Se Mohamed Salah tivesse nascido noventa anos atrás, talvez o Egito já tivesse encerrado o jejum mais longo de uma seleção classificada para uma Copa do Mundo. Mas não foi assim. Nesta segunda-feira (15), no Lumen Field, em Seattle, os egípcios abriram o placar, controlaram boa parte do jogo, tiveram chances de ampliar — e viram o placar ser igualado por um gol contra do próprio zagueiro Mohamed Hany, no lance que decretou o 1 a 1 com a Bélgica pelo Grupo G da Copa do Mundo. O tabu chegou à oitava partida, ao quarto empate, ao quarto jogo sem vitória em mundiais.

A realidade é que o Egito esteve muito perto. Aos 19 minutos do primeiro tempo, Salah recebeu pela direita, encontrou Emam Ashour com um passe rasteiro preciso e o meio-campista do Al Ahly, em seu aniversário, dominou na meia-lua e finalizou com força no canto esquerdo de Thibaut Courtois. Foi o primeiro gol de Ashour com a camisa da seleção — e aconteceu justamente num Mundial. A vantagem poderia ter sido ampliada antes do intervalo: o atacante apelidado de Zico obrigou Courtois a fazer boa defesa, enquanto Ashour desperdiçou um rebote claro na etapa final e Omar Marmoush ameaçou em duas chegadas consecutivas.

O gol contra que preservou 90 anos de espera

Quando a pressão egípcia parecia encaminhar a vitória histórica, Romelu Lukaku entrou em campo aos 20 minutos do segundo tempo — e precisou de apenas 22 segundos para mudar o jogo. O centroavante do Napoli disputou a bola dentro da área após cruzamento de Thomas Meunier pela direita, e Mohamed Hany, ao tentar cortar, desviou para as próprias redes. Foi o segundo gol contra registrado nesta edição do torneio, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura da fase de grupos. Kevin De Bruyne ainda acertou a trave em cobrança de falta antes do empate, e Brandon Mechele desperdiçou uma das melhores chances da reta final ao exigir grande defesa de Mostafa Shobeir após assistência do meia belga.

O resultado é mais do que um placar. Ele representa a continuidade de um retrospecto que atravessa gerações. Em quatro participações na Copa do Mundo — 1934, 1990, 2018 e agora 2026 —, o Egito acumula quatro empates e quatro derrotas em oito partidas disputadas. Nenhuma vitória. Nenhum gol que tenha valido os três pontos. A seleção africana é, estatisticamente, a equipe com mais jogos em Copas sem jamais vencer entre todas as seleções que participaram do torneio em 2026.

O que explica a sina egípcia em Mundiais

A resposta não está no talento individual — afinal, o Egito tem em Salah um dos melhores jogadores do mundo na última década. A explicação passa por um conjunto de fatores estruturais. A seleção participou de apenas quatro edições do torneio ao longo de 92 anos de história da Copa, o que gera uma lacuna enorme de experiência competitiva no nível mundial. Enquanto seleções europeias e sul-americanas acumulam dezenas de partidas e desenvolvem cultura tática de alto nível ao longo de gerações, os egípcios chegam a cada Mundial praticamente do zero em termos de memória coletiva.

Há também um padrão recorrente nos resultados: o Egito compete bem, cria oportunidades, mas não converte. Em 2018, na Rússia, a seleção perdeu para Uruguai, Rússia e Arábia Saudita — três derrotas que eliminaram a equipe na fase de grupos sem que Salah, que chegou lesionado, pudesse fazer muito. Desta vez, em 2026, o cenário foi diferente: Salah estava em campo, deu a assistência, liderou o jogo ofensivo. Mas a eficiência que falta ao coletivo egípcio se manifestou exatamente no momento mais sensível — a defesa de um resultado que estava ao alcance.

"O Egito jogou bem, foi organizado e mereceu mais do que um ponto", avaliou a cobertura da CNN Brasil após o apito final em Seattle.

A Bélgica que sobreviveu sem convencer

Do lado europeu, o empate tem sabor amargo. A Bélgica, apontada como favorita antes da bola rolar e comandada pelo técnico Rudi Garcia, controlou a posse de bola durante a maior parte do jogo, mas transformou esse domínio em poucas chances reais. De Bruyne e Jérémy Doku tentaram acelerar as ações ofensivas e esbarraram na forte marcação egípcia — um bloco defensivo compacto que funcionou como um corredor de água represada, deixando a pressão belga escorrer pelas laterais sem encontrar passagem central. Lukaku, remanescente da geração que levou a Bélgica ao terceiro lugar em 2018, ainda desperdiçou uma chance clara aos 41 minutos ao cabecear por cima do travessão após cruzamento de Nicolas Raskin. O empate amplia para 18 partidas a sequência invicta dos belgas, mas a atuação deixou dúvidas sobre a capacidade da equipe de superar adversários que se fecham bem.

O que explica a sina egípcia em Mundiais 90 anos e 8 jogos sem vencer — o tabu e
O que explica a sina egípcia em Mundiais 90 anos e 8 jogos sem vencer — o tabu e
"Precisamos ser mais eficientes. Tivemos o controle, mas não soubemos usá-lo", foi o tom das declarações do staff belga ao fim do jogo, segundo relatos da cobertura local.

O que o Egito precisa para mudar o roteiro em Vancouver

Com um ponto conquistado, o Egito tem agora uma janela concreta para encerrar o tabu. No domingo (21), às 22h (de Brasília), a seleção enfrenta a Nova Zelândia em Vancouver, no Canadá — adversário que estreia nesta segunda-feira contra o Irã, em Los Angeles. A Nova Zelândia representa, ao menos no papel, o duelo mais acessível do grupo para os egípcios. Para vencer, o time de Salah precisará resolver o problema que atravessa 90 anos: transformar domínio tático em eficiência real, especialmente nos momentos em que o placar está favorável. A Bélgica, por sua vez, enfrenta o Irã no mesmo domingo, às 16h, também em Los Angeles.

90 anos. 8 jogos. Zero vitórias. O tabu segue intacto.