A última vez que uma emissora brasileira estreou tão mal em cobertura de Copa foi em 2002, quando o SBT ainda tentava descobrir sua linguagem esportiva e o Galvão Bueno ainda era propriedade exclusiva da Globo. Mais de duas décadas depois, o mesmo Galvão está do outro lado — e a estreia, lamentavelmente, parece ter voltado no tempo.
O dado que resume a estreia do SBT na cobertura da Copa do Mundo 2026
O número central desta análise não é de xG nem de PPDA — é de audiência. A Copa do Mundo ainda não começou, e o SBT já perdeu a batalha das prévias para a Band, uma emissora sem os direitos de transmissão dos jogos. Isso é o equivalente a um time tomar gol de um adversário que estava no banco de reservas.
O problema começou antes da bola rolar. O SBT usou o Fofocalizando como sala de espera para a lista de Carlo Ancelotti — uma escolha de grade que expõe o quanto a emissora ainda não sabe encaixar o esporte na sua programação. A audiência, previsível, não esperou.
"Já passou da hora" — Galvão Bueno, ao vivo, reclamando do atraso na divulgação da convocação da Seleção.
Essa frase resume o problema estrutural. Galvão, que tem o histórico de transformar qualquer sorteio em épico, escolheu vocalizar o próprio mal-estar em vez de segurar o clima. Para um narrador de sua experiência, drenar o entusiasmo do telespectador ao vivo é um erro de posicionamento grave — e evitável.
O quarteto de estrelas e por que a química nunca apareceu na transmissão
Se fossemos aplicar métricas de futebol ao elenco do SBT, a transmissão teria algo assim:
- xG (expected goals) do time: altíssimo — Galvão Bueno, Mauro Naves, Tiago Leifert e Mauro Beting têm currículo de sobra para gerar conteúdo de qualidade.
- Gols marcados de fato: próximo de zero — a execução não converteu o potencial em produto.
- Progressive passes (passes que avançam o jogo): apenas Leifert entrou nessa categoria, ao revelar os bastidores da dúvida de Ancelotti sobre Neymar e colocar Weverton como nome em discussão para o gol da Seleção Brasileira.
- PPDA (pressão defensiva sobre o adversário): inexistente — a Band, com Craque Neto, pressionou com autenticidade e levou a audiência sem precisar de uma estrela sequer do nível dos contratados pelo SBT.
Leifert foi o único com defensive actions no sentido inverso — ele atacou o conteúdo com apuração real. Mas uma andorinha não faz verão, e o ritmo geral da transmissão era de mesa-redonda de fim de noite, não de evento esportivo de maior audiência do planeta.
A frase que circulou pelas redes foi direta: "Quem é que lembra de ligar no SBT para ver futebol?" É uma pergunta de posicionamento de marca, não só de audiência. E o SBT, até agora, não deu a resposta certa.
O que o SBT precisa ajustar antes que o apito inicial do Mundial ecoe
No levantamento que o SportNavo acompanhou ao longo da cobertura desta semana, o problema do SBT não é de elenco — é de roteiro e ritmo. São três ajustes concretos que a emissora precisa fazer antes de junho:
- Definir um âncora de ritmo. Leifert mostrou que pode ser esse jogador — alguém que avança o jogo com informação nova, como um meia com alto índice de progressive passes. Se ele assumir esse papel formalmente, a transmissão ganha fluxo.
- Separar entretenimento de cobertura jornalística. Usar o Fofocalizando como antessala esportiva é o mesmo que escalar um volante de contenção como centroavante: a função não combina. Copa precisa de estúdio esportivo, com contexto tático, dados e apuração.
- Calibrar o papel de Galvão. O narrador tem o maior xA (expected assists) do elenco — ninguém cria expectativa como ele. Mas ele precisa ser usado para elevar o clima, não para drenar. Se o atraso de uma lista irritou ao vivo, o Mundial vai ter imprevistos maiores.
A comparação com a Band é pedagógica: Craque Neto não tem o currículo de Galvão, nem a trajetória de Leifert. Tem autenticidade e energia — e foi o suficiente para vencer nas prévias. Isso diz muito sobre o que o torcedor brasileiro quer de uma transmissão de Copa.
O SBT tem o elenco, tem os direitos e tem a Copa do Mundo chegando em menos de um mês. Está pronto no papel — falta o jogo funcionar quando o apito apitar.








