Quem vence Alex Pereira no kickboxing normalmente desaparece da narrativa — e foi exatamente esse homem que Ciryl Gane foi buscar para o camp mais importante de sua carreira. Artem Vakhitov, que derrotou Alex Pereira por decisão majoritária na revanche do Glory e encerrou a trajetória do brasileiro no kickboxing profissional, está treinando com o francês na reta final de preparação para o UFC White House, onde os dois se enfrentam pelo cinturão interino dos pesados.

O cinturão interino dos pesados e o peso da mudança de divisão de Pereira

O co-main event do UFC White House reúne duas das maiores inteligências de striking do MMA contemporâneo numa divisão onde nenhum dos dois passou a vida inteira. Gane, que já disputou o cinturão dos pesados contra Francis Ngannou em janeiro de 2022 — perdeu por finalização no segundo round —, retorna à elite da divisão mais pesada do UFC com um cartel que acumula vitórias sobre Tai Tuivasa, Serghei Spivac e Derrick Lewis. Pereira, bicampeão no UFC nos pesos médio e meio-pesado, sobe mais uma categoria em busca de um feito sem precedentes na história da organização: um terceiro cinturão em três divisões diferentes.

A mudança de peso é, tecnicamente, o primeiro vetor de análise. Pereira competiu a maior parte da carreira no MMA entre 84 e 93 kg. Nos pesados, a massa muscular e o alcance dos adversários mudam a geometria de tudo — o ângulo de entrada para o left hook, a distância necessária para o clinch, o tempo de reação depois de absorver um jab de longa distância. Gane, que compete naturalmente na categoria e mede 1,93 m com alcance de braço de 201 cm, chega com a vantagem dimensional mais óbvia da luta.

Vakhitov e o mapa das fraquezas de Poatan

Artem Vakhitov não é um nome que circula com frequência nos debates de MMA, mas sua relevância para esta história é objetiva: foi ele quem encerrou a fase kickboxing de Pereira com uma vitória por maioria no Glory, depois de perder a primeira luta por split decision. Duas lutas, dois placar divididos, sendo que o russo levou a última. Nenhum outro kickboxer fez isso contra Pereira.

No UFC Countdown dedicado ao White House, Vakhitov foi direto ao ponto ao descrever a receita para incomodar Poatan:

"O que torna Alex Pereira perigoso são suas mãos de pedra. Ele nocauteou muita gente no kickboxing e no MMA. Técnica mínima, mas golpes muito eficazes que conectam. A fraqueza dele é a abertura. Ele tem um ataque muito forte, mas a defesa sofre. Muitos adversários perdem mentalmente na luta porque entram com medo. Não se deve fazer isso. Você precisa tomar a iniciativa. Avançar e ser agressivo. Então ele começa a se perder."

A leitura de Vakhitov converge com o que os dados de striking de Pereira no UFC revelam. Nos confrontos contra Adesanya — especialmente na revanche de novembro de 2023 —, o nigeriano conseguiu conectar volume suficiente para derrubar Pereira antes de ser finalizado. Jan Blachowicz, em outubro de 2024, teve momentos de sucesso no jab duplo justamente porque pressionou o centro do octógono sem recuar. A tendência defensiva de Pereira de carregar o peso para trás e confiar no timing do contra-ataque é conhecida — o que Vakhitov faz é transformar esse conhecimento em protocolo de treino.

"Um treinador de striking que nunca lutou contra o adversário pode te dar teoria. Um cara que bateu nele duas vezes te dá memória muscular", observou um preparador físico de MMA consultado pela reportagem, sem autorização para ser identificado.

A resposta de Pereira e o que ela revela sobre a pressão psicológica do camp

Quando questionado sobre a contratação de Vakhitov pelo camp de Gane, Pereira foi econômico e calculado, como de costume nas semanas que antecedem uma luta grande:

"Ciryl está treinando com Vakhitov? Não faz diferença. Kickboxing e MMA são esportes diferentes."

A declaração é tecnicamente defensável — as regras, o tatame, as luvas e a presença do grappling mudam substancialmente a dinâmica de qualquer confronto de striking. Mas ela também ignora um dado que o próprio histórico de Pereira contradiz: Adesanya, kickboxer clássico que já havia perdido para ele no Glory, foi o primeiro a expor suas limitações defensivas no UFC. Gane, formado no muay thai e com base sólida em movimentação lateral e jab de distância, tem perfil técnico similar ao de Adesanya — porém com 20 kg a mais e 10 cm de vantagem de alcance.

A questão não é se Vakhitov vai recriar no MMA o que fez no Glory. A questão é que o russo passou dezenas de rounds contra Pereira e sabe exatamente em que posição o brasileiro fica descoberto, qual o tempo de resposta depois de um jab duplo, e como a pressão contínua afeta o ritmo de contra-ataque de Poatan. Esse tipo de informação tem valor independente do esporte.

Brendan Allen, o bônus de 100 mil dólares e o contexto do card

Enquanto a preparação de Gane ganha contornos estratégicos de alto nível, o UFC Vegas 118, realizado no último sábado (6) em Las Vegas, entregou um subplot curioso que foi registrado pelo SportNavo: Brendan Allen, médio atualmente ranqueado em quarto lugar na divisão, venceu Edmen Shahbazyan por decisão unânime e faturou 100 mil dólares de bônus pela Luta da Noite — sua segunda premiação do tipo nas últimas três apresentações na organização.

Allen entrou no octógono representando o Brasil, com a camisa da Seleção Brasileira, após anunciar nas redes sociais que sua esposa é brasileira e que dois de seus filhos têm ligação direta com o país. A vitória foi a terceira consecutiva do americano no UFC e reforça sua candidatura a uma disputa de cinturão nos médios. O card ainda contou com vitórias de Gabriel Bonfim, Alessandro Costa, Joanderson Brito, Jeisla Chaves e Ketlen Souza, consolidando uma noite de alto rendimento para os brasileiros.

O UFC White House está marcado para o dia 14 de junho, com Gane e Pereira no co-main event pelo cinturão interino dos pesados. Ilia Topuria defende o cinturão leve contra Justin Gaethje na luta principal. Se Gane vencer, o título interino cria um cenário de unificação imediata com o campeão Jon Jones — que segue inativo desde sua vitória sobre Stipe Miocic em novembro de 2023 e ainda não confirmou data de retorno ao octógono.