45 minutos. Foi exatamente esse o tempo que Didier Deschamps precisou para transformar uma França acuada, incapaz de sair da própria defesa, numa máquina de três gols que encerrou a estreia da Copa do Mundo 2026 com vitória por 3 a 1 sobre o Senegal. O placar final engana qualquer leitor desatento — e a história do futebol está cheia de placares que mentem sobre o que realmente aconteceu em campo.

Senegal dominou, criou e desperdiçou tudo no primeiro tempo

Quem acompanhou a primeira etapa viu um Senegal organizado, vertical e fisicamente avassalador sobre os franceses. Os Leões de Teranga, eliminados nas quartas de final da Copa Africana das Nações de 2023, chegaram à Copa do Mundo 2026 com um elenco maduro e com memória histórica: foi justamente o Senegal que derrubou a França campeã em 2002, na fase de grupos do Mundial japonês-coreano, por 1 a 0, com gol de Papa Bouba Diop — um resultado que até hoje ressoa como uma das maiores zebras da história da competição. Neste 2026, os senegaleses pareciam dispostos a repetir o roteiro.

Senegal dominou, criou e desperdiçou tudo no primeiro tempo França vira sobre Se
Senegal dominou, criou e desperdiçou tudo no primeiro tempo França vira sobre Se

O problema foi a ineficácia diante do gol. A França, que nas últimas quatro Copas do Mundo acumulou campanhas de peso — campeã em 2018, vice em 2022, semifinal em 2014 e quartas em 2010 —, não precisou fazer grande coisa para chegar ao intervalo com o placar em branco. O Senegal empilhou chances, desperdiçou finalizações e pagou o preço mais caro que o futebol cobra: a ineficiência.

O que Deschamps mudou no intervalo e por que funcionou

A virada não foi acaso. Como registrado pelo SportNavo a partir das declarações pós-jogo, Deschamps realizou uma troca posicional cirúrgica no intervalo: inverteu os lados de Ousmane Dembélé e Michael Olise, desequilibrando a marcação senegalesa que havia sido montada especificamente para neutralizar as funções originais dos dois. O resultado foi imediato — e brutal.

"É um alívio (risos). Estávamos um pouco apreensivos no início. Mudar as posições de Dembélé e Olise fez uma grande diferença. Essa é a magia do futebol. Poder compartilhar, viver essas emoções. É apenas o primeiro jogo, mas vamos aproveitar. É sempre importante vencer o jogo de estreia", declarou Deschamps logo após o apito final.

A lógica tática por trás da mudança não é nova no repertório do técnico. Deschamps, que treina a França desde julho de 2012 — portanto, há 14 anos à frente da seleção, um dos mandatos mais longos entre as grandes potências do futebol mundial —, já havia utilizado ajustes de corredor em momentos críticos nas Copas de 2014 e 2018. Em 2018, contra a Bélgica na semifinal de São Petersburgo, a reorganização do meio-campo no intervalo foi determinante para a vitória por 1 a 0 que levou a França à final. O padrão se repete: Deschamps sofre no primeiro tempo, diagnostica, ajusta e conclui.

Barcola muda o jogo e Deschamps avisa que vai precisar de todos

Com a vantagem mínima no placar, o técnico francês ainda sacou Dembélé e lançou Bradley Barcola, jovem do Paris Saint-Germain cujo impacto foi imediato. O atacante acelerou a movimentação ofensiva francesa e contribuiu para o deslanche que resultou nos três gols da segunda etapa. Deschamps não escondeu a satisfação com o rendimento do substituto — e aproveitou para mandar um recado ao elenco.

"Barcola teve impacto real quando entrou. Muitos jogadores podem legitimamente reivindicar uma vaga no time titular, como Cherki também, mesmo que ele só tenha entrado no final da partida. Precisaremos de todos", afirmou o técnico.

A declaração revela uma França que, ao contrário da geração de 2006 — quando Zidane, Ribéry e Henry concentravam quase toda a criatividade ofensiva —, conta com profundidade de elenco em todas as linhas. Rayan Cherki, do Lyon, entrou apenas nos minutos finais, mas o simples fato de Deschamps citá-lo como candidato ao time titular indica que a briga interna por posição é saudável e acirrada. Isso, historicamente, produz seleções mais resilientes ao longo de um torneio de sete partidas.

França candidata ao título, mas com fragilidades expostas

O 3 a 1 sobre o Senegal é, ao mesmo tempo, uma vitória convincente em termos de resultado e um alerta claro em termos de processo. Uma seleção que aspira ao título — e a França, com o plantel atual, tem todas as credenciais para tanto — não pode passar 45 minutos inteiros sendo dominada por um adversário que, por mais qualificado que seja, não figura entre os favoritos ao troféu. A geração campeã de 2018, liderada por Kylian Mbappé, Griezmann e Kanté, também teve partidas irregulares na fase de grupos, mas nunca pareceu tão reativa quanto neste primeiro tempo diante dos senegaleses.

Para quem acompanha Copas do Mundo desde 1978, quando a Argentina de Kempes ergueu o troféu em Buenos Aires, o padrão é familiar: grandes seleções raramente chegam ao torneio em forma plena. A Alemanha de 2014 foi irregular até as quartas; a Espanha de 2010 perdeu a estreia para a Suíça. O que diferencia as campeãs é a capacidade de correção — exatamente o que Deschamps demonstrou ontem, com a frieza de quem já viveu situações mais tensas. Lembro-me, com a nitidez de quem estava acordado às três da madrugada no inverno gaúcho, do Brasil de 2002 que quase tropeçou na fase de grupos antes de vencer o hexacampeonato. O futebol tem essa crueldade de cobrar a conta sempre no pior momento — e as equipes que sobrevivem ao primeiro susto costumam sair mais fortes.

Há, contudo, um dado que equilibra qualquer pessimismo: a França marcou três gols em 45 minutos contra uma das melhores defesas africanas. Isso não é pouca coisa. A variação tática de Deschamps funcionou como o trânsito da Avenida Paulista às 18h — caótico por fora, mas com uma lógica interna que só quem conhece a cidade entende. A França é, sim, candidata. Mas terá de jogar os 90 minutos, não apenas os segundos 45.

A próxima oportunidade de respostas vem já na segunda-feira, dia 22 de junho, às 18h (horário de Brasília), quando a França enfrenta o Iraque no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, pela segunda rodada do Grupo I. Deschamps entra em campo sabendo que dois resultados positivos garantem a classificação — e que o Senegal, do outro lado da chave, ainda tem contas a acertar com o torneio.

No vestiário francês, enquanto Barcola trocava de roupa, Deschamps já rabiscava o próximo adversário. A mágica, desta vez, terá de durar os 90 minutos completos.