Fumaça branca tomou conta da arquibancada superior do Estádio Monumental. Era domingo, 19 de janeiro, poucos minutos antes do clássico entre River Plate e Boca Juniors. O que deveria ser festa virou correria quando chamas surgiram entre os assentos próximos à escada de acesso, no setor voltado para a avenida Figueroa Alcorta.

O foco do incêndio começou justamente no momento em que os jogadores entravam em campo e a torcida do River fazia a tradicional recepção com papéis nas cores do clube. A equipe de segurança do estádio controlou rapidamente a situação com extintores, evitando que fosse necessário acionar o Corpo de Bombeiros. Não houve feridos registrados.

Um histórico de 58 anos de incidentes

O episódio deste domingo marca mais um capítulo na longa história de problemas de segurança envolvendo o Superclássico argentino. O primeiro incidente grave documentado ocorreu em 22 de junho de 1968, também no Estádio Monumental, quando uma avalanche humana resultou em 71 feridos durante River x Boca.

Nos anos seguintes, outros episódios marcaram o clássico mais tradicional da Argentina. Em 1975, tumultos no mesmo estádio deixaram 15 pessoas hospitalizadas. A década de 1980 trouxe novos problemas: em 1983, uma briga generalizada entre torcidas resultou em 23 feridos e duas prisões.

O ano de 1994 ficou marcado por um dos episódios mais graves da história recente do confronto. Durante o jogo na Bombonera, casa do Boca Juniors, o desabamento parcial de uma arquibancada deixou 34 torcedores feridos, cinco em estado grave.

A tragédia de 2022 que mudou protocolos

O ponto de virada na discussão sobre segurança veio após a tragédia no Estádio Kanjuruhan, na Indonésia, em outubro de 2022, quando 135 pessoas morreram durante tumultos pós-jogo. O episódio repercutiu mundialmente e forçou confederações a reverem protocolos de segurança.

Na Argentina, a Associação do Futebol Argentino (AFA) implementou novas medidas a partir de 2023. Entre as principais mudanças estão o aumento do número de extintores por setor, treinamento obrigatório para seguranças sobre evacuação de emergência e instalação de câmeras térmicas para detectar focos de calor.

Um histórico de 58 anos de incidentes Fumaça e correria marcam mais um inciden
Um histórico de 58 anos de incidentes Fumaça e correria marcam mais um inciden

Segundo levantamento do SportNavo, este é o terceiro caso de princípio de incêndio em estádios argentinos registrado em 2026. Os dois anteriores ocorreram em La Plata, durante Estudiantes x Gimnasia, e em Rosário, no clássico entre Newell's Old Boys e Rosario Central.

Medidas que ainda precisam evoluir

Especialistas em segurança esportiva apontam que, apesar dos avanços, ainda há lacunas nos protocolos argentinos. A superlotação de setores durante clássicos continua sendo um problema recorrente, com vendas de ingressos que frequentemente excedem a capacidade recomendada para jogos de alto risco.

O sistema de evacuação também apresenta deficiências estruturais. Muitos estádios argentinos, construídos nas décadas de 1940 e 1950, possuem saídas de emergência inadequadas para os padrões modernos de segurança. O próprio Monumental, inaugurado em 1938, passou por reformas recentes, mas mantém limitações arquitetônicas.

A fiscalização prévia dos materiais levados pelos torcedores representa outro desafio. Papéis, sinalizadores e outros objetos inflamáveis ainda conseguem passar pelos controles de acesso, como evidenciado no incidente deste domingo.

A tragédia de 2022 que mudou protocolos Fumaça e correria marcam mais um inciden
A tragédia de 2022 que mudou protocolos Fumaça e correria marcam mais um inciden

O próximo Superclássico entre River Plate e Boca Juniors está agendado para maio, no Estádio Alberto J. Armando (La Bombonera). A AFA já anunciou que implementará detectores de metal mais sensíveis e aumentará o efetivo de segurança para 350 agentes, 40% a mais que o habitual para jogos de risco máximo.