasileiro
Didier Deschamps comanda a França desde 2012 — 14 anos no cargo, com uma Copa do Mundo (2018) e uma vice (2022) no currículo. Para 2026, segundo análises do portal, ele optou por uma formação mais ousada, com quatro homens na linha ofensiva, algo incomum em seu histórico conservador. Dembélé, eleito o melhor jogador do mundo em 2025, ocupa a ponta direita. Mbappé lidera o ataque. Olise, em grande fase, e Doué ou Cherki completam o quarteto. É a França mais ofensiva desde a geração de Platini nos anos 1980.
A Espanha, por sua vez, chegou ao torneio como campeã da Eurocopa de 2024 — título conquistado com Lamine Yamal e Nico Williams como peças centrais — e vice da Liga das Nações de 2025, perdendo a final para Portugal nos pênaltis. Luis de la Fuente mantém a filosofia de posse que existe há quase 20 anos, mas adicionou velocidade e imprevisibilidade pelas pontas. O volante Mikel Merino, do Arsenal, que superou uma fratura por estresse no pé direito sofrida em janeiro para chegar ao torneio, resumiu bem o estado de espírito do grupo em entrevista ao site da Fifa:
"A Espanha pode ganhar de qualquer um. Quando você conquista títulos importantes e apresenta um bom nível de desempenho, as expectativas aumentam de forma natural. Mas também sabemos que há muitos elencos fortes, com jogadores extraordinários, e que qualquer detalhe pode fazer a diferença em um torneio tão curto."
Merino, que tem 30 anos e estará com 34 na próxima Copa, admitiu ter temido não ser convocado durante a recuperação da lesão. Sua presença no grupo espanhol simboliza exatamente o tipo de maturidade coletiva que diferencia equipes candidatas de equipes participantes.
Marrocos, a variável que ninguém deve ignorar
Há um terceiro candidato que emerge com consistência histórica recente: Marrocos. A semifinal de 2022 no Qatar — primeira de uma seleção africana na história do torneio — não foi acidente. Foi a consolidação de um projeto. O meia Sofyan Amrabat, peça central daquela campanha histórica, deixou claro em entrevista à Fifa que a seleção marroquina não chega a 2026 como coadjuvante. Sobre o confronto de estreia contra o Brasil, marcado para o dia 13 de junho, ele foi direto:
"Temos muito respeito por eles, mas não temos medo de ninguém. Estamos em 2026. Marrocos deu passos enormes e esperamos mostrar isso."
Amrabat lembrou que o último duelo entre as seleções em Copa do Mundo terminou 3 a 0 para o Brasil — em 1998, justamente o torneio em que os franceses depois bateram a Seleção na final. O Grupo C, que reúne Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti, tem no confronto de abertura entre brasileiros e marroquinos um dos jogos mais carregados de significado desta primeira fase. Uma derrota do Brasil ali, com a França já apontada como principal favorita e a Espanha consolidada como vice-candidata, aprofundaria ainda mais o distanciamento da Seleção do topo do favoritismo — e colocaria Marrocos, pela segunda Copa consecutiva, no centro das discussões sobre quem pode surpreender.
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, os dados de aproveitamento das seleções no ciclo 2023-2026 já indicavam essa hierarquia. A estreia do Brasil contra Marrocos acontece no dia 13 de junho, às 19h, pelo Grupo C — e o resultado desse jogo vai definir se a Seleção ainda tem condições de mudar a narrativa ou se confirma o pior aproveitamento de um ciclo classificatório brasileiro desde 1990, quando a equipe de Lazaroni chegou à Copa da Itália com apenas 61% de aproveitamento nas eliminatórias.








