Havia algo de quase teatral naquele domingo em Madri. A terceira colocada do ranking mundial, Coco Gauff, chegou a vomitar em quadra no meio de um segundo set que parecia escorregar entre os dedos — e, de alguma maneira, transformou aquele momento de fragilidade extrema na dobradeira de uma virada que durou 2 horas e 20 minutos. O placar final, 4/6, 7/5 e 6/1 sobre a romena Sorana Cirstea, não diz tudo. Mas quase.

O colapso que não virou derrota

Cirstea ditou o ritmo do primeiro set com autoridade, quebrando o serviço de Gauff para fechar a parcial em 6/4. No início do segundo, a romena abriu 2/0 com a frieza de quem acreditava ter encontrado a fórmula para desmontar a americana. Gauff, porém, trabalhou ponto a ponto — uma devolução precisa aqui, um backhand cruzado que cortou o ar com precisão milimétrica ali — até empatar em 4/4. Foi exatamente nesse momento que o corpo cobrou a conta: ela parou a partida, vomitou em quadra e recebeu atendimento médico, com a pressão arterial sendo aferida pela equipe de saúde do torneio.

"Honestamente eu não queria vomitar em quadra. Foi uma sensação estranha, não sei como consegui sair disso. De alguma forma consegui encontrar um caminho. Passei a me sentir melhor depois que coloquei para fora e me deram alguma coisa, mas estava cansada então tinha apenas que tentar seguir em frente", contou Gauff.

O atendimento médico foi o ponto de inflexão. A americana retornou à quadra com o saque de Cirstea para quebrar e, no 12º game, converteu o break point decisivo que fechou o segundo set em 7/5. A virada havia começado — e não havia mais como detê-la.

O terceiro set como obra de arte tática

O set decisivo foi uma lição de administração emocional embalada em tênis de alta precisão. Cirstea, que já havia desperdiçado energia considerável para manter o serviço no segundo set — salvando cinco break points apenas no segundo game do set —, chegou ao terceiro com o nível técnico em queda livre. Gauff quebrou no quarto e no sexto games, concedendo à romena apenas uma confirmação de saque em toda a parcial. O 6/1 foi o retrato de uma quadra que pertencia inteiramente à americana nos 40 minutos finais da partida.

"Não sei, apenas tentei terminar a partida jogando um ponto depois do outro. Não sei o que está acontecendo aqui em Madri e espero estar melhor amanhã", disse Gauff na entrevista em quadra, com a voz de quem ainda processava o que havia acabado de acontecer.

Conforme levantamento do SportNavo, Gauff não é a única jogadora a ter enfrentado problemas físicos nesta edição do WTA 1000 de Madri — a russa Liudmila Samsonova também passou mal e foi obrigada a abandonar sua partida, abrindo o caminho para a tcheca Linda Noskova sem nem entrar em quadra.

A marca histórica que poucos enxergam

Por trás do drama físico, há um número que merece ser emoldurado: esta foi a 33ª vez que Coco Gauff alcança as oitavas de final em um WTA 1000, tendo 22 anos de idade. Apenas três jogadoras chegaram a essa marca antes de completar 23 anos — Martina Hingis, com 44 aparições nas oitavas; Svetlana Kuznetsova, com 34; e Caroline Wozniacki, também com 34. Gauff está tecendo uma tapeçaria estatística que vai além dos títulos: é a consistência de uma jogadora que entende o que significa aparecer nas semanas que importam.

A análise do SportNavo reforça que a capacidade de Gauff de vencer partidas mesmo fora de sua melhor forma física é uma das características que a distinguem das rivais da mesma geração — e que torna cada vitória sua uma peça de uma obra em construção.

O próximo desafio em Madri

Nas oitavas de final, Gauff enfrentará Linda Noskova, tcheca que avançou sem jogar após a desistência de Samsonova. Será o terceiro confronto entre as duas, com a americana vencendo os dois duelos anteriores. A partida será realizada em Madri, e Gauff precisará recuperar plenamente o equilíbrio físico para manter o histórico favorável — afinal, uma Noskova descansada, contra uma americana ainda abalada pela altitude espanhola, é um equação que exige respeito.